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Crônica da Cidade







14-03-2010


Curiosidades rurais



Waltecir José Cardoso fez a genealogia das famílias Paniago e Cardoso, das quais descende. Só que ele não fez apenas uma relação de parentes, mas contou coisas a respeito de cada um daqueles membros mais marcantes. Seu livro recebeu o nome de “Entre Parentes”. Vou recontar como eram conduzidas as boiadas através dos velhos sertões triangulinos e como se fazia o açúcar nos rudimentares engenhos da região. Miguel José Paniago, nascido em 1885, em Rio Verde, Goiás, nos princípios dos 900, veio com a esposa, Maria Thereza, morar na fazenda Jardim, ali pelos lados do Sobradinho. Depois mudou-se para Bebedouro, na mesma região. Miguel tinha um temperamento explosivo, mas era contador de causos e, dessas conversas, o Waltecir colheu como se tocava uma boiada naqueles tempos. A comitiva do Miguel usava o berrante como meio de comunicação. Cada som era um aviso e a companheirada, ouvindo-o, se posicionava para o controle da boiada. A comitiva era composta por sete peões: um ponteiro (guia), dois fiadores (que afunilavam o gado), um pela direita outro pela esquerda. Eles iam até a frente da boiada, contendo-a, e retornavam até o meio. Era assim que estabeleciam os limites laterais do gado. Mais os meieiros que vinham pelas laterais, um pela esquerda e outro pela direita. Esses se deslocavam do meio até o fim e voltavam encontrando-se no meio com os fiadores. E refaziam o trajeto. Dessa forma, a boiada se mantinha agrupada, coesa. Na culatra (traseira), vinha o condutor responsável, que tinha a obrigação de recolher os animais cansados que ficavam para trás. Havia também o tropeiro, que conduzia a tropa de reposição e era também o cozinheiro. Geralmente, o tropeiro andava na frente para que, no ponto já combinado de parada, a comitiva chegasse e encontrasse a boia pronta. Ele também preparava a pousada. Era assim que se conduzia uma boiada naqueles tempos.

O engenho era assim: para movê-lo, usava-se uma junta de bois que o acionava pela ponta da balança, andando em círculo, lenta e constantemente. A balança era uma peça feita de madeira de boa qualidade, fixada na horizontal em cima do engenho. Tinha 10 metros de comprimento. Em cada ponta se atrelava um boi. A moagem começava de madrugada e quem tangia os bois era um menino sentado numa cadeira em posição estratégica para não se cansar. A colheita da cana era feita a mão. Também a mão eram enfiadas as peças na moenda que esguichava caldo pra todo canto. Eram cinco moendas. A garapa escorria por gravidade por um encanamento até os tachos de cobre, com capacidade para 200 litros sobre uma fornalha aquecida a lenha. Ali era fervida. As impurezas eram recolhidas por uma espumadeira de cobre de 30 centímetros de diâmetro. Quando a garapa chegava ao ponto de “puxa”, era conduzida em conchas, também de cobre, para gamelas de madeira. Rapidamente se reabastecia o tacho para que a sobra não queimasse. A “puxa” era batida na gamela com uma colher de pau até resfriar e atingir o ponto ideal para ser colocada nas formas de pau. Para a rapadura eram usadas formas quadradas. Para o açúcar eram usadas formas em V, de madeira, com 60 cm de altura com abertura por baixo para drenar o melaço enquanto se o maturava. Pronto o melado, forrava-se o fundo de uma forma com bagaço e deitava-se o caldo que era recoberto com barro, ou, na sua falta, com bagaço. Decorrido o tempo necessário, tirava-se a cobertura e surgia aquela beleza de açúcar de cor condizente com a espécie da cana.

Fonte: Waltercir José Cardoso





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Marinalva A. Silva
14-03-2010
Recordar é viver! Ai que saudades do meu passado. Fui feliz e não sabia!!! Parabéns pelo texto.










