Busca










Apontamentos da Matuziro






Lorena Matuziro


Literatura, arte, línguas e etimologia. Venha encontrar muitas novidades e discutir estes temas, além de sugerir e receber sugestões de livros, ler resenhas, artigos, como também acompanhar notícias e curiosidades sobre a língua. Pegue um bloco de notas e façamos muitos apontamentos!








30-05-2008


Trilha sonora de nossas vidas...



notas correto

Trilha sonora. Quem nunca elegeu uma música preferida? Tem coisa melhor do que ouvir belas vozes interpretando as sete notas? Para cada situação, um estilo diferente. Gosto de estudar ao som de Chopin ou Schumann, dois românticos da música clássica. Para relaxar, quem sabe um Gonzaguinha, um Milton Nascimento, Elis Regina ou Chico Buarque. Para refletir, não dispenso um Zé Ramalho.

No entanto, entre tantos versos, há sempre aqueles que mais te encantam, te marcam ou te ensinam. A própria palavra música já reflete sua essência. O vocábulo tem origem grega e significa “a arte das musas”. Não só a etimologia da palavra música vem da Grécia, o cantor Chico Buarque buscou inspiração no país da mitologia para escrever a sua música "Mulheres de Atenas" com versos como “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas, temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas”.

Gosto mesmo de coisas marcantes. Uma frase com a qual sempre me identifiquei vem de uma música que, toda vez que tocada, remete imediatamente à eterna Elis. "Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais". Quem não tem essa lembrança? Seja do primeiro amor ou a tão conhecida saudade daquele tempo que não volta mais.

E o amor não correspondido? Quem nunca teve um que atire a primeira pedra. Por causa das não correspondências, sempre garantimos que vamos gostar só de quem gosta da gente. Então, ouçam essa “verdade” muito bem cantada por Caetano Veloso. “Não quero com isso dizer que o amor não é bom sentimento. A vida é tão bela quando a gente ama e tem um amor, por isso é que eu vou mudar, não quero ficar chorando até o fim e pra não chorar, eu só vou gostar de quem gosta de mim”. É a mais pura mentira, basta curar aquela dorzinha que já estamos prontos para amar de novo. Na maioria das vezes, quem não nos ama.

A música das músicas para mim é Oceano do Djavan, embora eu acredite que meu cantor cometeu um pequeno erro ao utilizar o advérbio quase no lugar de uma metáfora. “Esqueço que amar é quase uma dor”. Amar é uma dor, pois se deve aprender a conviver com as diferenças, com a escolha e conseqüências do que é ficar com o outro. Ainda assim, nas derradeiras horas de minha vida e do coração, quero continuar desfrutando desse sentimento e derramando nos ouvidos esse Oceano regido pela linda voz de Djavan.

Por falar desse deus, que é Djavan, vale lembrar que ele também traduziu muito bem as atitudes daqueles indecisos. Sabe aquelas pessoas que te empatam? Não decidem o que querem da vida? “Você disse que não sabe se não, mas também não tem certeza que sim. Quer saber? Quando é assim, deixa vir do coração […] Eu levo a sério, mas você disfarça, você me diz à beça e eu nessa de horror, e me remete ao frio que vem lá do sul, insiste em zero a zero e eu quero um a um. Sei lá o que te dá, não quer meu calor. São Jorge por favor me empresta o dragão, mais fácil aprender japonês em braile, do que você decidir se dá ou não”.

Bem, vamos parar de falar dessas coisas românticas e melosas. Um pouco de história também é bom. O que dizer sobre aquela música do Chico Buarque? “Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue”. Chico é ou não é um dos grandes artesãos da Língua Portuguesa? A letra foi escrita na época da ditadura e, quando ouvida, o “cálice” se transforma em “cale-se”. A comparação é bem pertinente à época, já que a música estourou na época da ditadura. Pai, afasta de mim esse cale-se de vinho tinto de sangue. Sangue derramado pelo genocídio provocado em virtude do cerceamento. Com a jogada de palavras, a letra passou pela censura. A ditadura motivou, também, Geraldo Vandré. “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Grande apelo feito pelo compositor.

