Érika Mesquita

A diversidade do vinho

Bem Vinho Nutricionista. Especialista em vinhos pela Wine & Spirit Education Trust. Coluna será publicada aos domingos

19 de maio de 2013 7:10

Você entende a linguagem do vinho?

Nutricionista

Dias atrás uma pesquisa realizada na Inglaterra revelou que os consumidores não entendem o vocabulário utilizado para descrever os vinhos. Sabe aqueles termos que as revistas especializadas, críticos e as próprias vinícolas colocam nos rótulos? Pois é, são pouco compreendidos pelos ingleses, considerados consumidores experientes no mundo do vinho.

Essa é uma questão delicada de ser analisada, porque não dá para descrever as sensações que se tem ao degustar um vinho sem utilizar um vocabulário próprio. Por outro lado existe um certo exagero nas expressões que acaba afastando o consumidor menos experiente e fazendo com que escolha bebidas mais informais, como se o vinho fosse muito sofisticado.

Tenho tentado, desde que iniciei esta coluna aqui no Correio de Uberlândia, utilizar uma linguagem mais acessível, mas nem sempre isso é possível. Já recebi e-mails dizendo que o texto era muito técnico e em outros os leitores pediam quase que uma “tradução” para alguns termos que utilizei. Então, pensei em criar uma série de colunas que pudesse auxiliar os leitores na compreensão de termos utilizados nas degustações e que às vezes parecem sofisticados demais.

Vou escrever uma espécie de glossário aqui, começando hoje pelos principais componentes do vinho.

Tim-tim!

Álcool – durante a fermentação, o açúcar natural das uvas é transformado em álcool. Por isso, uvas com muito açúcar podem gerar vinhos com alto teor alcoólico. O álcool também é responsável por determinar se o vinho é mais ou menos encorpado, assim como é fundamental para o equilíbrio do vinho. Se o álcool se sobressai em relação aos demais elementos, costuma-se dizer que o vinho é “quente”, porque o álcool é percebido de forma agressiva na degustação.

Acidez – é um importante componente do vinho, responsável por deixá-lo refrescante e com potencial de envelhecimento. Se o vinho é muito alcoólico e tem pouca acidez, o resultado na boca não será interessante, o que os críticos costumam chamar de “vinho chato”. Então, acidez e álcool precisam estar em equilíbrio para que o vinho cumpra seu papel na gastronomia, o que ocorre na maioria dos vinhos brancos e espumantes. Se a acidez é exagerada o vinho pode ficar agressivo na boca.

Tanino – componente encontrado na casca, semente e engaços das uvas, mas também nos barris de carvalho. Os taninos da semente e engaços devem ser evitados, mas os outros são benéficos ao equilíbrio do vinho, dando estrutura (corpo) a eles e favorecendo o envelhecimento. Vinhos com taninos “jovens” ou “verdes” podem causar uma sensação de “adstringência” ou “rascância” no paladar, como acontece ao comermos uma banana verde. Por isso, esses vinhos precisam de tempo em garrafa para ficarem macios.

Érika Mesquita. Nutricionista. Sommelier Internacional (Fisar). Especialista em vinhos pela Wine & Spirit Education Trust.

12 de maio de 2013 7:10

Os vinhos e suas garrafas

Nutricionista

Já escrevi sobre esse assunto em 2011, mas continuo ouvindo perguntas a respeito e acho importante repetir algumas informações, porque o mundo do vinho é um constante aprendizado para mim, para você e para qualquer um que se interesse pelo assunto.

As dúvidas mais comuns que me chegam a respeito das garrafas dos vinhos são: a qualidade da garrafa está ligada à qualidade do vinho? O fundo da garrafa mais acentuado tem alguma ligação com o preço ou qualidade do vinho?
Bem, todos que bebem vinho com alguma regularidade já perceberam que algumas garrafas são imponentes, pesadas e com fundo bem acentuado, e assim dão a impressão de que contém até mais de 750 ml. Mas, essas características não estão relacionadas necessariamente à qualidade do vinho.

Em algumas regiões, o modelo da garrafa é determinado pela lei, pelas regras impostas aos produtores do lugar. Por exemplo, os vinhos da região de Bordeaux são colocados em garrafas com pescoço menor, com ombros mais altos, no estilo que conhecemos como “bordalês”, são mais retas. Na Borgonha, as garrafas têm pescoço mais longo, são mais bojudas e de longe podemos reconhecer seus Pinot Noir ou Chardonnay pelo formato da garrafa.

