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Ponto de Vista







04-07-2009


Carta aberta ao Senado



“Há cerca de três anos publiquei um desagravo a um  professor- doutor  e lider sindical  que trabalhava  para um senador desta  região e fui processado por ele,  com base na já morta lei de imprensa”

Daquela feita, por se tratar de um homem público, premiadíssimo desportista e senador da República, me senti no direito de cobrar, próprio de um eleitor de uma República. Me enganei. Hoje nesta carta, me dirijo aos nossos três representantes no Senado em especial à sua excelência litigante, para dizer que o objetivo do citado artigo não era promover a calúnia, injúria ou difamação à  pessoa de Sua Excelência ou a seus negócios, mas simplesmente emitir uma opinião que pode ser a de muitos leitores meus, ou não. E ainda  atender ao pensamento crítico de centenas, quem sabe? Todavia sem nenhuma dúvida, exerci o fundamental papel da imprensa nesta terra mineira de democracia e liberdade, visando colaborar para a ordem e o progresso da Nação.
V.Exa., como representante no Senado, do Estado de Minas Gerais e ocupando a cadeira que foi de Tancredo Neves e outras vestais históricas, infelizmente hoje é responsável por um oitenta e um avos do fétido lodo que escorre pelos porões do Senadão, entre sandálias, atos secretos, contas paralelas, e turismo escuso com dinheiro público. Se VS. Exas. sabiam de tudo isso e não concordavam, porque não o denunciaram  em pronunciamento público, como fez Jarbas Vasconcelos? Este estado da arte dá um certo asco ao cidadão “comum”, que luta pela sobrevivência digna, e que representa a maioria do povo brasileiro, além  não ter por parte do Estado, serviços adequados de previdência, saúde, educação, saneamento e segurança, porque nunca “sobram”  recursos para tal, desviados que são por quem deveria dar soluções e apresentar projetos úteis naquela Casa. Em vez disso, estes senhores, que “se acham” donos do Estado, loteiam-no em capitanias hereditárias das  estatais de energia, saúde e transportes numa farra de cargos e mensalões. Estão como a corte de Luís XV às vésperas da queda da bastilha: insensatos, insensíveis e cegos para a história. Prezado senador, veja, por exemplo, o seu colega da bancada mineira e ex-governador do Estado: em vez de buscar os 20% de projetos, que dão 80% de retorno em qualidade de vida e progresso para seus sofridos eleitores, S. Exa. resolve gastar  recursos pagos pelo erário, para criar o projeto “AI5 da internet”, cerceando a rede e colocando nossos internautas na incômoda situação  de chineses e iranianos. Se não bastasse isso, este senador deixou sua digitais no mensalão mineiro como o principal articulador de desvios de recursos das estatais mineiras ao tentar se reeleger em 98, nem sequer foi advertido ou punido pelo Senado, agora totalmente podre.
Sobra o terceiro senador, excelente técnico, honesto, mas um apagado político, todos sob a batuta de um presidente que “já caiu” carcomido pelos males que ajudou a construir ali, do nepotismo ao patrimonialismo, passando pela desfaçatez de dizer que a crise é da instituição e não dele. Senhores, em nome da Pátria, peço que o demitam. Vejam o Maranhão de baixo IDH montado pela sua sede de poder e pensem no símbolo libertário de nossa terra, Tiradentes, a quem os senhores traem ao quererem sufocar a liberdade e  emporcalhar a democracia  neste País.

Jose Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor 
debatef@debatef.com.br

Tragédias urbanas

“Tragédias similares à que ocorreu recentemente no bairro Luizote de Freitas e à qual abalou (ainda mais) a opinião pública”