São muitas as cativantes e marcantes músicas que nos fazem refletir. Nada como “um dia frio e um bom lugar para ler um livro”. Quem “nunca sonhou acordado e aguou o bom do amor” ou nunca desejou falar com as rosas, “mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”?. Quem nunca teve um caso que era “uma porta entreaberta?”

Nada tão bom quanto música, por isso dediquei esse texto a ela. E você: qual sua música preferida?

Confira, abaixo, o vídeo de Oceano:

 





Comentários (8)



Comentários




Danny
30-05-2008
Já não preciso dizer mais nada Lorena, vc já citou e classificou muito bem a minha música favorita "Oceano de Djavan", eu paro para ouvi-la e viajo em pensamentos, esta música é perfeita para momentos de reflexão.




Rafael Kerubas
30-05-2008
Grande Lorena, este post merece destaque neste fim de semana. Você tocou em um assunto que realmente cria raízes e se espalha pelo mundo da música. Lembro-me de uma conversa de boteco com uns amigos durante a faculdade de jornalismo, onde enumeramos grandes bandas de décadas passadas que faziam um rock sonoro e ao mesmo tempo romântico. Temas que mexeram com muitas pessoas vieram de Europe, Led Zeppelin, Aerosmith e até mesmo Iron Maiden. Claro que não poderia deixar de citar Bon Jovi, Scorpions, Air Supplie, Pear Jam, Foo Fighters, Counting Crows e por aí vai. Me perdoem por não citar uma gama enoooooorme de bandas, mas foram estas que recordei de imediato. Todavia, gostaria de ressaltar a banda Scorpions. É um grupoa que mostra bem o que é aquele tipo de rock balada que ao mesmo tempo é nervoso e não perde o toque de romantismo. E para aproveitar o lance "mela cueca", deixo aqui a letra traduzida de "You and I" da respectiva banda. Se essa não faz parte de uma perfeita trilha sonora, então só nos resta "É o Tchan" rrrrsss: Você e Eu Eu perco o controle Por sua causa, meu bem Eu perco o controle Quando você me olha deste jeito Há algo em seus olhos Que está dizendo que esta noite Eu não sou mais uma criança E a vida abriu a porta Para uma nova e incrível vida Eu perco o controle Quando estou perto de você, meu bem. Eu perco o controle Não me olhe deste jeito Há algo em seus olhos, isso é amor à primeira vista? Como uma flor que cresce A vida só quer que você saiba Todos os seus segredos Está tudo escrito nas linhas de sua vida Está tudo escrito dentro do seu coração Você e eu temos apenas um sonho Para encontrar para o nosso amor, um lugar onde nós podemos nos esconder Você e eu fomos feitos apenas Para amar um ao outro agora, para sempre e um dia Eu perco o controle Por sua causa, meu bem Eu perco o controle Não me olhe deste jeito Há algo em seus olhos que está dizendo que esta noite Eu estou tão curioso para ter mais Como nunca estive antes Em minha vida inocente Você e eu temos apenas um sonho Para encontrar para o nosso amor, um lugar onde nós podemos nos esconder Você e eu fomos feitos apenas Para amar um ao outro agora, para sempre e um dia O tempo permanece parado quando os dias de inocência Estão caindo pela noite Eu te amo garota, eu sempre amarei Eu juro que estou aqui para você Até o dia que eu morrer Você e eu temos apenas um sonho Para encontrar para o nosso amor, um lugar onde nós podemos nos esconder Você e eu fomos feitos apenas Para amar um ao outro agora, para sempre e um dia P.S.: Topo elegante deste post, não?




Carioca
02-06-2008
Boa Noite Lorena! Eu amei o seu texto,muito criativo comparar letra de música com sentimento.Espero mesmo que você possa posta mais texto desta maneira. Parabéns!