Em Champagne, e também para todos os demais espumantes do mundo, existe uma garrafa própria, com paredes mais grossas e o fundo com uma curvatura bastante acentuada. Essa foi uma solução encontrada pela engenharia para que a garrafa suporte a pressão interna causada pelo gás carbônico acumulado, que é seis vezes maior que a gravidade da Terra.

Já nos tintos e brancos o fundo “chupado” tem outra função: facilitar o armazenamento nas vinícolas, porque as garrafas são alinhadas na horizontal e o bico de uma encaixa-se no fundo da outra, “travando” a enorme pilha de garrafas.

Na hora de servir o vinho, se o fundo for mais acentuado, pode o garçom, sommelier ou mesmo você em casa encaixar o dedo polegar ali, dando um ar de elegância ao momento. Mas cuidado, é preciso prática para se fazer isso.

Tudo isso não está ligado necessariamente à qualidade do vinho, até porque o produtor “não põe vinho ruim em garrafa cara”. Isso é bastante lógico. Então, se um vinho está numa garrafa que pode custar duas ou três vezes mais que uma garrafa padrão, provavelmente ele tem melhor qualidade. Mas vale lembrar que alguns grandes vinhos italianos da Toscana, por exemplo, estão em garrafas comuns, embora sejam ótimos vinhos.

Mas anote aí: o meio ambiente anda reclamando das garrafas que gastam muito vidro e exigem muito combustível na hora de transportar. É uma tendência.

Tim-tim!

Érika Mesquita. Nutricionista. Sommelier Internacional (Fisar). Especialista em vinhos pela Wine & Spirit Education Trust.

5 de maio de 2013 7:10

Espumante “para mulheres”?

Nutricionista

No mundo do vinho já ouvi muita coisa. Que vinho de verdade é vinho tinto, que espumante não combina com comida e que espumante Moscatel é “docinho demais” e foi feito para mulheres. Preconceitos à parte, quero falar sobre esse último item. Um dia prometo falar sobre os outros.

Os espumantes elaborados com a uva moscatel realmente são mais adocicados que outros (brut ou demi-sec), mas é uma questão de estilo, não porque existe acréscimo de açúcar durante a fermentação. Por isso são a escolha perfeita para se bebericar à beira da piscina com os amigos, mas podem acompanhar perfeitamente sobremesas à base de frutas e até já publiquei aqui uma coluna harmonizando um espumante moscatel com uma salada de rúcula, manga, molho de soja e sorvete de limão. Ficou uma delícia!

Esses espumantes ora são chamados simplesmente Moscatel, ora encontramos no rótulo a designação Asti. Elas fazem referência ao mesmo produto, elaborado a partir da uva moscato ou moscatel. Mas o nome Asti está ligado ao processo de elaboração e é o nome de uma cidade italiana, na região do Piemonte, onde esses espumantes são elaborados há muito tempo.

Em resumo, o método Asti é uma variação do método Charmat, no qual a fermentação ocorre em cubas de aço inoxidável (autoclaves). Mas, ao contrário do método Charmat, em que o vinho base é colocado para fermentar pela segunda vez e produzir álcool e gás carbônico, no método Asti ocorre apenas uma fermentação.

O suco de uvas moscatel é colocado nas cubas com leveduras, que consumirão o açúcar do líquido, transformando-o em álcool e gás carbônico. A fermentação é interrompida quando o teor de álcool está na casa dos 7% ou 8%. Como as uvas são mais doces que outras variedades, o resultado é um espumante adocicado (com alto teor de açúcar), de baixo teor alcoólico, leve, refrescante e muito aromático. Ou seja, é um espumante ideal para aqueles que ainda não se acostumaram aos secos (brut ou extra-brut).

Então, quando encontrar o nome Asti num rótulo, é porque o vinho foi elaborado na região do Piemonte, na Itália. Somente eles podem trazer essa informação. No caso dos espumantes brasileiros, o correto é a expressão espumante Moscatel.

Talvez por ser um vinho bem aromático, delicado, elegante e levemente adocicado, realmente, pode combinar com o paladar feminino. Daí eu prefiro achar que isso é um elogio às mulheres, mas gostaria de ver mais homens com uma taça de Moscatel na mão, rompendo esse preconceito.

Tim-tim!

Érika Mesquita. Nutricionista. Sommelier Internacional (Fisar). Especialista em vinhos pela Wine & Spirit Education Trust.