Especialmente naquilo que se refere à vertiginosa escalada da violência  doméstica familiar em Uberlândia, é fato cuja frequência vai alastrando-se  de maneira impressionante e não apenas no “Portal do Cerrado”, como também em outras cidades onde a busca e a manutenção do  “progresso” vem cobrando, cada vez mais, a participação do cidadão em uma vida produtiva e sem alma e enquanto deve-se realizar algo quando já se torna tarde para ao menos tentar iniciar. E causa-nos maior espanto ao verificarmos o quanto aumenta, na mesma proporção, o número de jovens que perdem a vida em consequência desses flagelos. E os motivos  de toda essa  calamitosa realidade, penso, são vários e complexos: entrelaçam-se fatores sociais, econômicos  e psicológicos, de modo que atualmente se pode dizer que um assassino daquele tipo é, geralmente, um indivíduo afetado por algum grave distúrbio nervoso. Uma crueldade igual aquela impressiona, assombra e suscita indagações e reflexões diversas da sociedade. E as consequências dali derivadas são especialmente fortes, sob qualquer ponto de vista. Quem procurar o que motivou tudo aquilo, é quase certo que ficará intrigado se descobrir que as causas são de pouca monta e segundo consta do noticiário até agora editado. Em alguns casos estão as   dificuldades de entendimento quanto à resolução de questões  mercantis e outras, até, excessivamente banais. Mas seriam tais motivos os mais profundos e reais ou haveria, por trás dos mesmos, outros mais íntimos  e talvez inconscientes?  Com razão indaga-se: o que se poderá fazer para diminuir a onda de criminalidade? A resposta não é fácil, embora muitas pessoas já tenham surgido com ideias diversas, mas absolutamente impraticáveis e devido a fatores diversos. Os meios de comunicação social, por sua vez, ao contrário de descerem a trágicos detalhes sobre o ocorrido e ao ponto de expor, minuciosamente, ao público imagens e comentários sensacionalistas deveriam apresentar um maior número de casos de sucesso e praticados por ONGs diversas a favor de comunidades socialmente desfavorecidas. Já não seria chegado o momento de parar de usar-se a tragédia alheia para, indireta e negativamente, sugestionar cidadãos menos esclarecidos, mais jovens ou emocionalmente mais frágeis, a cometerem delitos e quanto mais em um momento nacional  onde impera a impunidade em todas as camadas  da nossa sociedade? Creio que tragédias iguais àquela e outras similares, já ocorridas nesta cidade (ou não), também decorrem do tédio inspirado pela falta de valores, pela ausência de nobres referencias ou mesmo de severas orientações que sirvam de “contrapeso” diante do desespero de não poucas pessoas e as quais   desejam, apenas, a  paz e a harmonia em família e em sociedade, por meio da educação, da saúde  e do trabalho...principalmente! Lembremo-nos de que o destino toma na vida do ser humano a parte que lhe cede por ignorância ou tibieza. 

Gustavo Hoffay
Agente social
lifelink@bol.com.br





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03-07-2009


Quanto mais impostos, melhor II



“Já havíamos escrito este artigo quando fomos bombardeados por manchetes de que os pobres pagam mais impostos do que os ricos. Isto é correto, porém, percentualmente”

A verdade nua e crua é a de que a redução de tributos desejada conscientemente pelos ricos e induzida à maioria dos pobres e classe média não faria os produtos e serviços mais baratos. Mas, com certeza, teria um impacto negativo nos serviços governamentais prestados à população.
“que melhor forma de distribuição de renda haveria do que redirecionar os impostos arrecadados?”
Iniciamos hoje, alguns artigos nos quais, ao emitir nossa opinião pessoal, tentaremos comprovar que o grande mal de nosso país não está na excessiva carga tributária, tão alardeada, mas sim na correta e justa aplicação pelos municípios, estados ou União dos recursos dela advindos, promovendo sua justa distribuição, considerando sempre o custo/benefício de cada aplicação. Procuraremos mostrar que há vários caminhos em que essas três esferas do poder poderiam trilhar para minimizar a pobreza e propiciar educação e saúde a todos brasileiros, como a educação das crianças, para que, em futuro próximo, a violência, a corrupção e outros males que nos afligem sejam, digamos assim, cortados pela raiz.
Quem sabe possamos batalhar para que gastos supérfluos sejam eliminados, seja no Executivo, Legislativo ou Judiciário, num verdadeiro mutirão contra a corrupção multifária, embutida em alguns tipos de favorecimento, que podem até serem legais, mas, seguramente, antiéticos e até amorais.
Principiaríamos por comentar a indecente distribuição de renda no País, onde, quem sabe, estaria a origem da campanha contra a cobrança de impostos no Brasil. Assim, vamos apresentar algumas projeções calcadas em porcentuais apresentados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que embora amealhadas em trabalhos daquele Instituto em 2005, não invalidam nosso raciocínio. Vamos também nos embasar em dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que informam uma população de 194.227.984 habitantes e um o PIB de 2,9 trilhões de reais.
Considerando esses dados, percebemos que:
1% da população (1.942.280 pessoas) detém 12,5 da renda nacional, cabendo a cada uma R$ 15.553,03 mensais.
10% (19.422.798) recebem 45,7% da renda nacional ou R$ 5.686,19 mês/cada.
79% (153.440.107) recebem 40,8% da renda nacional ou R$ 642,60 mês/cada.
10% (19.422.798) recebem 1% da renda nacional ou R$ 124,60 mês/cada.
Concluindo, quem está preocupado com a carga tributária? Serão os 10% da população que recebe R$ 124,42 ou mesmo os 79% que recebem R$ 642,60?
Ou serão aqueles os restantes 11% que recebem juntos, por pessoa/mês, R$ 21.239,22?
Como se vê, antes de qualquer campanha contra a carga tributária, é preciso promover uma que melhore a distribuição da renda nacional e que melhor forma de distribuição de renda haveria do que redirecionar os impostos arrecadados? É o que veremos nos próximos artigos, começando por defender um preço bem maior, mesmo que subsidiado, do que o máximo fixado em R$ 2,36 para o litro de biodiesel, no último leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