Pierre Magalhães
03-06-2008
Diante da grandeza desse apontamento, restam-me poucas palavras para que eu possa comentar acerca do tema abordado. Mas já que me propus a isso, afinal não poderia deixar de me manifestar, vamos lá. Sem dúvida nenhuma, as músicas citadas são de excelente qualidade, tanto nas letras quanto nos arranjos, o que nos leva a viver uma experiência estética fora do comum ao ouvi-las. A segunda metade da década de 60 e toda a década de 70, foram marcadas pelo surgimento dessas grandes letras musicais, uma forma de manifestação camuflada pela suavidade de suas melodias, sendo portanto, o período em que a criatividade mais foi posta a prova, para driblar a censura. Mas enfim, disse tudo isso(embora pudesse tenha me faltado palavras diante desse teu apontamento), para mostrar que sou fanático pela música brasileira e que "Afasta de mim esse cálice" de Chico Buarque é uma das que mais me marcam, juntamente com "Como nossos pais" de Elis Regina. É isso, e parabéns mais uma vez pelo blog. Pierre Magalhães pierre_12_rdj@hotmail.com pima-agenciadainformacao.blogspot.com




Gustavo Moura
03-06-2008
Olha Lorena,realmente música é um assunto que muita gente teme em falar porque gosto não se discute,mas você teve a ingênuidade,uma leveza que todos que leêm seu blog vão procurar as músicas citadas para ouvir.E a minha música preferida,aquela que realmente "dá uma baqueada" no meu coração é APENAS MAIS UMA DE AMOR do Lulu Santos,essa é uma obra eterna.Parabéns!!!!!




Gustavo Moura
03-06-2008
Lorena,você poderia escrever a respeito das novelas na vida das pessoas,como elas influenciam,como era a vida das pessoas sem elas e como é a vida agora.Acho que seria bastante interessante.




Pierre Magalhães (corrigido)
04-06-2008
Diante da grandeza desse apontamento, restam-me poucas palavras para que eu possa comentar acerca do tema abordado. Mas já que me propus a isso, afinal não poderia deixar de me manifestar, vamos lá. Sem dúvida nenhuma, as músicas citadas são de excelente qualidade, tanto nas letras quanto nos arranjos, o que nos leva a viver uma experiência estética fora do comum ao ouvi-las. A segunda metade da década de 60 e toda a década de 70, foram marcadas pelo surgimento dessas grandes letras musicais, uma forma de manifestação camuflada pela suavidade de suas melodias, sendo portanto, o período em que a criatividade mais foi posta a prova, para driblar a censura. Mas enfim, disse tudo isso para mostrar que sou fanático pela música brasileira, e que "Cálice" de Chico Buarque é uma das que mais me marcam (principalmente a memorável interpretação junto com Milton Nascimento), juntamente com "Como nossos pais" de Elis Regina. É isso, e parabéns mais uma vez pelo blog. pima-agenciadainformacao.blogspot.com




Pedro Divino Rosa (jornalista Pedro Popó)
04-06-2008
Lorena, que bom ler seus escritos. Quem nunca já fez a trilha sonora da própria vida? Eu, por exemplo, por muitas e muitas vezes fiz da música o embalo dos meus sonhos e devaneios, fazendo da minha própria vida o filme da minha existência, recheado de canções que jamais vou esquecer. Valeu, menina, por ter nos brindado com texto tão significativo.










29-05-2008


Você conhece alguém patético?



É incrível perceber a evolução, a etimologia das palavras. Todos os dias faço novas descobertas e me encanto perdidamente. Consigo tal deleite de forma extremamente simples: apenas consultando o dicionário, prática cada vez menos comum entre vários brasileiros. Por causa do desleixo da maioria, pesquisas apontam que os falantes da língua Portuguesa, especialmente no Brasil, utilizam apenas 2% de todas as palavras disponíveis.

A explicação a seguir, eu não descobri no “Pai dos Inteligentes” – sim, pois só os burros para não buscar palavras no dicionário –. Em uma aula de Estilística da UFU, dei-me conta do significado de “patético”, após uma brincadeira feita pelo professor. Você já chamou alguém de patético? Certamente sim. Esse é um adjetivo corriqueiramente utilizado. No entanto, qual denominação você queria dar ao sujeito patético? Aposto que de ridículo, imbecil ou idiota. Essa associação provavelmente foi feita por causa do Pateta, personagem da Disney bastante atrapalhado e desastrado, que acabava passando essa impressão de ridículo.

