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Ponto de Vista







14-03-2010


Maldito Spread



No Brasil, enquanto a maioria dos empresários, principalmente pequenos e médios, literalmente remou contra a maré no ano passado para superar a crise, os bancos privados nadaram de braçada num mar de lucros, sem dúvida nenhuma, resultado dos altos juros cobrados sobre operações financeiras.

Me desculpe o leitor por essa analogia inicial um tanto irônica, mas é difícil conter a indignação diante de tal situação, que há anos, perdura nesse país. Para se ter ideia, o lucro líquido de oito bancos privados que publicaram os seus balanços (até janeiro) aumentou 24,1% em 2009, em comparação com 2008, apesar da crise que fez crescer os índices de inadimplência e abateu o nível de atividade geral da economia. No topo da lista, aparece o Itaú Unibanco, que divulgou o maior ganho da década do setor bancário no país: R$ 10,067 bilhões, 29% a mais do que o lucro contábil informado em 2008 (R$ 7,803 bilhões).

No geral, a soma do lucro dos oito bancos chegou a R$ 23,174 bilhões no ano passado, contra R$ 18,675 bilhões em 2008. Além do Itaú, fazem parte desse privilegiado grupo os bancos Bradesco, Santander, BMG, ABC Brasil, Industrial, Modal e BRP. Mesmo com a crise, que provocou uma estagnação da receita com empréstimos, os bancos foram buscar na tesouraria os recursos para compensar a situação. Diante disso, o ganho com títulos e valores mobiliários e derivativos passou de R$ 31,4 bilhões para R$ 41,3 bilhões — alta de 31,5%. Para efeito de comparação, o avanço da receita com crédito da amostra foi de 8,3% no período; com serviços e tarifas, 12,1%. Sem mencionar o crescimento verificado também na contribuição de áreas como seguro e previdência para o faturamento total dos bancos, que, no caso do Bradesco, chega a 30%. Nos oito bancos em questão, a contribuição de seguros para a amostra avançou 22%.

Ainda assim, outro levantamento, dessa vez da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), mostrou que, nos 12 meses de crise financeira global, clientes e empresas brasileiros pagaram um diferencial maior entre a taxa de juros cobrada pelos bancos e a que eles pagam aos clientes para captar recursos, quando comparados com outros países. Essa transação, o spread bancário, custa R$ 261,7 bilhões aos brasileiros e é a mais alta de 40 países com o mesmo modelo.

Nesse contexto, caso a média mundial de spread bancário fosse aplicada ao Brasil, teria caído para R$ 71,5 mil milhões (28,2 mil milhões de euros), apontou o estudo da Fiesp, que tomou como base dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No caso específico do spread, responsável pela maior parte dos lucros bancários, ele é um exemplo perfeito de espoliação — dos clientes e empresários. E ninguém toma providência para dar um basta nessa situação, que, acredito eu, ocorre em nosso país pela simples existência de um oligopólio bancário autorizado e estimulado pelo governo brasileiro como parte de sua estratégia de consolidação desse modelo econômico.

Quero deixar claro que não sou contra o lucro, até porque trabalho para isso. Sou contrário à forma como isso ocorre no sistema bancário brasileiro, que se dá através de nítida exploração dos clientes.
Mas eu só quero ver quando essa “galinha de ovos de ouro”, que inclui a nós, empresários, deixar de pôr ovos nas cestas dos banqueiros!

Pedro Lacerda
Presidente da Fiemg Regional Vale do Paranaíba





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13-03-2010


Levanta e anda!



Pedro e João iam para o templo orar e falar com Deus... Bem junto à porta estava um aleijado de nascença, pedindo esmolas de qualquer valor. Pedro e João, que tantas vezes estiveram ali com Jesus, antes de suas ressurreição e assunção, agora observam a mão estendida daquele cidadão (e isso nos ensina que, quando se busca a Deus, acha–se o irmão) moveram-se em direção a ele dizendo: “não temos prata nem ouro, mas em nome de Jesus de Nazaré te ordenamos: levanta e anda!”

Faltava fé naquele necessitado homem, e, então, eles estenderam a mão e ele se apoiou (também na fé deles), depois se pendurou nos braços dos mesmos e finalmente andou — a partir daí glorificava a Deus, segundo Atos 3:6.