José C. Martelli
Professor e advogado agrarista
Membro fundador do Instituto Volta ao Campo (IVC)

A política do patético

“Chega a ser patético, mas não tem outro adjetivo melhor para definir o que acontece nos bastidores da política em Brasília”

Dá a impressão de que se os sucessivos escândalos que acontecem por lá “entre os nossos ilustres representantes” fossem protagonizados por um cidadão comum, ao final da comédia, não restaria ninguém do lado de fora para fechar a porta da cadeia. Mas como se tratam de políticos, dos nossos supremos representantes, democraticamente eleitos por voto popular, o que vemos é impunidade atrás de impunidade.  Será que alguém ainda lembra de escândalos como os do “Sivam” ou “Operação Anaconda”? Seria muito esforço de memória? Então, que tal casos mais recentes como os do “Mensalão”, “Ambulâncias”, “Dólares na Cueca”, e “Cartões de Crédito Corporativos da Presidência”. Enfim, são tantos os escândalos e ninguém até hoje foi punido conforme deveria. A verdade é que estamos sob um governo do “abafa” ou do “engavetamento”.  Porém, mais patético ainda é ser eleitor no Brasil. Ele chega, vota e confia e o resultado é esse: maracutaia e corrupção acontecendo a todo instante, como no mais recente caso que recebeu o sugestivo nome de “Atos Secretos do Senado”, que envolve diretamente o presidente da casa José Sarney (PMDB/AP). Como senador, Sarney empregou dez parentes e afilhados ou pediu a colegas que empregassem por ele. Ao falar do assunto, Sarney, que está na presidência do Senado pela terceira vez de 1995 para cá, nega a culpa afirmando que a crise não é dele e sim do Senado. Simplesmente patético! Pior de tudo é que o presidente Lula quis intervir para salvar o aliado e aí soltou outra de suas mais infelizes frases: "O senador tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum". Atitude típica de Lula, porque no auge do escândalo do “Mensalão”, por exemplo, envolto na bandeira nacional, pediu que poupassem a presidência da República – como se ele e a presidência fossem uma coisa só. Sarney, agora, faz o inverso querendo se desvincular da crise atribuindo-a ao Senado. Só que Sarney é apenas um exemplo. Em 14 anos, foram mais de 600 atos secretos do Senado que não encobriram apenas irregularidades na contratação de pessoal, mas também decisões administrativas para beneficiar os próprios senadores e funcionários.
A comissão de sindicância descobriu que os documentos sigilosos esconderam de reembolsos médicos exagerados e fora do padrão. Um deles custou R$ 100 mil. Foi omitida também uma farra de impressão de livros e publicações na gráfica do Senado e outra na emissão de passagens aéreas internacionais. Entretanto, lamentavelmente, o que fazem os nossos políticos em Brasília ou o que deixam de fazer pode no máximo esquentar manchetes em jornais por um tempo. Depois, tudo cai no esquecimento e ninguém é punido. É preciso acreditar que haja na classe política pessoas de caráter, que busquem o bem para conjunto da Nação. Mas é imprescindível consciência e informação na hora da escolha de em quem votar, se atentando também para as propagandas enganosas. Ano que vem tem eleição.