“Patético” nada tem a ver com tolice ou imbecilidade. Uma pessoa patética é aquela digna de dó. Surpreendente, não? Confira minuciosamente uma das definições de patético no Houaiss: “que ou o que tem capacidade de provocar comoção emocional, produzindo um sentimento de piedade ou tristeza; poder de tocar o sentimento da melancolia ou o da ternura; caráter ou influência tocante ou patética”. O adjetivo tem origem grega, no pathetikos, que tem a ver com sensibilidade. No latim, a palavra é denominada patheticus, que significa tocante, impressivo.

O próprio vocábulo “pateta” tem também um significado muito longe de ser sinônimo de ridículo. “Pateta” é aquela pessoa tola, desprovida de inteligência. Tradução para Goofy, nome original do personagem animado em inglês. Essas descobertas me deixam cada vez mais atenta.

Uma palavra tão simples com um significado completamente diferente do imaginado. Leitura nunca é demais. Por mais que tentemos nos "safar", morreremos enforcados e perdidos nos labirintos da língua Portuguesa.





Comentários (3)



Comentários




Danny
29-05-2008
Lorena achei muito interessante a definição de "pateta", devo confessar que eu já utilizei esta palavra da maneira equivocada, agora, não mais. Parabéns continue sempre assim seu blog é muito interessante.




Lu Rodrigues
29-05-2008
Oi Lorena querida! Parabéns pelo blog! Tenho feito ótimas descobertas aqui....Abraços, Lu




PIerre Magalhães
30-05-2008
Mais uma vez você surpreendendo! A cada dia que se passa, fico mais surpreso e encantado com a sua perspicácia ao abordar tema etimológicos com tanta propriedade. Sou um amante da língua portuguesa, uma das mais belas que eu conheço, por isso só tenho a agradecer por sua iniciativa! pima-agenciadainformacao.blogspot.com










28-05-2008


Além da Literatura



Às vezes penso no porquê de grandes autores escreverem. Acho que alguns apenas querem  expressar o que existe dentro de seu interior; outros, no entanto, escrevem textos cheios de percalços e desafiam a inteligência do leitor. Alguns, ainda, escrevem para fazer registros históricos.

Euclides da Cunha é um escritor que foi além da literatura. O livro “Os sertões” é uma dádiva tanto para a literatura quanto para a história. Nunca o li inteiro, mas os trechos com os quais me deparei foram suficientes para me fazer entender a importância desse autor até mesmo para a formação social do povo brasileiro.

O jornalismo brasileiro surgiu dentro da literatura. Machado de Assis e José de Alencar escreveram para jornais da época e, assim, fizeram, além da literatura, a história. O ousado José de Alencar peitou até mesmo Dom Pedro II. Seu texto não agradou muito o monarca que se mostrou socialmente furioso com o denominado “poeta”.

Além do que deixam registrado, acho incrível a capacidade de previsão dos escritores. Isso comprova que a maioria das pessoas que faz história tem mesmo uma mente fora do tempo. São pessoas que pensam e enxergam além do mundo vivido por muitos.

Encantei-me com esse texto de Eça de Queiroz publicado em 6 de dezembro de 1894, na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Li o artigo no site da revista Entre Livros: “Nas fábricas, nas minas, no serviço dos caminhos de ferro, não se verão senão homens de rabicho, silenciosos e destros, fazendo por metade do salário o dobro do serviço – e o operário europeu, eliminado, ou tem de morrer de fome, ou fazer revoluções, ou de forçar os estados a guerras com quatrocentos milhões de chineses. [...] Em cada centro industrial da Europa haverá assim um permanente e atroz conflito de raças”.

Como pode alguém prever o poder que a China teria nos dias atuais? Como Eça já soube que o capitalismo estaria tão forte no futuro se o texto foi escrito simplesmente há 114 anos?

E o que dizer sobre “Elegia de 1938”, publicado por Carlos Drummond de Andrade, na obra Sentimento do Mundo, nas primeiras décadas de 1900:

“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.   