Na verdade, o que o mendigo queria naquele momento era somente algumas moedas, porém Deus tinha preparado para ele um grande milagre, utilizando como operadores os apóstolos, que usariam o nome do Senhor pela primeira vez para curar e com sucesso. Talvez por esse motivo, tantos outros foram curados e ele não, durante a passagem de Jesus por aqueles portais. E lições não faltam para o episódio, quando o comparamos com os acontecimentos da “Igreja” dos nossos dias. O tempo de Deus para realização de maravilhas não se dá na mesma escala do nosso tempo. Quantos anos aquele homem esperou? Muitas vezes se achando injustiçado, já que presenciara curas cinematográficas feitas pelo Senhor naquelas paragens.

É fato que muitos cristãos lançam a palavra de Deus, todavia poucos estendem a mão em direção ao oprimido, e raros são os que suportam em seus “braços” aqueles que são o objetivo final do evangelho. Muitos religiosos vão às igrejas por hábito e por isso não vão buscar a Deus – por conseguinte nunca encontram seus irmãos, apesar de os verem todos os domingos.

Alguns, carreiristas eclesiásticos, procuram os melhores lugares junto ao altar, para afinal conseguirem os melhores cargos nesta organização terrena, tangível e algumas vezes obscena, e que não é a verdadeira “noiva de Cristo”, intangível, incorruptível e celestial.

E não paramos aí na comparação, os resultados ali descritos fizeram todos os demais circunstantes louvarem a Deus, causando assombro no “status quo” daquele tempo. E vos digo que muito maior desconforto causaria em presbíteros, bispos e pastores tal efeméride ocorrendo nos dias que hoje correm, quando os “esmoleres” são eles mesmos, para fazerem obras que nunca terminam, pois escondem sérios desvios de dinheiro e conduta.

Certo dia, em uma dessas igrejas, alguém sugeriu que se fizesse uma auditoria contábil financeira em uma obra com evidências de mau uso do dinheiro e desvios para bolsos alheios ao objetivo santo de ajudar o próximo. Qual foi o resultado? Sermões com indiretas, uso das escrituras para intimidar os incautos. Esquecem estes pastores que em Atos 2:44-45, o texto sagrado descreve a verdadeira igreja que  subsiste,  de forma intangível, felizmente: ”Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”. Utopia? Pois esta é a igreja que tem o espírito do Nosso Senhor Jesus Cristo. E é nela e em Deus que temos as curas físicas e espirituais, além do seguro abrigo para as calamidades a que se refere o salmista Davi.

José Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor
debatef@debatef.com.br





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12-03-2010


As raízes da violência



Não tenho neste escrito a pretensão de provar discussões a respeito das causas da violência e, por consequência, a da criminalidade que aflige nossa sociedade, tampouco o de apontar a fórmula mágica para acabar de vez com tais causas, até mesmo pela impossibilidade de efetivação. Portanto, o motivo é simples: o tema violência urbana tem provocado discussões inacabáveis, como também postulados ideológicos pessoais que nada acrescentam para as expectativas e ações em prol da Segurança Pública brasileira, bem como o ajuizamento da sociedade, que pode ser levada a crer em algo irreal pelas narrativas e ingerências arquitetadas por meio de comentários totalmente fora da realidade.

A violência tem suas raízes alicerçadas na constituição do homem, sendo o seu nascedouro desde os primórdios. Dessa forma, a violência é acompanhada pela evolução dos tempos. Ao acossarmos esse raciocínio, precisamos considerá-la na gênese do progresso do homem acompanhada até a contemporaneidade. 

Nesse contexto, vivemos hoje momentos críticos da nossa realidade com a deflagração das monstruosidades, irregularidades, onde impera um conjunto de problemas que passa pelo desemprego, decadência do sistema educacional, saúde e moradia, corrupção generalizada, descrédito nas ideologias, desrespeito ao meio ambiente, crime organizado e tráfico de drogas, isto apenas para citar alguns.

Ocorre que a violência não está restrita à construção só desses cenários acima especificados, mas em vários outros ambientes e conjuntos de mudanças sucessivas que fazem surgir algo que de início era apenas potencial, mas que evoluiu. Quem não pensa da mesma forma só conhece a violência atual e ignoram os estudos, suas ascendências. Dessa forma, já se equivoca desde as ordenações primeiras, pois a violência acompanha a conduta humana, faz parte da natureza do homem independentemente de este encontrar-se em ambientes diversos.