Pedro Lacerda
Empresário e presidente da Fiemg Regional Vale do Paranaíba





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02-07-2009


Liberdade, economia e democracia



“Esta contribuição pode ser incrementada ao sublinharmos a miríade de aspectos que envolvem desde ponderações sobre a tutela aos direitos humanos ao grau de liberdade política e de respeito à dignidade humana”

No dia 17 de junho morreu, em Colônia, Ralph Dahrendorf (1929-2009). Tendo trabalhado em prestigiosas escolas britânicas como a Universidade de Oxford, London School Of Economics e, mais recentemente, na não menos prestigiosa Berlin Social Science Research Center, Dahrendorf foi autor de vasta e sólida obra que envolveu áreas como sociologia, ciência política e filosofia. Muitas destas obras foram traduzidas ao português e nos mostram o perfil de um pensador focado na defesa das liberdades.
A eleição da liberdade como seu principal foco de pesquisa em muito pode ser atribuída à repercussão da perpetração da barbárie pelo nacional-socialista alemão e também de seu impacto em sua vida familiar, posto que ele e seu pai sofreram sob o regime, tendo sido o autor levado a um campo de concentração já próximo ao fim da guerra. Sua preocupação intelectual foi focada na anteposição ao recrudescimento do totalitarismo, o que o levou a concentrar-se em estudos sobre o pluralismo político, o liberalismo, a social-democracia, bem como sobre a democracia e suas condições de possibilidade.
Em um de seus livros, “A quadratura do círculo” (Lisboa, Edições 70, 1996), Dahrendorf retoma a filosofia de seu mestre Popper para sugerir um viés filosófico relativista ao dizer que as grandes soluções não chegam sequer a apresentar uma única boa alternativa. Em termos popperianos diríamos que o futuro está aberto. No que concerne à questão do bem-estar e da democracia a partir da promissora ótica de Amartya Sen, dentre outros, partindo desta ótica plural e relativista. Ao analisar aspectos econômicos, Dahrendorf não o fará a partir de dados estatísticos, antes, recorrerá à literatura que contribua com dados humanísticos.
Esta ótica parece promissora quando projetada à análise dos padrões de desenvolvimento de regimes democráticos. A análise qualitativa de uma democracia instaurada não gravitará em função exclusiva da evolução das atividades econômicas senão que outros relevantes fatores devem ser considerados.
Esta contribuição pode ser incrementada ao sublinharmos a miríade de aspectos que envolvem desde ponderações sobre a tutela aos direitos humanos ao grau de liberdade política e de respeito à dignidade humana.
Como dizia Darhendorf, a liberdade pode florescer quando o indivíduo desfruta de “clima de confiança: confiança em si mesmo e nas oportunidades oferecidas pelo próprio ambiente, mas também na capacidade do grupo social em que se vive de garantir certas regras fundamentais, o Estado de direito” (op. cit., 1996, p. 39). Em democracias florescentes deparamo-nos com a afirmação de ambiência e condições para os indivíduos confiarem em si, dispondo de oportunidades socialmente oferecidas como também de regras postas pelo Estado de Direito para que a competição, o convívio e o encaminhamento pacífico das divergências tenham lugar.
A inspiração em Dahrendorf sugere a defesa de que a vida em liberdade em uma democracia deva ser entendida como a arte de pactuar e conviver continuadamente o conflito, em suma, de transitar entre a divergência sem a perda do horizonte de respeito à pluralidade. Trata-se de desafio ao avanço qualitativo das democracias.

Roberto Bueno
Professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Onde está nossa juventude?

“Infelizmente o que aprendemos na convivência com os mais jovens é o relacionamento superfechado nos grupos estritamente iguais mesmo que sob a bandeira do não-preconceito; é a busca desenfreada pelo gozo prolongado à exaustão mesmo à custa de aditivos ilícitos; é a agressividade oscilante, instável e indefinida que explode violentamente quando encontra uma brecha de fragilidade imputável”

