Fernanda

Arte em palavras

Balaio Literário Compartilhando poemas, contos, crônicas, romances, biografias e idéias literárias.

15/05/2012 17:20

Drummond espanta o frio

Jornalista e Escritora

Hoje em Uberlândia a temperatura está amena. É um daqueles dias em que um cobertor e um bom livro sempre são bem vindos. E, por falar em livro, me lembrei da Antologia poética de Carlos Drummond de Andrade (Editora Record, 414 pág.). Essa obra tem me feito companhia nesses últimos dias gelados e posso dizer que a cada página que leio me surpreendo com o autor. Amor, família, amigos, pessoas e lugares são alguns dos temas abordados por Drummond.

Então, para quem quer espantar o frio eu aconselho fazer a leitura dessa Antologia. Com certeza, as belas palavras do escritor mineiro serão capazes de aquecer muitas almas e corações. E, sem contar que o leitor ainda pode dar alguns bons suspiros e ser tomado por um encantamento especial que os versos do poeta proporcionam.

Ah, e para aqueles que não tem como “sair correndo” e ir buscar a sua Antologia, deixo abaixo uma poesia de Drummond que gosto muito, intitulada “Amar”. Boa leitura e “menos frio”!!! Beijinhos literários e até as próximas palavras.


Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Antologia Poética Carlos Drummond de Andrade- pág. 230)

Comentários (2)

Ao enviar suas informações de registro, você indica que concorda com os Termos do serviço e leu e entendeu a Política de Privacidade do site do Correio de Uberlândia. Só serão liberados comentários cujos autores estejam identificados por nome e sobrenomes e que não contenham expressões chulas e/ou palavras de baixo calão.

 

  1. Ademar Inácio da Silva disse:17/05/12 17:03

    Fernanda,

    que bom ler Drummond.

    Bela escolha. Valeu.

    Responder
  2. Alan Kardec L.Filho disse:18/05/12 0:14

    Muito obrigado Fernanda… eu concordo com você. A obra dele é mágica, e o poema “amar” é um dos meus preferidos. isso é alimento para o espírito… boa noite

    Responder