Os seres humanos cometem atos violentos (criminosos) levados pela influência do meio em que vivem. Por exemplo, a “condição social" abarca um abismado de características, como: classe econômica — renda escassa ou nula (oportunidade de trabalho); desigualdade social — distribuição de rendas, constituição de caráter — estrutura familiar na qual foi criado e na qual vive atualmente, (educação — escola — educandário etc.); Muitos fazem ideia no mascaramento de quem nada sabe sobre o assunto e considera a violência uma característica contemporânea!

No entanto, ela é emanada da evolução do homem, teve sim suas acrescidas sustentadas pelo surgimento da globalização, da afluência populacional, da exclusão dos diversos níveis sociais. Porém, violência não é um fenômeno púbere na sociedade brasileira ou no mundo. Ela pode sim ser controlada, combatida com eficiência e dentro do patamar de aceitação social, mas extingui-la por completo ou baixar os índices criminais na sua totalidade é querer acreditar em algo impraticável.

Por isso, expresso na sua forma elementar e simples como neste escrito, de forma a ser entendível pela sociedade e, principalmente, moldada na realidade que pode ser constatada em nível de pesquisa e análise social em convencimento deste.
Não há conceito mais acertado para a compreensão de um tema polêmico do que entendermos suas origens e, principalmente, com a participação da sociedade em representação da Lei maior – art. 144CF/88 "Segurança Pública é dever do Estado".

Diógenes Pereira da Silva
Policial Militar da PMMG





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Robledo M.S.
12-03-2010
Caro amigo ! Parabenizo-o pela clareza , pela amplitude e alargamento das idéias discorridas em seu texto. Pois refletem o dia-a-dia violento que já acreditamoas ser "normal", às vezes além de recebermos a violencia física e moral estamos perdendo também a nossa dignidade. Continue assim sucesso. Robledo M.S. - Policial Militar










11-03-2010


Dia Internacional da Mulher



Li nos jornais, vi e ouvi nas televisões a notícia. Desta vez, querendo dar realce, o dia festivo foi chamado “internacional” – ou seja, o mundo inteiro celebrava a mulher.
Aqui nos sertões fiquei encabulado: um dia que o mundo comemorava foi passando quase despercebido.

Dia do Carteiro, do Motorista, do Médico, do Enfermeiro, de tudo quanto é gente local foi celebrado — e a mulher nem por isto ou muito menos. Sou velho pensador e psicólogo pelo curso vago da vida, fiquei imaginando.
Afinal, em nossas casas e infância, a mulher foi sempre comemorada, desde o primeiro leite até a primeira palmada. Bem ou mal, mulheres sempre foram as chefes da casa.

Ali o homem era persona mais rara, chefe do tesouro pagador das despesas — mas as ordens e decisões sobre filhos e destinos eram das mães — que nunca chegavam ao patamar internacional.
Os tempos foram passando, chegamos na mulher que aí está hoje. Por incompetência ou preguiça ou vagabundagem, o homem foi ficando comodista e perdendo seu espaço.

Eu já falei do típico jogador de truco, bebedor de cerveja no passeio da rua, enquanto a mulher tinha que se virar para pôr comida na mesa e escola para os filhos. Deu no que deu: a mulher jovem dos tempos atuais já não é mais a recatada gorda criadeira dos filhos.
Ela estuda e trabalha desde cedo, disputa cargos nos concursos públicos, lê muito mais, mete dedos no computador, a cara no trabalho e o olhar alto e futuro.

A ‘homaiada’ jovem mete um boné ridículo, um tênis e uma calça meia- boca que a mamãe deu — reúne-se em bloco e fica vagueando pelas ruas, tardes e noites, pensando em alguma mina infeliz, em cerveja e droga da noite adentro — uma nova e inútil sociedade.

A mulher de verdade e destes tempos se agarra aos estudos, vestibulares, cursos superiores que paga com seu magro salário... mas é independente daqueles homens do passado, alguns que até se casam e são por elas sustentados.
Um, que eu conheço, virou a empregada da casa: faz almoço, lava a roupa, leva o menino à escola... só não pariu porque a natureza lhe negou esta competência.

Pois é, meus amigos, nem as mulheres atuais ficam desvanecidas e seduzidas pelo tal “dia internacional”.
Estão todas no trabalho, ocupando espaço de machos frouxos, subindo cada vez mais na escala social.
No simples, vejam as presidentas que vão surgindo — na Alemanha, no Chile, na Argentina, na Inglaterra... e olhem a Dilma, que está trovejando por aqui.

