
Recentemente, em uma mesa de bar, um amigo que vive há poucos anos em Uberlândia, surpreendeu-se com a revelação de que a cidade, até há pouco mais de três décadas, tinha como uma das principais características um forte traço de preconceito racial.
E isso é fato. A história registrou alguns casos. E a literatura também. A escritora Martha Pannunzio, em um de seus livros mais famosos, o “Era uma vez um rio”, usou como metáfora a ponte que “dividia a cidade negra da cidade branca, a cidade rica da cidade pobre”.
A oralidade também testemunha esse lado obscuro de nossa história recente. Qualquer pessoa que tenha vivido mais de meio século é capaz de lembrar os tempos que só não eram mais glamurosos pela restrição de entrada aos negros. Dizem que era assim com o Uberlândia Clube. Há relatos de que os únicos negros no clube eram os rapazes da banda. Dizem que também uma bela mulata, irmã de um deles, por ser considerada uma das mulheres mais lindas da cidade, contraditoriamente tinha acesso aos famosos bailes.
Essa verve racista da população parecia também estar impregnada nos clubes de recreio da cidade. Corre a história que o principal deles não aceitava sócios negros, até que Pelé, ainda reinando sobre o futebol, esteve no local, no fim da década de 70, quando criou-se o impasse e o regimento do clube foi finalmente modificado.
Uma outra evidência de que o racismo por aqui era explícito, e isso pode ser comprovado em registros fotográficos, é o fato de cinemas terem assentos diferenciados para negros e brancos. Há quem diga que na avenida Afonso Pena, à época a avenida de passeio mais movimentada da cidade, um lado da calçada era destinado aos negros.
Difícil hoje saber o que é fato e o que é boato. Mas há fortes indícios de que esse passado existiu. Assim como há de que ele foi superado, até mesmo em decorrência da diversidade cultural que aqui instalou-se a partir da corrente migratória de outros estados do país.
Por uma feliz ironia do destino, as grandes celebridades da cidade são negras, como Alexandre Pires, Pena Branca e Xavantinho e o pequeno Grande Otelo. Este último, o uberlandense que maior contribuição deu à cultura brasileira, saiu ainda criança da cidade e raríssimas vezes retornou. Talvez sentisse na pele a força desse racismo. Mas o fato, embora nem todos saibam, é que aqui nasceu e está enterrado o nosso famoso “Macunaíma”.


Algum artista local bem que poderia registrar o cotidiano de lojas, bancos e supermercados para evidenciar o quanto as relações de consumo estão deterioradas e como há ali uma nítida inversão de papéis. Para constatar esta triste realidade, basta prestarmos atenção à avalanche de reclamações sobre as compras de fim de ano, não entregues, atrasadas ou com a qualidade comprometida.
O consumo, de fato, é uma via de mão dupla. Há direitos e deveres de ambas as partes. O consumidor, contudo, é quase sempre o que sai lesado nessa obscura relação, iniciada de modo sedutor, mas não materializada no pós-venda. Vitimado pela frustração, quando não fica a ver navios, o consumidor compromete sua credibilidade em quaisquer tipos de relações comerciais.
As filas intermináveis em determinados bancos descumprem a legislação que estabelece prazo para o atendimento, o não-cumprimento do prazo prometido para a entrega do produto adquirido e a ausência de um atendimento personalizado existente no passado; tudo hoje em dia parece ferir o ego do consumidor e rebaixá-lo a uma condição não de parceiro cliente, mas de alguém que está recebendo um “favor” ao consumir determinado produto ou serviço.
Esse enfrentamento à disposição do consumidor, muita vezes sacrificando seus recursos para a obtenção daquele bem, leva-o a uma compreensível intolerância quando não é respeitado, e, na necessidade de sentir-se valorizado, ventila reações como a horripilante pergunta: “Você sabe com quem está falando?”.
Não quero aqui defender quem, com frases como essa, recorra ao tráfico de influências para fazer-se respeitado. Os direitos dos consumidores são os mesmos para todos e independem de origem social ou status financeiro do reclamante.
O comércio, desde a sociedade feudal, instalou-se como uma integração entre os homens, como uma troca saudável em prol da sobrevivência e da evolução da sociedade. Mas, o capitalismo moderno, ao expandir-se em rede, parece não privilegiar o seu destino final que é o consumidor, que frustra-se com o consumo na mesma intensidade de uma decepção amorosa e, em decorrência, indispõe-se à fidelidade comercial e busca um cotidiano onde freia o seu ímpeto consumista.
Algum artista bem que poderia registrar esse cotidiano. O formato final, obviamente, seria de ficção, mas qualquer semelhança com a realidade não seria mera coincidência.

Em uma das últimas terças-feiras do ano, presenciei situação de bom emprego do dinheiro público. Pelo menos no que se refere à produção cultural. Com recursos do Programa Municipal de Incentivo à Cultura, a cantora Viviane dos Guimarães realizou o show “Certas Canções”, no qual, ao lado de virtuosos músicos, desfilou um repertório elegante, com a consistência de uma pesquisa apurada e interpretação à altura das pérolas musicais selecionadas.
A ocasião serviu como uma espécie de despedida. A cantora, embora sempre com bastante profissionalismo em suas apresentações, não tem na música a sua profissão primeira. Graduada em Design de Interiores, ela parte este mês para Milão, onde prossegue os estudos por um período aproximado de quatro anos. O espetáculo “Certas Canções” serviu-lhe de encerramento de um ciclo artístico em Uberlândia, tempo em que se revelou intérprete sensível e correta. Com a ferramenta da Lei Municipal ela esteve ainda mais livre para expressar-se em cena com a maturidade que lhe é inerente e sem a obrigação de trazer um repertório ao estilo “música de barzinho” ou “atendendo a pedidos”.
Viviane não é cantora de barzinho. Tem gosto apurado e leituras musicais sofisticadas que não combinam com o tilintar dos copos e a euforia de noites etílicas. Em cena, deixou-se levar por canções marcantes, licenças poéticas e momentos de pessoalidade, como aquele em que convidou o pai para um dueto e juntos interpretaram um clássico de Dolores Duran, “Ternura Antiga”, emendando com a dócil e comovente “Você”, de Roberto Carlos.
O eclético programa musical teve, já na abertura, o prenúncio de uma noite prazerosa, com o inusitado pout porri de Martinho da Vila, Dorival Caymmi e Luiz Melodia. Daí, pra frente foi só alegria e momentos de intensidade poética, permeados por um ecletismo sem cair na obviedade de escolhas ou interpretações. A originalidade de Viviane não bastaria se não estivesse acompanhada por um time musical de primeira. O violão de Marcus Melazzo, também o diretor musical do show, a riqueza harmônica do teclado de Rayne Vitorino e a bateria de Cláudio Melazzo, que respondeu pela produção executiva, acentuaram com exatidão a consistente proposta do espetáculo.
Foi um privilégio encerrar 2009 com essa construção musical e sabê-la ancorada em uma lei de incentivo que dá oportunidade aos músicos de manifestarem-se fora do âmbito da “música ambiente”. Que este esteio permaneça latente em 2010. E possamos ser presenteados com novos momentos de tamanha beleza.