
Era costume doar-se um patrimônio em terras aos oragos e os procuradores dos moradores desta parte do Triângulo que virou Uberlândia entenderam-se com a viúva de João Pereira da Rocha, Francisca Alves Rabelo, a maior proprietária dos bens deixados pelo falecido, e lhe adquiriram cem alqueires de campo e cultura ao preço de quatrocentos mil réis a serem pagos em prestações liberais. Dessa transação existe um quirógrafo (documento lavrado e assinado pelas partes ou por uma só delas) que não me parece muito legítimo em razão da grafia de algumas palavras. O pagamento de todo o patrimônio e das várias despesas relativas à construção e outras providências foi feito com doações populares.
Para se ter uma idéia da área doada à Igreja considere-se uma largura que vai da avenida Rondon Pacheco (por baixo da qual corre o São Pedro) à avenida Getúlio Vargas (por baixo da qual corre o Cajubá) e, de comprimento, do Praia Clube até a igreja de Nossa Senhora Aparecida. Mais ou menos, isso.
Para uso na construção da capelinha, abriu-se um rego d’água das cabeceiras do córrego São Pedro até perto do local (praça Cícero Macedo). Custou essa obra, cento e dezoito mil e quinhentos e quarenta réis. Para gastar na construção e futura manutenção da capela, comprou-se uma gleba de terra de cultura, dez alqueires à margem direita do Uberaba Legítimo, que serviria para aluguel. Chamou-se “pasto da santa”.
A construção durou sete anos. Terminou em 1853. Tinha em torno de 60 metros quadrados, apenas. Ao seu redor, murou-se pequena área, chamada “adro”, para servir de cemitério.
Em 1850, em Goiás, foi sagrado padre o filho do Felisberto, José Martins Carrijo e, em 1852, pela Lei 602, de 21 de maio, foi criado o distrito de paz de São Pedro de Uberabinha.
A primeira missa que se celebrou na pequena capela ocorreu em 1853, logo após a conclusão das obras. Ainda não havia sido designado um sacerdote para ministrar a piedade cristã na capelinha quando faleceu Maria Eufrásia de Jesus, esposa do Antônio Alves Carrejo. Chamado às pressas, o padre Antônio Martins fez as exéquias. Foi a primeira missa e o primeiro corpo a ser enterrado no adro.
Em outubro de 1853, assumiu a paróquia o padre José Martins Carrijo que ficou até 1858, apesar de não existir designação para tanto. O primeiro sacramento ministrado pelo padre Carrijo foi o batizado do menino Luiz, filho de Maria Vieira de Jesus e José Antônio Furtado.
Em 1854, o Juiz de Uberaba convocou Felisberto para prestar contas da obra e de suas providências. Nessa prestação, além de várias outras informações, consta que ele foi nomeado administrador da capela pelo padre Jeronymo Gonçalves de Macedo, em 1842, e que não havia criado nenhuma irmandade.
O primeiro Juiz de Paz designado para o novo Distrito foi Felisberto Alves Carrejo. O primeiro livro de audiências do distrito de paz foi aberto pelo Juiz municipal de Uberaba no dia 12/11/57 e a primeira audiência foi a 13/2/58, pelo juiz de paz Carrejo, sendo escrivão Miguel Jacintho de Mello. Este Miguel Jacintho de Mello foi o primeiro farmacêutico do lugar. Não era formado.

Tudo indica que os Carrejo sabiam ler e escrever, o que era raridade naqueles tempos. Felisberto era homem educado. Instalou em sua residência, na fazenda, uma escolinha de primeiras letras. Não havia onde aprender leitura e ele mesmo fez as chamadas “cartas de mão” que os velhos mestres faziam para poder ensinar. Nessa escolinha recebeu as primeiras letras o jovem José Martins Carrijo que, mais tarde, foi o primeiro pároco do povoado. Ao lado da casa da fazenda, Joaquim Martins Carrejo, outro filho do Felisberto, instalou uma tenda de ferreiro onde fazia ferraduras e ferramentas rudimentares. Essa tenda é que justificou o nome da fazenda.
Nas proximidades da sede, Felisberto deixou que construíssem casebres para agregados, empregados e escravos seus. Chamou-se esse ajuntamento de casas “povoado dos Carrejo”, a primeira aglomeração humana nas terras do futuro município. Por seu carisma, sua personalidade ponderada, seus conhecimentos acabou se transformando num conselheiro em quem os vizinhos buscavam orientação para seus problemas. A maioria das fazendas margeava o rio das Velhas pela qualidade de suas terras.