É, minha gente, a mulher não é mais aquela que o Dorival Caymmi contou pro Zé Simão, que lhe perguntou o que ele iria ser se fosse mulher – e o bom baiano respondeu: “dadêra!”

Nada disto, meu amigo. A mulher de hoje é outra, acrescentou à tradicional parição e criação de filhos o seu trabalho físico e social desta nova sociedade. Realmente, ela não é festejada nem desfruta a fama do seu dia internacional que tanto merece. Eu, no meu simples, lhe bato palmas.
A nova mulher está construindo um novo mundo.

João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico
Uberaba (MG)





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10-03-2010


Rádio cabeça [II]



Por onde andavam as modas do Zé Béttio? Vontade de ouvir um Bepe na sanfona, um Bis para o amor, um Loirinha linda.
Um mundo de gente que queria muito escutar. Sumiram com eles. Simplesmente não cabiam naquela rádio cabeça.

Não adiantava dar tranco miúdo, curtinho, pois as estações estavam assim agarradinhas, bem pertinho umas das outras. Só mudavam mesmo eram os tons das pregações. Uns mais calmos, outros chutando baldes e santas. Mas a barganha era a mesma. O reino dos céus por um punhado de tostões era a promessa. Primeira classe no céu ficava bem mais caro, mas um barraquinho em alguma encosta de nuvem, apesar do risco de desabar em chuva, cabia no bolso de qualquer um, assim garantiam. Deus, misericordioso, avalizava, esbravejavam a plenos pulmões os mercadores.

Tudo era promessa. Dava para imaginar os pregadores, suando mais do que tampa de marmita a urrar a salvação em troca de milhão. Agora tormento mesmo, castigo dos céus, acontecia na sua vida de quatro em quatro anos. Aí não tinha saída. Era geral, de cabo a rabo, todas as suas estações cerebrais selecionadas que podiam ser do ombro ao cotovelo, da popa ao dedão do pé, de uma hora para outra, como que num macabro combinado para só, e somente só, aborrecer, passavam a transmitir a mesmíssima coisa.

Liquidação não mais de passagem para o céu, mas de promessas mirabolantes, de galanteios e bajulações para quem chamavam na maior intimidade de “meu povo”. Uma fiada de gente, a melhor gente do mundo, pois era assim que eles próprios se davam a saber e conhecer. Uns que nunca passaram por baixo de uma sombra de pequizeiro ou de torta caviúna da região, falando como se morassem aqui a vida toda.

Chamando os outros por nome como se parente fossem. Até ele foi chamado de caro colega por um que nunca tinha visto nem em fotografia. Bem que desconfiou daquele um que não desgrudava do moço, sempre cochichando alguma coisa no ouvido dele quando alguém vinha chegando.

Melhor rádio dentro da cabeça do que bafo no pé de ouvido, pensava. Nesses períodos, de quatro em quatro anos, chegava a sentir falta da venda de milagres. Jurava que da próxima vez ia encomendar um, se é que tivesse sobrado no estoque. Assim acabava com a ladainha dessa gente sem rosto que falava como se íntima fosse e de pé junto jurava escola para onde nem criança tinha, ponte para onde córregos e riachos eram secos há anos, mata-burro por onde só ele e sua gente tinha de diariamente passar.

Nesses períodos de quatro em quatro anos dava um arrependimento danado do tropeço e de ter escorado na tal cerca. Nesses períodos, só havia um recurso: subia na gameleira imensa na porta de sua casa, chegava lá nas grimpas, nos galhos mais fininhos, levantava os dois braços para cima, abria bem os dedos. Assim conseguia sintonizar uma rádio com voz totalmente diferente, estrangeira, cheia dos “yes we can”. Afinal, do palavreado das suas estações naqueles períodos, pouco se pescava também, tamanha a enxurrada de promessas. O proveito era pouco.

Pior, esse infortúnio durava meses, até beirando novembro. E depois disso, tudo continuava que nem sempre foi. As pontes, as escolas, as estradas, o médico-doutor, o postinho de saúde viravam fumaça na sua cabeça e aos olhos de todos da vila. Voltavam as promessas do paraíso — mas dessas já estava escolado. Quanto ao seu precioso voto, esse só dava mesmo para quem bem fazia.