07-03-2010


Jerônimo entrevista Mãe Preta



Em sua revista, “Uberlândia Ilustrada”, de abril de 1941, Jerônimo Arantes, o Jerominho, publicou entrevista com uma negra velha, conhecida na cidade por Mãe Preta, que lhe contou o seguinte:

- Magina! Cumo cinquenta ano passa digero! Eu já era nega feita naquele tempo! O meu sinhô moço dizia que sô da era de 1848. Na libertação dos escravos, eu já era nega forra. Lembro muito bem de ter ouvido os home rico daquele tempo falá nessa festa. Conheci muito o capitão Pedro Machado. Véião barbudo. Dono da fazenda Capim Branco. Comprô muito escravo do meu sinhô moço. Gostava muito de assisti as corrida da cavaiada, ali onde fica a casa que foi do coroné Carneiro. Nesse tempo, ali perto da casa do padre João - santo home bão, que Deus o tenha no reino do céu – ficava uma praça no meio do campo, onde se fazia o “circo do boi no curro” (touradas) e a festa mais bunita dos corredô das cavaiada. Tempo bão que não vorta mais...

- Antonho dos Santos, coroné Mané Arve, o Pintão, seu Zé Arve do Amorim, seu Augusto César... outro home bão foi aquele. Seu Arlindo Teixeira era bonitão naquele tempo. Era comerciante. Comprei muita vez argodão do Cassu na loja dele.

- Que diferença tá tudo hoje!

- Castelo bonito sabia fazê o Jeromo Martim. Eta fogueteiro bão. Inté boneco dançá no arame ele sabia fazê. Fogo lumioso de toda cor – só o Jeromo Martim é que sabia fazê. No sobrado do Pintão, ali no largo da Matriz, fazia muito baile de dança. Gente alegre era a dos Pinto. O Pintão era um home danado de grande. Era ele quem lia o testamento do Juda no sábado da aleluia.

- O padre João (vigário Dantas) era o pai da pobreza. Ele tinha uma anta mansa que andava solta na cidade, por toda parte, roubando o cumê na casa dos outros e indo drumi na casa dele. O padre Pio, Deus me perdoe, dizem que ele era fio do padre João. Num sei. Era outra criatura boa. Só que tinha uma coisa: quando ele montava no seu cavalo e disparava aí pelas ruas, ia saí lá na casa da Maricota da Bera do Corgo... quiá... quiá... quiá... Esse padre...


- O gado do padre João e uma manada de cabrito do seu Agenor Bino vivia pastando pelas ruas. Com perdão da palavra, as veiz a gente ia andando, quando via, atolava o pé nas estrumela dos bicho.

- Por falá em rego, naquele tempo descia um regão d’água lá das bandas da chacra do seu Augusto César e chegava num farturão ali perto da igreja. Tinha um sujeito muito louco chamado Pachola. Cozinhava suas comida numas lata veia, num fogão de trempe que ele mesmo fez na beira da igreja... Uma vez, ele botô fogo na Miquelina que foi um alvoroço. A Miquelina era uma cadeia de tábua que ficava lá na rua da chacra do seu Zé Cota. Nesse tempo, ainda num tinha iluminação nas rua. Mais tarde é que pusero lampião nas esquina.

-Onde fica hoje a casa da prefeitura era cemitério e era no meio do cerrado. As casa da vila ficavam lá perto da igreja. Magina só. Cumo cinquenta ano passa tão digero!





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Cumpadi Lico
08-03-2010
Eita cumpadi Antoin Perera a sua coluinha é boa di mais da conta! Hoji intão nem si fala arepiei! Essa nega véia fofovava muito bem, né cumpadi? Essa intrivista cum o prefessor Jerumim o mió qui tinha na cidade e regiã , ensinou muita coisa boa pra nóis! Que Deus tenha eiles lá no Reino da gróia e ocê aqui cunóis pra nóis sabê tim por tim as rais do Berlândi! Cuntinua, cuntinua...Meus cumprimento pro ocê e inté mais!
















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