Será que Osama Bin Laden leu esse poema antes de atentar contra as torres gêmeas? Se Drummond ainda fosse vivo, provavelmente seria um forte suspeito do atentado. Como alguém consegue pensar e sentir tão além do tempo assim?

Enfim, são questões que não têm respostas. São gênios que nascem e que serão lidos por séculos e mais séculos e mais séculos. Resolvi escrever esse texto, “Além da literatura”, para mostrar que poesia não foi escrita apenas para românticos e alienados. Literatura vai além: é história, é beleza, é cultura, é formação social de cidadãos. Escritores têm uma capacidade peculiar de entender a conjuntura social.





Comentários (3)



Comentários




didia
29-05-2008
Menina!! Vc é muitoperspicaz. Acredito que o objetivo desses autores seja este mesmo, despertar em todos o que vc percebeu, pena que como vc, sao minoria




Pierre Magalhães
29-05-2008
Apontamento Magalhanesco: Uma coluna ímpar, sem igual em Uberlândia e região. Admiro muito sua ousadia e intrepidez, pois não é para qualquer pessoa se aventurar num jornal e já de cara escrever uma coluna(blog) sobre literatura. Quanto a esse apontamento (28/05/2008), considero válida as suas considerações sobre a atemporalidade dos textos de Eça de Queirós e Carlos Drumond de Andrade. Parabéns, continue assim!




Juber Donizete Gonçalves
29-05-2008
Lorena, realmente o escritor parece vislumbrar o futuro com seus escritos. Além dos que você citou brilhantemente, eu lembraria também de Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Julio Verne, etc. Alguns como Verne, pareciam futuristas, outros como Lobato e Veríssimo, falavam de temas dos seus dias de forma que hoje, ainda é atual. No livro de Eclesiastes na Bíblia diz que: "Deus pôs a eternidade no coração do homem". As pessoas morrem, mas as palavras ficam, são imortais. Parabéns pelo artigo.www.juberdonizete.blogspot.com/










26-05-2008


Estou a ver navios



Quem nunca ficou a ver navios? Seja aquela paquera que você desejou que ligasse, mas que nunca ligou; aquele amigo que você esperava que voltasse, mas nunca voltou. A vida é mesmo assim, como bem diz a música “Encontros e Desencontros”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, divinamente interpretada por Maria Rita: “tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar, e, assim, chegar e partir…”.

No meio de tantos encontros e desencontros, nada mais normal que alguém, aliás, muitos fiquem a ver navios. Uma saudade afinca aos mesmos compassos do coração, ou, quem sabe, um forte desejo de possuir aquilo que não lhe é permitido. A vontade de alcançar o inalcançável e, assim, ficar a ver navios.

A expressão, bastante utilizada, é antiga, datada dos anos de 1500. A raiz do termo surgiu quando Dom Sebastião, 16º rei de Portugal, assumiu o trono em 1568. Assim que empossou, pretendeu criar um império português ao norte da África. O rei chegou a pôr o projeto em prática, mas obteve um fim trágico quando suas tropas foram praticamente esmagadas por forças superiores do sultão Abd al-Malik.

Ao fim da batalha, Dom Sebastião desapareceu misteriosamente. O povo português não aceitou esse sumiço, tampouco a, na época, “suposta” morte do rei. Conta-se que, diariamente, vários portugueses iam à orla da praia onde observavam e sonhavam com a volta do monarca – que nunca voltou – e, por isso, ficavam a ver navios.

Gostei muito dessa explicação. Só tenho a curiosidade de descobrir se tal termo fora criado pelo povo ou por algum historiador. As próprias pessoas diziam que estavam a ver navios ou livros de história atribuíram tal explicação.





Comentários (2)



Comentários




carlos jansson
26-05-2008
Sempre têm aquelas piadas de português sugerindo a ingenuidade deles. Mas neste caso, a piada se encaixa muito mais nos Brasileiros. Um exemplo são os políticos com a eterna promessa de mudanças. E acabamos percebendo que o anterior foi melhor. Mas, mesmo assim acreditamos que vai ser melhor e ficamos sempre "a ver navios".