William H Stutz
Veterinário sanitarista
whstutz@gmail.com
whstutz@netsite.com.br





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09-03-2010


Rádio cabeça [I]



Foi de um tempo para cá, depois de um baita choque tomado em cerca eletrificada, que ele passou a sentir aquela coisa estranha.
Era um mundo de vozes, músicas e propagandas sem fim em sua cabeça. No começo achava que estava endoidando, procurou recurso com a dona da farmácia que categoricamente afirmou que para aquele tipo de coisa tinha remédio não. Procurou benzedeira, curandeiro, pai de santo e nada de resolver.
Não sabia o que o incomodava mais, se eram as vozes e músicas ou as garrafadas que enjoou de tanto tomar por conta disso. Com o passar do tempo, bem aos poucos, foi acostumando e até dominando as transmissões. E não era que, pensava conformado, por conta da cerca de arame que apartava o touro holandês das novilhas e vacas paridas, tinha ganhado um rádio na cachola!
Amanhecia o dia, era só bater o calcanhar da botina no assoalho que lá vinha uma modinha sertaneja mansa e gostosa.
Na toada que saía de casa rumo à roça de feijão era só dar um tranco no pescoço para esquerda que mudava a estação.
Dominou tanto, amansou de vez o acontecido que não foi uma nem duas vezes que usou do expediente em benefício próprio. Durante a missa de domingo ou em conversa desgostosa, era só importunar que ele simplesmente sintonizava certa estação e punha atenção em música ou caso contado na cabeça.
Esquecia-se do mundo e das conversas sem interesse. Armava um jeito bem falso na cara, que podia ser de sério ou de achar graça, de tal maneira convincente, que todos acreditavam em sua atenção totalmente tomada pela prosa dos outros ali na roda. Qual nada, estava era longe, bem longe com suas ondas falantes, nem sermão de padre emplacava.
Só padecia mais um pouco era em noite de chuva brava, cheia de coriscos e trovões. Pois aí a estática, os chiados e as vozes entrecortadas pareciam mais a mandioca fritando em panela de ferro.
Suplício. Pois de tudo mesmo, desligar de vez não tinha jeito.
Nem a esposa e filhos que, por pior malfeito que fosse o tamanho da reclamação ou arte conseguiam tirá-lo mais do sério. A coisa aqui fora ficava preta? Era só quebrar, dar um tranco no pescoço pra lá ou pra cá que logo achava algo do agrado e se distanciava do mundo. Feliz da vida ficava, e nem de pilha fazia conta. Era uma bênção e aos anjos agradecia todos os dias.
Tocava a vida, tocavam as rádios, ia-se.
Mas de hora pra outra, como que por castigo, as estações pararam de apresentar as notícias da vila e, pior, de tocar suas músicas preferidas. Não mais informavam se ia chover, fazer sol ou cair geada.
Deixou de ficar informado de quem nascia ou quem morria e, por conta disso, perdeu um monte de batizado e enterro.
O que dava agora do começo ao fim era gente vendendo fé e milagre para todos os gostos e bolsos.
Era milagre no cartão de crédito, à prestação, financiado sem juros em até 12 vezes. Quer um milagrezinho? Tem encosto trancando a sua vida? Deu gogo nas galinhas do quintal? Vaca secou leite? Deu coró no milho? Unha encravada? Espinhela caída? Amor não correspondido?
Traição? Orai, bradavam em todas as estações. Temos milagres novinhos em folha, mas são mais caros, temos usados e devolvidos por defeito de fábrica que estão no queima, é coisa pouca, um arranhadinho na pintura, uma amassadinho na lata, um verso trocado, nada que comprometa de todo os resultados.
E não é que, de hora para outra, os mercadores da fé alheia compraram todas as estações de rádio! Achar uma sertanejazinha, uma moda caipira, estava difícil, cada vez mais difícil. (Continua).