Do outro lado do rio, ficava Sant’Anna do Rio das Velhas (Indianópolis), onde os moradores da banda de cá, iam buscar a proteção religiosa. Na velha igreja dos bandeirantes, o povo orava, pagava promessas, batizava, casava. Eram, entretanto, acolhidos por padres vindos de Uberaba, que, nem sempre apareciam. Tornou-se hábito, por isso, reunir-se a gente da margem esquerda, aos domingos, na casa do Felisberto para a reza do terço, puxado pelo patriarca. Nessa prática, talvez, esteja a razão mais profunda do surgimento do povoado de São Pedro de Uberabinha.
Felisberto adquiriu uma área de dez alqueires, entre os córregos São Pedro e Cajubá (na época chamado córrego das Galinhas, depois Itajubá), para onde transferiu várias pessoas que viviam de seus favores e ali construíram suas residências. Esse novo agrupamento humano, com vários moradores do “povoado dos Carrejo”, chamou-se “povoado de São Sebastião da Barra” e se localizou onde é o bairro Tabajaras.
Achando incertas e desconfortáveis as viagens à Aldeia de Sant’Ana para a prática religiosa, Felisberto pensou em construir uma capela curada do lado esquerdo do rio, nas proximidades das terras que adquirira próximo à barra do córrego São Pedro. Capela curada era a que possuía um padre cura, ou seja, um padre permanente. Convocou uma reunião de todos os moradores da região que o atenderam e nomearam seus procuradores o Felisberto e o capitão Francisco Alves Pereira, que era um dos filhos do pioneiro João Pereira da Rocha.
Esses procuradores designados, no dia 29 de junho de 1846, em nome daquele povo, pediram ao Vizitador Ordinário da Prelazia licença para a ereção de uma capela curada entre os rios da Velha e Uberaba Legítimo, e o Vizitador Ordinário despachou favoravelmente e passou a respectiva provisão a 3 do mesmo mês e ano. Nessa provisão, já consta o nome dos oragos: “Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião”. Consta ainda da provisão que o local seria na cabeceira do córrego de São Pedro, que corresponderia atualmente à área onde estão Carrefour e Center Shopping.
Conseguida essa provisão, os procuradores trataram de escolher o local para a construção e, abandonaram a ideia inicial de usar a cabeceira do córrego e estabeleceram que a capela ficaria próxima da barra do referido córrego com o rio Uberaba Legítimo, próxima à um exuberante capão de mato virgem a partir do qual iniciava-se uma área de campina plana.

Carrejo ou Carrijo? Eram Carrejo, são Carrijo. Os documentos que vi provam que chegaram Carrejo, entretanto, os primeiros descendentes logo passaram a assinar Carrijo e, pronto. Mudaram de nome. O exemplo mais expressivo da mudança é o nome do filho do Felisberto, o padre José Martins, que se assinava Carrijo.
Há algum tempo, Mário Borges, de Goiânia, mandou-me um e-mail mostrando que na Espanha há um lugar turístico na região de Catandria, chamado Carrejo. Quem sabe não seria o lugar de origem dos nossos pioneiros?
Possuo uma genealogia deles, datilografada não sei por quem, onde não consta nenhum Carrejo. Erro do datilógrafo. As referências aos ancestrais próximos localiza-os em Portugal e isso pode prejudicar a ligação dos nossos Carrijo com a localidade de Carrejo, na Espanha.
“De Sant’Anna do Jacaré vieram, numerosos, os Carrijos (sic), um dos quais , Felisberto, foi um dos paredros desta primitiva povoação.”
Segundo Tito Teixeira, Luiz Alves Carrejo, provavelmente em 1827, entusiasmado com as notícias alvissareiras sobre a região, teria vindo para Campo Belo, que é hoje Campina Verde, e adquirido terras de uma fazenda próxima ao ribeirão São João. Alguns cronistas antigos, acham que Luiz veio diretamente para Uberabinha.
Em 1832, Luiz permutou suas terras por parte da fazenda do Rio das Velhas, localizada na freguesia de Santo Antônio de Oberaba, pertencente a José Diogo da Cunha. Essa parte de fazenda ficava na sesmaria de Olhos d’Água e a sede se chamava fazenda Senhora da Conceição.
Tanto insistiu o Luiz que conseguiu convencer seus outros três irmãos a virem para cá. Para tanto, entabulou negócios com vizinhos de suas terras para que eles tivessem onde ficar e produzir. Em 1835, Antônio, Felisberto e Francisco deixaram Sant’Anna do Jacaré e vieram para as terras da futura Uberabinha. Antônio era casado com Maria Eufrásia de Jesus, Francisco era casado com Joaquina Rodrigues e Felisberto com Luísa Alves Martins. Emerenciana Joaquina de Jesus era esposa do Luiz.