Morgana
27-05-2008
Lorena No mundo musical, é muito falado sobre esperar por alguém que não vai chegar. Isso também ocorre quando perdemos um ente querido , sabemos que ele nunca mais vai voltar, mas ficamos com uma falsa esperança achando que um dia voltaremos á ver essa pessoa, é inútil, mas é essa esperança que nos dá a alegria de viver e nos ajuda a encarar a vida.










07-05-2008


Carta do leitor



Texto publicado na coluna "Opinião do Leitor" do jornal CORREIO de Uberlândia, no dia 7 de maio de 2008.

Falando de Lorena


Há pouco tempo, Lorena Matuziro estreou a sua coluna nas páginas (eletrônicas) deste periódico e o que, para alguns de nós, pseudo-entendedores da língua pátria, trata-se de ferramenta a ser cotidianamente afiada e bem usada. Sim, pois ninguém em sã consciência ignora como o nosso “pobre” Português vem sendo usado (e abusado) impiedosamente e massacrado, geração após geração de tupiniquins.

Macunaíma, o anti-herói dessas plagas, criado pelo grande literato Mário de Andrade e magistralmente interpretado em filme por outro grande, o Otelo, costumava dizer que os filhos dessa terra pensavam e falavam numa língua, mas escreviam em outra. A jovem Lorena  e a sua coluna chegaram até nós em um momento no qual algumas das  nossas autoridades (em nível federal, inclusive) nem sequer conseguem pronunciar  corretamente a regência ou os pronomes. E quando essas têm à sua frente um ou mais microfones e câmeras de televisão, aí é que o ‘bicho pega’: o português desanda e chego a pensar se o que existe de mais grave em nosso país são os problemas econômicos ou a falta de uma cultura básica em meio a todos os níveis sociais da nossa população.

Deixo-me impressionar, sobretudo, com placas afixadas em casas de comércio e panfletos distribuídos a pedestres, nos quais a epidemia de erros grosseiros de português estropia o nosso rico idioma. Além do que, às vezes, somos obrigados a ouvir certos monstrengos que são ressuscitados não se sabe lá o porquê e que se tornam produto de pedantismo cruel pelo simples fato de querer complicar. Um exemplo é ‘agregar’; deslumbrante e primorosa palavra a qual, confesso, depois de já ter lido centenas de livros e conversado com milhares de pessoas ao longo dos meus 50 e poucos anos, só agora passei a ouvir e a ler com uma estrambótica freqüência.

Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia (MG)





Comentários (3)



Comentários




Lorena Matuziro
07-05-2008
Prezado Gustavo Hoffay, Fico imensamente agradecida e feliz com comentários sobre o meu blog. Quando o criei, pensei que não atrairia leitores, haja vista que o cenário atual que o Sr. tão bem descreveu no texto condiz com pessoas desinteressadas pela língua. Agora, com dois meses de blog, vejo o quanto os leitores estavam carentes de assuntos que envolvem a língua e literatura. Estou muito satisfeita com os resultados, o que me motiva a produzir sempre mais. Atenciosamente, Lorena Matuziro repórter CORREIO de Uberlândia




VALERIANA DE SOUSA MEDRADO
08-05-2008
Oi Lorena..adorei os textos do seu blog..parabéns...




Ana Paula
25-05-2008
Oi Lorena, tudo bem? Você anda meio sumida. Nós, leitores assíduos deste blog, sentimos falta de apontamentos tão inteligentes quanto o seu. Obrigada e até mais...










06-05-2008


Voto de Minerva



Hoje respondo à solicitação da internauta Ana Paula, que postou um comentário no dia 1º de maio no texto “Santo do pau oco”.

Minerva é a deusa da mitologia grega que representa a sabedoria, as artes e a guerra. Ela nasceu de dentro da cabeça de Júpiter, rei dos deuses e dos homens. A deusa da prudência, Métis, teria feito a previsão de que teria, em primeiro lugar, uma filha e, depois, um filho.

Furioso com tal presságio, Júpiter engoliu Métis e, algum tempo após, foi acometido por uma forte dor de cabeça. Por não suportar a dor, Júpiter pediu a Vulcano, deus do fogo, que lhe fendesse a cabeça com um machado. Mal Vulcano concretizou o ato, Minerva nasceu.