William H Stutz
Veterinário sanitarista
whstutz@gmail.com





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07-03-2010


Faltam líderes nas empresas



Um dos temas mais estudados e debatidos nas empresas e nas escolas de negócios é “liderança”. Livros, cursos não faltam sobre o assunto, mas o problema continua: há falta de boas lideranças, tanto na área empresarial como nos demais setores. E a situação não tem melhorado o suficiente para atender à demanda, esta é a questão.
Recentemente, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou com destaque artigos abordando parte da pesquisa com executivos top, os quais afirmaram que há falta de líderes “em quantidade e qualidade suficientes para executar as estratégias das empresas”. E foram além, ao afirmar que a escassez de líderes é um gargalo que vai limitar o crescimento de muitas companhias num horizonte de cinco anos. As empresas, infelizmente, não vão executar à plena carga as estratégias que têm planejado, só executarão 70%, porque não têm “gente”. Acreditamos que, onde não há liderança, a qualidade da estratégia e da execução estará comprometida, é o que temos presenciado.
Alguns dados interessantes da pesquisa: quando foi solicitado aos 1.065 executivos que enumerassem suas principais preocupações, houve respostas como: 63% para a falta de líderes, 57% para o desenvolvimento e capacitação de novos líderes e 41,8% para a necessidade de fazer com que todos entendam com clareza o seu papel.  Quem atua no ambiente acadêmico ou empresarial sabe com muita clareza e tristeza que estão falando do óbvio, de algo bem antigo e debatido, mas que, pelas conclusões, as universidades e corporações ainda não obtiveram um resultado satisfatório. Os mesmos entrevistados citaram como principais desafios “comprometer colaboradores com as decisões estratégicas, desenvolver competências necessárias nas equipes e ter pessoas com o espírito ‘fazedor’”. E insistem que “os programas de desenvolvimento, em razão da importância, terão que ser bem agressivos”.
Concordamos parcialmente com a conclusão da pesquisa, no ponto em que coloca o foco do problema como sendo a falta de investimento em capital humano. Acreditamos ser verdade que a maioria das empresas não investe o necessário na formação de lideranças, mas não podemos esquecer que há uma deterioração generalizada no tocante aos valores, começando pela formação da família, na qual os avós e pais tinham uma participação significativa, os preceitos religiosos e mesmo os símbolos nacionais estavam presentes na prática e nos corações, o que não acontece mais.
Levar a discussão de valores que deveriam ser fornecidos e incorporados na família para cursos de negócios e empresas é algo que ainda não acontece, é onde está na maioria das vezes a falha na formação das lideranças: têm faltado, a muitos que ocupam cargo de liderança, valores como compromisso, determinação, honestidade, capacidade de tomar decisões corajosas e educação básica, ou melhor, como se relacionar com as pessoas, principalmente com os idosos.
Na busca de talentos, a boa empresa obtém sucesso, mas em relação aos valores básicos, há um problema. Pesquisar sobre os antepassados e a forma como cada pessoa foi criada poderá contribuir e, ao mesmo tempo, valorizar as práticas que a empresa deve adotar. A soma dos valores do candidato aos da empresa poderá, no estilo antigo, “forjar” uma pessoa de valor, um líder.

Hélio Mendes
Prof. e Consultor de Estratégia e Gestão
latino@institutolatino.com.br





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06-03-2010


Mudanças no Imposto de Renda



A Receita Federal já está recebendo as declarações de imposto de renda de pessoas físicas e, neste ano, o formulário tem uma série de mudanças que merecem a atenção do contribuinte. A Receita alterou algumas regras da obrigatoriedade da Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física.
Agora, por exemplo, estão obrigadas a declarar as pessoas físicas que possuíam um patrimônio superior a R$ 300 mil em 31 de dezembro de 2009. Antes, esse valor era R$ 80 mil e ficou sem correção nos últimos 10 anos.
Outro ponto que merece destaque é que as pessoas físicas sócias de empresas estão desobrigadas a declarar, desde que não se enquadrem nas demais regras de obrigatoriedade (entre as quais ter recebido, durante o ano de 2009, rendimentos brutos tributáveis superiores a R$ 17.215,08 ou rendimentos não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte e isentos, acima de R$ 40 mil).
Quem realizou venda de bens ou direitos na qual foi apurado ganho de capital sujeito à incidência de imposto, mesmo nos casos em que o contribuinte optou pela isenção por meio da aplicação do produto da venda na compra de imóveis residenciais no prazo de 180 dias; quem realizou negócios em bolsa de valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas; pessoas com receita bruta superior a R$ 86.075,40 por meio de atividade rural, ou que estejam compensando prejuízos de anos anteriores ou do ano a que se refere a declaração, neste caso, sendo vedada à declaração por meio do modelo simplificado.
No entanto, vale ressaltar que, em se enquadrando em ao menos uma das regras de obrigatoriedade, o contribuinte deverá considerar na declaração suas participações societárias, bem como seu patrimônio, ainda que não some R$ 300 mil.
Para os brasileiros que deixarem o país de forma definitiva também há novos prazos.
Até 2009, quem se enquadrava nessa condição tinha 30 dias, a contar da saída do Brasil, para comunicar a Receita. Agora, o prazo foi ampliado.
A Comunicação de Saída Definitiva do País deve ser entregue eletronicamente, pelo site da Receita Federal, com o prazo a contar da data em que se adquire a condição de não residente até o último dia útil do mês de fevereiro do ano-calendário subsequente.
Já a Declaração de Saída Definitiva do País, que antes deveria ser entregue no prazo de 30 dias a contar da data caracterização de não residente, passará a ser entregue somente nos meses de março e abril do ano subsequente ao da caracterização de não residente.
Dessa maneira, o contribuinte que encerra sua residência no Brasil terá tempo hábil para organizar a documentação necessária para a elaboração da Declaração de Saída Definitiva do País.
O contribuinte deve ficar muito atento a essas novidades para não cometer erros.
E é sempre bom lembrar que as pessoas que entregam a declaração mais cedo recebem antes a restituição. Portanto, agora é a hora de tirar as dúvidas e, se necessário, procurar um especialista.