Os Carrejo chegaram com filhos, escravos, ferramentas, alimentos, sementes e animais domésticos. Prevenidos para um bom tempo sem produção.
Chegados e recebidos festivamente, logo começaram a negociar terras. A primeira aquisição que fizeram foi de José Joaquim da Silva posseante de terrenos devolutos concedidos por sesmaria em 1820. Em seguida, compraram terras do pioneiro João Pereira da Rocha, em 1835. Juntadas as terras, que eram vizinhas, e verificado que Luiz tinha maior parte (fazenda Senhora da Conceição), redividiram-nas ficando todas de igual tamanho. Disso se lavrou escritura em 23 de setembro de 1842.
As fazendas ficaram assim divididas: Olhos d’Água, com Luiz Alves Carrejo, conservando a sede denominada fazenda Senhora da Conceição; Francisco ficou com a fazenda da Lage; Felisberto com a fazenda da Tenda e Antônio com a fazenda do Marimbondo. Todas ficavam na margem esquerda do rio das Velhas. (continua)

Concluídas as obras básicas para o fornecimento de energia elétrica para a cidade, a firma Carneiro & Irmãos iniciou a instalação dos postes para a iluminação pública. O primeiro foi erguido, com muita festa, no dia 31 de outubro de 1909, nas proximidades da velha cadeia. Tudo ficou pronto para a inauguração, no Natal. José Theóphilo Carneiro estivera em Uberaba, em 1905, quando o médico José de Oliveira Ferreira inaugurou a iluminação pública de lá. Só que, lá, quando foi acionada a chave geral, não aconteceu nada. Um gaiato, na véspera, fez um treino de tiro mirando nos isoladores e arrebentou os fios.
O coronel era homem obstinado. Logo no começo de dezembro comunicou às autoridades e à imprensa que inauguraria a energia elétrica no dia 25 e que os festejos começariam no dia 24. O jornal “O Progresso”, porta-voz “cocão”, publicou vários artigos elogiando a obra do coronel, não obstante ser órgão de oposição aos “coiós”. Chegou a afirmar que “meia dúzia de homens como o Tenente Coronel Carneiro e não haveriam dificuldades que se não vencessem” - o que era surpreendente na pena adversária.
A Câmara Municipal, com maioria “cocão”, nomeou os vereadores Custódio da Costa Pereira, Bento Brazil, Olívio Silva, José Avelino e Constâncio Gomes para organizarem a festa. Queria uma festa bonita, a cidade limpa e embelezada para impressionar aos visitantes. Que o povo desentulhasse as ruas recolhendo tijolos, pedras, madeiras, andaimes. Pedia enfeites com ramos, bananeiras, folhas, bandeirolas e galhardetes nas frentes das casas e nas ruas, e que se acendessem lanternas no dias 24 e 25. Depois da inauguração, haveria baile para os convidados, representantes de municípios e imprensa.
No dia 23, mais de quinhentas pessoas, entre elas a Comissão da Câmara, a Banda de Música União Operária, famílias e senhoritas atulhavam a estação da Mogiana aguardando a chegada das bandas convidadas: a Santa Cecília, de Uberaba, e a Grêmio Esportivo de Franca. As três desceram pelo trilheiro arenoso que era a avenida Afonso Pena executando dobrados até o hotel onde os convidados ficariam. No dia 24, a cidade amanheceu engalanada, coberta de flores.
A alvorada teve três salvas de 21 bombões e mais foguetes. Às 19h, na praça da Matriz (Cícero Macedo), foi ligada a chave e a cidade se iluminou pela primeira vez. Foram queimadas duas baterias de 21 tiros e muitas dúzias de foguetes ao acender das luzes. E tome dobrado com as três bandas. Na praça da Independência (Cel. Carneiro), houve grande aglomeração popular. Os discursos eram interrompidos com vivas e salvas de palmas. A seguir, houve espetáculo de gala no Cine Theatro São Pedro com a exibição de várias fitas. No dia 25, no comecinho da tarde, as três bandas saíram à rua e, acompanhadas do povo, foram ate às residências das autoridades e à sede do jornal "O Progresso.