A expressão “voto de Minerva”

Conta a mitologia grega que Orestes, filho de Clitemnestra, teria assassinado a própria mãe, e, devido ao assassinato, foi levado a julgamento. Os votos ficaram empatados, e Minerva, por ser deusa da sabedoria, foi convocada por Atena a dar o voto decisivo.

Interessante como, apesar de tantos anos, a história do julgamento, de certa forma, persiste até hoje. É comum utilizarmos a expressão “voto de Minerva” para aludir ao voto decisivo ou, até mesmo, a momentos em que apenas uma opinião interessa para que algo seja resolvido.

Prezada Ana Paula, você estava certa sobre o surgimento da expressão “voto de Minerva”. Participe sempre que puder.

Aproveito, também, para agradecer a participação de todos os internautas. Desde que criei o blog, recebi muitos e-mails e comentários. Muito obrigada pelo carinho e atenção. Procuro postar conteúdo de qualidade para leitores de qualidade.





Comentários (1)



Comentários




Eliane
07-05-2008
Olá Lorena. Adorei o assunto do dia 06/05/2008. Espero que vc coloque cada vez mais assuntos sobre literatura, história e mitologia. Esses assuntos são os meus favoritos e os que mais me interesso. Beijos para vc e aguardo novas publicações.










05-05-2008


O tal do diferenciado



Alguns termos que surgem como fruto da criatividade causam um forte impacto nos falantes de determinada língua. De repente, todos começam a usá-lo. Esse uso excessivo pode se transformar em uma moda, uma gíria, e pode até mesmo identificar um grupo social.

Um exemplo disso é quando muitos adolescentes dispararam a dizer “fala sério!” A expressão, impulsionada pela atriz Ingrid Guimarães, no papel da Taty, em um quadro no programa Fantástico, passou a ser utilizada como ponto, vírgula, exclamação, manifestações de susto, ironia e alegria nas frases de muitos adolescentes. Era a gíria do momento.

Alguns termos não se transformam em gírias, mas, sim, se tornam clichês. Se utilizados, empobrecem os textos. Em provas para concursos, podem até arrancar pontos do candidato. Exemplos de chavões são as palavras e expressões atualmente, hoje em dia, samba no pé e a união faz a força.

Percebi em várias reportagens e programas de televisão que há uma forte febre pelo uso do “diferenciado”. Diz-se que o jogador fez uma jogada “diferenciada”, que o programa está com um toque “diferenciado”, que a roupa da atriz é “diferenciada”, que a cantora tal teve uma atitude “diferenciada”.

Consultemos o Houaiss. Diferenciado: que se diferenciou, que sofreu diferenciação (diz-se de célula ou tecido). O termo diferenciado surgiu do diferente e, no começo, era, de fato, diferente, uma grande sacada, mas, em virtude de seu forte e insistente uso, o diferenciado virou um “clichezão”.

O que era para diferenciar, agora já não diferencia em nada. A atitude da atriz foi diferenciada. O que ela fez? Bateu em alguém? Ao mesmo tempo, o jogador fez um jogo diferenciado. Por quê? Ele plantou bananeiras no meio do campo ou foi flagrado com travestis?

O uso do termo “diferenciado”, além de ter se tornado um clichê, está sendo empregado erroneamente por muitos jornalistas e demais profissionais da mídia. Tal termo é utilizado para qualificar algo quando não se encontra um termo exato para tal, o que resulta em textos orais e escritos pobres e superficiais.





Comentários (1)



Comentários




joao roberto spini machado
12-05-2008
Lorena,o diferencial Maior,continua com voce.Consulta Houaiss,escreve o nome dele,direitinho.Fala de girias,clichezão,e outras.Graças! Uberlandia,no que sempre precisou (C-U-LT-U-R-A),melhorou e muito de 20 anos para,Ou será 10? Ou sera´com o Advento ou o Ultimato Matuziro.?Fico com ele? além do que ela é danada de bonita.2x10=20.
















.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletronico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Correio.