Sergio A. Kubiak
Tributarista





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05-03-2010


O que é sociedade



A inteligência é a faculdade mais importante dos animais e que no homem, devido à sua anatomia, atingiu o ponto mais elevado, consequentemente, tem também o ego mais desenvolvido. Se por um lado isto é positivo, por outro é extremamente negativo, uma vez que o torna excessivamente egoísta e exigente, fazendo levar uma vida complexa e cheia de detalhes. No passado não muito distante, o homem tinha uma vida simples, sem muitas exigências. Uma pequena propriedade rural com poucos empregados era suficiente para satisfazer às necessidades de algumas famílias; aquele pequeno aglomerado precisava comprar apenas querosene, sal, arame farpado e algumas coisinhas mais. O arroz, o feijão e o milho eram produzidos e beneficiados ali mesmo; com a antiga roda de fiar, símbolo da liberdade adotado por Mahatma Gandi, fiava o algodão, que depois de tingido era tecido nos rústicos teares de madeira; criava bois, porcos e galinhas que forneciam carne, leite, gordura e ovos. O transporte era feito a pé, a cavalo ou em carros de boi e tudo se resolvia na própria fazenda.
Hoje o mundo é muito diferente... A população mundial explodiu e está próxima dos 7 bilhões de habitantes; houve uma grande explosão científica e um fantástico desenvolvimento tecnológico: os rudimentares carros de boi se transformaram em carros de último tipo, aviões supersônicos e nos famosos trens-bala que ligam as populosas cidades do mundo; até o velho rádio e o cinema cederam espaço para a televisão. Aquela vida simples e pacata tornou-se agitada e exigente; o bucolismo rural foi trocado pela agitação e o nervosismo das grandes cidades e o mundo de hoje não é mais aquele simples, tranquilo, singelo e até mesmo ingênuo mundo de nossos avós.
Com essas profundas mudanças, um homem só, por mais inteligente e rico que seja, não é capaz de suprir suas necessidades e atender a tantas exigências devido à grande complexidade da vida atual. Portanto, o homem e também muitos animais vivem em comunidade, onde trabalham para o mesmo fim; as abelhas, os marimbondos e muitos outros são exemplos de animais que vivem em grupos, pois, somente assim, as pequeninas abelhas conseguem construir grandes colmeias e produzir muito mel. O homem, por ser mais complexo, com mais razão, somente se realiza vivendo em grupos, que se chama sociedade. A complexidade da vida humana é o resultado da desigualdade entre as pessoas. Essa desigualdade tão criticada por muitos é, entretanto, a característica mais importante do homem, sendo o agente responsável pela sua vida em comum, onde cada um concorre com o seu talento para satisfazer o todo. Este pensamento baseado na desigualdade humana leva-nos a crer que todos têm o mesmo valor. A sociedade é o convívio pacífico e harmonioso de pessoas da mesma cidade, estado ou país, onde todos têm a obrigação de trabalhar para o bem comum, oferecendo seus talentos no sentido de proporcionar melhores condições de vida, não somente ao homem, mas estendendo a todos os seres, uma vez que estes também fazem parte da natureza, e a principal ação é servir, porque, somente assim, todos serão servidos. Compreendendo e, consequentemente, aceitando esta ordem, transformamos o dever em querer, de modo a tornar prazeroso servir, e o viver em sociedade foi o caminho que o homem encontrou para resolver seus problemas. Esta é uma proposta inovadora e própria para este milênio.

