Érika Mesquita

A diversidade do vinho

Bem Vinho Nutricionista. Especialista em vinhos pela Wine & Spirit Education Trust. Coluna será publicada aos domingos

2/10/2011 6:20

Uvas de laboratório

Nutricionista

No mundo do vinho estão envolvidos tantos profissionais que, às vezes, nos esquecemos de que não só o enólogo participa do processo. Nos vinhedos e nos laboratórios estão agrônomos, biólogos e cientistas, que interferem de maneira efetiva na melhoria dos vinhos. Hoje falo sobre um assunto interessante para quem está descobrindo ou se aprofundando no universo do vinho: as uvas criadas por meio do cruzamento entre variedades viníferas, verdadeiras “uvas de laboratório”.

O caso mais famoso é da uva pinotage, reconhecida como a uva “emblemática da África do Sul”. Foi criada em 1922 pelo cruzamento entre as francesas pinot noir e cinsault. Essa última é conhecida na África do Sul como Hermitage, daí a junção das sílabas pinot+age para a criação do nome. Embora seja a uva símbolo do país, seus tintos mais interessantes são elaborados com syrah e cabernet sauvignon.
Os vinhos Pinotage têm corpo médio, mas são potentes, com boa carga tânica e aromas de especiarias. Podem acompanhar comidas mais fortes, carnes assadas e cairá bem com o tutu de feijão da nossa região. Interessante é que a maioria desses vinhos está numa faixa de preços acessível, mas os mais baratos costumam ser muito amadeirados.

Outro caso famoso de cruzamento é a francesa marselan, criada a partir da cabernet sauvignon e grenache. Essa última uva é a mais importante na elaboração do famoso Châteauneuf-du-Pape. Os vinhos da variedade marselan já são uma realidade no mercado brasileiro, porque muitas vinícolas do Rio Grande do Sul já dominaram as técnicas de cultivo e elaboram vinhos interessantes. Vale provar o Identidade Marselan, da Casa Valduga.

Já a arinarnoa é o resultado do cruzamento entre as francesas merlot e petit verdot, realizado em 1956, por um diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas da França (Inra), em Bordeaux. Resulta em vinhos com a potência e coloração densa da petit verdot e a elegância da merlot. Um ótimo exemplar aqui da América do Sul vem do Uruguai, o Gimenez Mendez Alta Reserva Arinarnoa.

No Brasil, a Embrapa é responsável por cruzamentos para produção de suco ou consumo à mesa. Em 2008 apresentou uma nova variedade, a margot, resultado do cruzamento entre merlot e a americana villard noir. Resta saber se os vinhos produzidos com essa variedade serão considerados vinhos finos ou vinhos de mesa.

Tim-tim!

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