Da mitologia aos clássicos, de Urano, Cronos e Zeus a Laio: todos procuraram, à sua maneira, eliminar seus filhos aferrados às profecias de que a prole estava fadada a destruir o gerador! Mito? Crendice? Fantasia de escritor?
Este é o desfecho inevitável do conflito entre gerações: conflito imemorial, cultural, repetido aqui e ali, passagem obrigatória do antigo para o novo, base fundamental das transformações nascidas dos movimentos revolucionários, encabeçados pelos “filhos” rebeldes que empunham suas armas contra os “pais” conservadores.
É preciso perceber o conflito não apenas como algo a ser suprimido numa relação, existe também um lado positivo em todas as situações conflitivas: a energia conflitante é o moto da evolução: se não fosse a força propulsora dos jovens bem como sua facilidade de adesão ao novo frente à sábia resistência dos antigos, talvez os jovens, precipitando-se, não chegassem muito longe e os mais velhos,  provavelmente, permaneceriam encarcerados na mesmice da repetição, fadados à involução.
No Brasil de hoje percebemos uma estagnação enauseante, repetitiva e mortífera no espaço político que nos obriga acompanhar paralisados os mandos e desmandos das lideranças ditas democráticas na busca esfomeada e frenética pelo poder e dinheiro agravada ainda pela formação de  grupos oligárquicos, detentores perenes de cargos e eleições compradas a preços de ouro dos impostos e contribuições suadas roubadas de todos os outros brasileiros.
Onde estão nossos jovens capazes de provocar mudanças significativas neste cenário? Onde está nosso espírito inconformista e inconformado com os acontecimentos atuais?
Pelo que vejo os primeiros estão aprisionados no mundo virtual, talvez trocando mensagens também virtuais com grupos de rebeldes internautas, bem-adaptados aos teclados de seus computadores, liberando energia renovadora nos novíssimos grafismos apressados dos papos digitais; os segundos estão contentes com seus próprios sucessos ou livres dos insucessos estes na total responsabilidade das crises atuais!
Infelizmente, o que aprendemos na convivência com os mais jovens é o relacionamento superfechado nos grupos estritamente iguais mesmo que sob a bandeira do não-preconceito; é a busca desenfreada pelo gozo prolongado à exaustão mesmo à custa de aditivos ilícitos; é a agressividade oscilante, instável e indefinida que explode violentamente quando encontra uma brecha de fragilidade imputável. De onde surgirá a energia transformadora?

Ilcéa Borba Márquez
Psicóloga e psicanalista
ilcea@terra.com.br





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01-07-2009


Mundo droga!



“É meia-noite, Maria volta para casa, bairro pobre, periferia, ruas quase escuras por raras e distantes lâmpadas”

Como sempre, Maria vinha do trabalho de fazer salgados em festa de aniversário de gente rica. Vinha cansada do serviço, as tardes e noites de pouco ganho, tinha que madrugar porque de dia era arrumadeira na casa rica do seu Alcides. Queria um pouco de cama, de sossego, quem sabe algum sonho feliz; afinal, Deus existe... Ainda longe, divulgou agitação lá por sua casa, tinha rádio patrulha, gente, movimento e faladeira alta. Apressou o passo cansado, chegou em sua casa, que já não era casa, era monte de tijolos, tudo destruído por um fogo que ainda lambia os restos do que era telhado, porta, as duas únicas janelas. Horror, os vizinhos calavam a boca, abriam alas para ela se achegar ao que era seu e nada mais era. O cabo da RP foi delicado, também tinha nascido na pobreza, entendia que Maria agora estava mais que na pobreza, sozinha no mundo, nem queria perguntar ou falar, nem tinha olhos e lágrimas pra chorar. O cabo deu a notícia que não precisava, ela já sabia. Foi seu filho, dona Maria. Chegou doidão, xingando o mundo e todo mundo, a senhora sabe, cheio de crack, parece que de mistura também maconha. Disse que a senhora sabia, ele já tinha ameaçado, toda a rua sabia, porque Dió e Xeda eram seus amigos juntos na droga e na fogueira – último sonho e haver da dona Maria. Ninguém pulou na frente pra falar ou defender – afinal a sua rua, seu bairro, seu alto, sua cidade o mundo todo era uma droga só. Não adiantava protestar nem pedir, porque a sua casa poderia ser a próxima fogueira. Fazer um BO, o cabo disse que podia, mas já sabia. Chegariam à delegacia, já teria advogado na porta, não eram traficantes, apenas usuários de droga, já eram conhecidos, não poderiam ficar presos, veja, senhor delegado, não tem uma pedrinha qualquer no bolso... e logo estariam de volta para as ruas e seu mundo imundo. A Maria nesta história? Pra que ir à delegacia, fazer sua queixa, o pessoal de serviço já estava cheio de histórias iguais e até piores como o Arceu que queimou a casa com a mãe lá dentro, saiu e sumiu no mundo... E a Antonia, o seu Pedro da carroça, a Artemira estuprada com a filha de 15 aninhos e sonhos, teria que virar puta porque a mãe tinha que comer e ficou lelé da cuca, que mundo era este que Deus esqueceu... ou não existe?
 Amigos que me leem, os nomes não são estes, mas as pessoas são. Atendo um ambulatório da pobreza, uma noite apenas por semana – mas cada vez encontro uma nova Maria, Artemira, Antonia ou Pedro. Este é o meu ao redor do mundo, que conto com algum exemplo, mas agora é de nós todos – porque hoje ricos, remediados e miseráveis estão todos criados na merda social das drogas. Deste vasto adubo nascem desgraças diárias, de que nós privilegiados tentamos fugir – mas trombamos logo ali adiante. Todo mundo, toda a imprensa, todos os políticos e chefes de Estado contam escândalos, roubos, mortes, instalam inquéritos e ordenam leis, mas a droga fica à parte, é perigosa, temida, ameaça... e o medo cala o mundo. Eu já escrevi sobre esta desgraça, tenho pensado e sofrido com seus personagens – e penso que descobri um jeito de “chegar lá”. Vou contar em outra crônica. Não tenho medo, porque o drogado não é criminoso – é vítima, precisa de tratamento.