Roberto Cardoso Lemos
Uberlândia (MG)





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04-03-2010


Ser Corintiano



Não passou despercebida a presença da primeira-dama Marisa Silva no Estádio do Pacaembu dia 24 de fevereiro na estreia do Timão na Libertadores, no ano do seu centenário. O evento foi transmitido no canal aberto para o estado de São Paulo e para todo país no canal pago.
Confesso como corintiano roxo, que apreciei a presença da primeira-dama em tão memorável oportunidade. De sangue italiano, Marisa Letícia fez questão de mantê-lo solicitando passaportes da “Bota” para si e para toda prole.
Mas uma dúvida se instalou em minha mente, seria dona Marisa verdadeiramente corintiana? Ou apenas deixou-se levar por conta do seu marido e, dessa forma representá-lo com a vantagem de dar maior suavidade ao ato. Ser corintiano não é fácil e fingir ser torcedor mais difícil ainda. Por isto dou-lhe o benefício da dúvida.
Ser corintiano muitas vezes se torna um martírio. O Timão viveu um calvário de 23 anos no qual a sua torcida só fez crescer de maneira inexplicável pela lógica comum.
Fui testemunha da redenção ocorrida no dia 13 de outubro de 1977, após um conjunto de três partidas contra o time da Ponte Preta o Timão sagrou-se campeão paulista, fato que não acontecia desde 1954, ano do quarto centenário da cidade de São Paulo.
Compareci ao Morumbi par hasar, como dizem os franceses. Residia na cidade de São Carlos onde era professor na UFSCar e fazia pós-graduação na Epusp. Era uma quinta-feira e acabara de fazer um prova difícil e o colega Varti Secco colocou-me nas mãos duas entradas cativas que me dariam sob um módico pagamento um lugar excepcional no estádio.
Penso que as cativas eram de propriedade do companheiro Rubens Bofino que, apesar de esquerda, era um feliz proprietário de um espaço no Morumbi. Recebi as entradas com júbilo, pois a excitação na cidade era contagiante, em seguida telefonei para algumas pessoas que poderiam me acompanhar naquela noite. Não consegui achar ninguém e como tinha certeza que o jogo seria televisionado, não tive dúvidas rumei para a zona leste, local onde me hospedava.
Quando o ônibus parou no sinal, perto do Jockey Club, a caravana de ônibus que cruzava rumo ao Morumbi transmitia tanta energia que não pude resistir, apeei e, incontinenti, rumei para o estádio, já não me lembro se de táxi ou de ônibus, mas o fato é que lá chegando, de maneira improvável, encontrei meu irmão Heitor, na porta do estádio, e ele aceitou prontamente o meu convite para assistirmos à decisão em lugar tão privilegiado.
O jogo começava e nós estávamos bem acomodados, a Ponte tinha um time forte com Carlos, Dicá, Jair Picerni, Oscar e Rui Rei, o Timão, por sua vez, contava também com várias estrelas como: Zé Maria, Wladimir, Basílio e Geraldão Manteiga, o centroavante. O árbitro era o controvertido Dulcídio Wanderley Boschilia que logo no começo do jogo expulsou Rui Rei, o que para alguns foi de maneira intempestiva. O Timão foi campeão com um gol de Basílio, o pé de anjo.
Para concluir nossa jornada, depois de algum tempo, tomamos o ônibus em direção ao centro, uma condução extremamente lotada e jubilosa, chegando à praça do Correio foi que nos demos conta que não havia mais táxis e muito menos ônibus e o jeito foi esperar até as 5h, quando correu o primeiro elétrico em direção à Vila Formosa.
Se dona Marisa não era corintiana, passou a ser após ser contagiada na sofrida virada diante do Racing do Uruguai.

Euclídes Araújo
Prof. titular da FEQ-UFU
euclid@netsite.com.br





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Anônima
04-03-2010
Euclides querido, é muito bom ser corinthians de corpo e alma, melhor ainda é saber que fazemos uma torcida inabalável, e que somos fiéis mesmo diante das dificuldades que encontramos as vezes.... estou torcendo pelo nosso Timao na libertadores esse ano, que concerteza se continuar jogando como jogou na estreia vai longe, e vai chegar na vitoria!!!!!! amo meu time e jamais o abandonarei!!!!!
















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