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Crônica da Cidade







01-07-2009


A capelinha que virou bar



Às vezes, acontece disso. Colhi esta história do personagem que a viveu, mas já possuía algumas anotações, inclusive a de quem teria construído a tal igrejinha. Perdi essas anotações. Nem por isso vou deixar de contar esse fato curioso. Foi por voto de um casal. Construíram a capelinha em louvor a São Cristóvão, lá em baixo, na rua General Osório, de frente ao velho matadouro Modelo que a avenida Rondon Pacheco botou abaixo. Apesar de doada à Igreja, nunca vi qualquer registro desse templo.
O tempo passou, de vez em quando se fazia uma rezazinha lá na capela, mas não passava disso. Eram meses e meses fechada.
Argeu Gonçalves, nascido na histórica Fazenda de São Francisco, em 1926, aos 15 anos veio com os pais para a Vila Saraiva onde não havia mais do que uma dúzia de casinholas. O pai morreu, Argeu foi trabalhar com carroça e um dia mudou-se para a rua General Osório onde montou com seu irmão Nelson um armazém. Ele morava pegado. Do outro lado, estava a capelinha, fechada, fechada.
Argeu resolveu comprar aquele imóvel e foi até a matriz de Santa Terezinha. Informaram-lhe que não era lá. Era na Diocese, em Uberaba. E lá foi o Argeu. Chegando lá, soube que se vendia a capela, sim, e queriam apenas 15 contos. Comprou. De volta, descaracterizou a capela, ajeitou-a para ser um bar, pôs os artigos típicos de um estabelecimento de periferia e começou a trabalhar. Foi um bar que teve muito movimento. Abria 4, 5 da madrugada e só fechava 10, 11 da noite. À porta do bar, ou do armazém, era o ponto do pessoal do frigorífico Caiapó pegar o caminhão, madrugadinha, para ir trabalhar. Ali no Patrimônio só morava operário da área frigorífica: do Omega, do Caiapó e do Matadouro Modelo da Prefeitura.
Ali, o pessoal, enquanto esperava o caminhão, já tomava umas. Por outro lado, o pessoal do Matadouro que tinha começado a trabalhar no início da madrugada já ia chegando também e tomando alguma coisa. O pessoal do matadouro vinha pingadinho para não prejudicar o serviço. Saía um, chegava outro. Ampliando seus negócios, o Argeu e seu irmão colocaram num barracão dos fundos, pegado à capela, um forró nos fins de semana, com ligação para o bar de onde iam as bebidas e os tira-gostos. Na sanfona, o João Cambão e no pandeiro o Parafuso. Quando não tinha forró, corria um pif paf ou uma caxeta até tarde.
E, assim, foi indo até que um dia os irmãos Argeu e Nelson venderam seu negócio que não durou muito porque, com poucos meses, o novo proprietário entrou em atrito com clientes e acabou matando um e sumindo no mundo.
Mas o Argeu conta coisa pitorescas do seu bar, ex-capela. Por exemplo: ficava lá o dia inteiro, umbigo encostado no balcão, um rapaz tomador de jogo de bicho — que estava proibido. O movimento era grande no armazém e sempre tinha alguém interessado em fazer sua fezinha.
Lá um dia, o cambista tá lá sossegado, chega a Rapa e já foi perguntando quem é que vendia bicho. O bicheirinho, sem perder a calma, explicou para a polícia que, por ali, só o Guinelo, lá em cima, é que vendia bicho. Os policiais pediram o endereço, ele passou. Agnelo era um antigo taxidermista (empalhador) que havia na rua General Osório. Foi a Rapa virar e o rapazinho se mandar com seu talão.
Não demorou muito, a polícia voltou. E voltou brava:
- Cadê o rapaz? O Guinelo vende bicho, mas é empalhado!

Antônio Pereira da Silva, do IAT
apis.silva@terra.com.br

Fontes: Argeu Gonçalves, Almirzinho do Patrimônio, Diocese de Uberaba





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