João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico e escritor
Uberaba (MG)

Atos secretos

“Eu disse que não opinaria, mas pergunto: ‘E aí, você já praticou hoje o seu ato secreto?’”
  
Depois de esboçar tédio, assim falou Chagas: um exagero esta história de atos secretos. Tomou conta da imprensa como se fossem novidades, como se esquecessem que o primeiro ato secreto até hoje ainda não foi revelado. Atos secretos, não há dúvida, não passam de  uma conduta banal. Revelá-los como se quer revelar o caso do Senado, não passa de banalidade e, a seguir a mesma fórmula, no fim para o povo só sobra mesmo uma banana.
Bem, diz o presidente, “o meu desejo é  instituir o Dia Nacional da Hipocrisia”. Pergunto: não seria melhor instituir o Dia do Ato Secreto e por consequência a revelação dos atos? Acometidos de pena, neste dia, seriam anistiados, passaríamos uma borracha em todos e começaríamos da estaca zero. Seria como se mudássemos de faixa, virássemos o disco: o lado B para o lado A, ou do A para o B.
Ora, quem sabe não concluamos que a vida em puros atos secretos não seria melhor, menos tediosa? Neste dia, revelar atos secretos deixaria de ser um ato de coragem, mas sim uma atitude corriqueira, não haveria questionamento de quem seria o primeiro, acabariam as resistências, os vivenciaríamos coletivamente, não precisaríamos mais ser peritos em administrá-los e não mais preocuparíamos  em  escondê-los nas cavas subterrâneas de nossa cachola.
Veja o caso do meu amigo Orestes no qual se o ato vier à tona, sem anistia, ele fica encalacrado em duas vertentes: na família e no Imposto de Renda, isso sem falar na Ordem, secreta por sinal —  um conhecido meu sabendo que eu era amigo dele me procurou para  entregar-me uma fotografia da esposa do Orestes.  Comprara dele uma Mercedes Benz e ao consultar o  manual do fabricante deparou-se com a foto. Eu disse: “Tudo bem, pode me entregar, o Orestes é um grande amigo. Encontrar-nos-emos lá na praça Tubal Vilela”.
Às dez em ponto, a foto estava em minhas mãos. Assustei! Onde foi que o Orestes conseguiu esta loira? Depois da loira, saber  a origem dos recursos para comprar a Mercedes Benz era coisa secundária. Agora me diga: uma loira trintona, esbelta, toda-toda em frente a uma penteadeira de motel, vai me dizer que isso não era mais um dos atos secretos do sessentão Orestes?
Eu, abaixo-assinado, escrevente juramentado  pela circunstância natural, decidi que não opinaria,  principalmente quando o Chagas, meio surtado, começou a discursar:  “o ato secreto é a base de tudo e de todos. Do capitalismo: uma patente nasce do ato secreto; da sociedade: a moral é uma verdade não revelada; da política: o ato secreto é  a argamassa que liga o público com o privado; da religião: até hoje quem construiu este mundo não apresentou suas credenciais e tampouco sabemos se está inscrito no Crea, no CRM ou na OAB. Se bem que, quem passa por esse  último órgão e vira juiz, acha-se equiparado — ledo engano, diz o descrente Chagas: “O limpo e puro é traído pelos atos secretos. “Se espremê-los, eles vazam pelos poros”.
Eu disse que não opinaria, mas pergunto: “E aí, você já praticou hoje o seu ato secreto?”.

J. B. Guimarães
jbgui@cartasdocerrado.com.br 
Uberlândia (MG)





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