Tocou-se muita música entremeada por discursos entusiasmados. Além do jornal “O Progresso”, de Uberabinha, outras cidades também deram cobertura ao acontecimento: de Uberaba vieram representantes do “Lavoura e Comércio”, da “Gazeta”, do “Tempo” e do “Correio Católico”. Representaram-se também o “Cidade do Prata” e o “Cidade de Araguary”. No dia 26, as três bandas apresentaram-se na praça da Independência num verdadeiro torneio musical - e ninguém ficou sabendo qual a melhor, tão boas eram. No dia 27, as bandas visitantes foram-se e as festas se acabaram, mas a cidade começou a viver as experiências da modernidade.
Fontes: Jornal “O Progresso” e Pedro Salazar Pessoa Filho

Quem me contou esta história foi o sr. Athayde Ribeiro, uberabinhense de Santa Maria. No Rio de Janeiro, ele foi um dos participantes da criação da novela radiofônica, no “Programa Cazé”, da Rádio Educadora. Esse tipo de novela foi o precursor da novela da TV.
É uma história esportiva. Em 1927, o Uberabinha Sport Club marcou um jogo contra o time de Morrinhos. Um figurão da cidade ofereceu rica taça tão deslumbrante que os ânimos se acirraram. Os dois times doidos para merecerem a bela láurea. A tal ponto chegou a expectativa de jogadores e torcedores que parecia esperarem um confronto entre os estados de Minas e Goiás. Para jogos importantes, naqueles tempos, os times do interior recheavam suas equipes com reforços da região e até de fora. O negócio era ganhar. Enquanto os times se preparavam para o grande encontro, o pessoal de Morrinhos pinçava nas cidades próximas os seus melhores jogadores.
Em Araguari, soube-se logo, eles pegaram o melhor zagueiro do Triângulo Mineiro, o Acrísio, do Operário. Estendendo suas garras, foram buscar em Ribeirão Preto, no Botafogo, um grande “center-half”, Odilon. Esse Odilon, ao lado do nosso Catanduva, formava a dupla dos melhores centros médios do Brasil Central.
Formava-se um clima de guerra. Vencer era uma questão de honra. Henrique de Castro, industrial do sabonete, era presidente do Uberabinha Sport Club. Foi ele quem introduziu o carnaval de rua na cidade, com seu cordão do Inocente que começou a sair em 1907. Foi também um dos veneráveis mestres da Loja Maçônica Luz e Caridade. Henrique de Castro era sócio do antigo Palestra Itália, o Palmeiras, de São Paulo, e resolveu buscar coisa mais fina que o que o Morrinhos pegou na redondeza. Foi de Mogiana e, com seu prestígio, conseguiu trazer três valorosos atletas paulistanos: Loschiavo, Ministrinho e Feitiço. Eram três craques. Sobre Loschiavo me dizia, quando vivo, o saudoso Ramirinho que jogou com esses três, era de uma elegância inglesa.
O nosso half esquerdo contava que esquecia do jogo quando a bola chegava aos pés de Loschiavo. Babava-se de vê-lo mover-se como um nobre e escorrer a bola para o parceiro como se fizesse um cumprimento. Ministrinho foi um dos cinco melhores pontas direitas brasileiros de todos os tempos. Logo depois do jogo aqui em Uberabinha, foi convocado para a seleção brasileira onde teve brilhante participação. Feitiço foi um dos mitos esportivos daquele tempo. Foi o maior artilheiro do Campeonato Paulista, antes de Pelé.
Além desses talentos, pouco antes de combinar esse jogo, o UEC tinha buscado em Ribeirão Preto um grande jogador: o Chapa. Um negro enorme de grossas pernas e muita elegância. Tinha todos os predicados do bom atleta: centrava, driblava, chutava, cabeceava. E era um matador. Esse jogo contra o Morrinhos, ganhamos por 3 a 1.
Os craques paulistanos chegaram na quinta ou sexta-feira, jogaram no domingo e voltaram na segunda. Conta ainda o Athayde, que era menino de uns 12 anos, que, no intervalo, quando a torcida entrou em campo, ele se aproximou do Chapa e ouviu o grande Odilon de Araguari (jogando pelo Morrinhos) comentar com outros companheiros de equipe: “Que Feitiço, que nada! Jogador é esse Chapa!” Dos três, Chapa marcou um, de cabeça.
Pouco tempo depois, um time de Ribeirão convidou o Uberabinha para jogar lá. Era novidade. Geralmente, os times menores é que chamavam os grandes porque eram atração para a cidade. O que era o USC para Ribeirão Preto? Nada. Depois do jogo, na hora de voltar, cadê o Chapa? Tinha sumido. O time de Ribeirão tinha raptado o jogador para a sua equipe.
Fontes: Athayde Ribeiro, Ramiro Pedrosa