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Transe Cultural







26-01-2010


O racismo em Uberlândia



Recentemente, em uma mesa de bar, um amigo que vive há poucos anos em Uberlândia, surpreendeu-se com a revelação de que a cidade, até há pouco mais de três décadas, tinha como uma das principais características um forte traço de preconceito racial.

E isso é fato. A história registrou alguns casos. E a literatura também. A escritora Martha Pannunzio, em um de seus livros mais famosos, o “Era uma vez um rio”, usou como metáfora a ponte que “dividia a cidade negra da cidade branca, a cidade rica da cidade pobre”.

A oralidade também testemunha esse lado obscuro de nossa história recente. Qualquer pessoa que tenha vivido mais de meio século é capaz de lembrar os tempos que só não eram mais glamurosos pela restrição de entrada aos negros. Dizem que era assim com o Uberlândia Clube. Há relatos de que os únicos negros no clube eram os rapazes da banda. Dizem que também uma bela mulata, irmã de um deles, por ser considerada uma das mulheres mais lindas da cidade, contraditoriamente tinha acesso aos famosos bailes.

Essa verve racista da população parecia também estar impregnada nos clubes de recreio da cidade. Corre a história que o principal deles não aceitava sócios negros, até que Pelé, ainda reinando sobre o futebol, esteve no local, no fim da década de 70, quando criou-se o impasse e o regimento do clube foi finalmente modificado.

Uma outra evidência de que o racismo por aqui era explícito, e isso pode ser comprovado em registros fotográficos, é o fato de cinemas terem assentos diferenciados para negros e brancos. Há quem diga que na avenida Afonso Pena, à época a avenida de passeio mais movimentada da cidade, um lado da calçada era destinado aos negros.

Difícil hoje saber o que é fato e o que é boato. Mas há fortes indícios de que esse passado existiu. Assim como há de que ele foi superado, até mesmo em decorrência da diversidade cultural que aqui instalou-se a partir da corrente migratória de outros estados do país.

Por uma feliz ironia do destino, as grandes celebridades da cidade são negras, como Alexandre Pires, Pena Branca e Xavantinho e o pequeno Grande Otelo. Este último, o uberlandense que maior contribuição deu à cultura brasileira, saiu ainda criança da cidade e raríssimas vezes retornou. Talvez sentisse na pele a força desse racismo. Mas o fato, embora nem todos saibam, é que aqui nasceu e está enterrado o nosso famoso “Macunaíma”.





Comentários (4)



Comentários




Ana Santos
26-01-2010
Isso ainda é a realidade, pode não ser a maioria, assim que cheguei à essa cidade, senti na pele a ignorância de alguns. Um dos absurdos que tive que ouvir de uma famoso profissional de cabelo: \"há.. cabelo de negro não dá lucro, pois eles não podem pagar\", pobre coitado, na mesma época havia saído uma matéria sobre o crescimento da índútria de cosméticos, graças à linha afro. Na locação do apartamento, tive problemas com a imobiliária, tive que bricar para resolverem um defeito no imóvel, só depois disso é que resolveram. Na hora que o técnico chegou ao local e me viu soltou a peróla:\"nossa pensei que a senhora fosse branca\". Perguntei à ele, uê só brancos têm direito a reclamar? Por esses e por outros motivos, tenho enorme dificludade em gostar dessa cidade.




Jose Dagmar
26-01-2010
Carlinhos belas palavras de um tempo que graças a Deus ficou no passado. Hoje, é claro, muita coisa mudou. E o preconceito racial ainda existe, porém muito mais social do que racial. Excelente texto. Um abraço




maxmiliano
26-01-2010
Carlinhos, fico muitissimo feliz em ler um texto abordando esse assunto que em Uberlãndia, é praticamente ignorado. A ultima noticia que me alarmou, foi o fato de saber que estão conspirando para que a festa do congo na igreja do rosário, mude de local, por simples vaidade dos digamos, brancos elitistas moradores da praça bicota. fique de olho. (folow me on twitter @maxmiliano)




Thaisa Bruna
26-01-2010
Realmente Carlinhos hoje em dia as pessoas estão mais abertas,e mais receptivas. Em Uberlandia realmente existia muito racismo, mas o racismo não está presente somente nas cores de suas peles.Isso também se reflete na cultura de cada um e naquilo que se acredita(religião entre outras crenças). Nós seres humanos temos também que abrir a mente para ver aquilo que está na nossa frente. Quando aqueles rapazes entraram no BBB10 e se revelaram homossexuais houvi tantos comentarios,e todos contra a opção sexual de cada um, que é um absurdo nos dias atuais.Hoje ainda existe um pouco de racismo contra negros, de algumas pessoas que ainda não entederam que a época dos escravos acabou, mas a sociedade em si não tem esse preconceito mais.Agora a sociedade tem que dar outro passo que acabar com todo tipo de preconceito(religião,opção sexual,cultura, etc).Evoluir também é preciso.










19-01-2010


Twitter, um brinquedinho muito perigoso



A internet é mesmo um território sem fronteiras. E, em muitas ocasiões, sem ética. O mais recente modismo do plano virtual, o Twitter, apesar de uma boa ferramenta para os que o usam com bom senso, tornou-se uma terra de ninguém, em que pessoas, sob a proteção do anonimato, destilam veneno e contagiam a coletividade dos internautas.
O que deveria ser um instrumento de troca de informações, rede de relacionamentos à qual se propõe, transformou-se em um playground virtual, onde “crianças” se lançam sem perceber o quanto o brinquedo pode ser perigoso.
Um perfil local chamou a atenção ao abordar assuntos da cidade e despertou a curiosidade de todos quanto à identidade de quem formatou a página. Mais recentemente, seguindo a mesma trilha, outro internauta criou um tipo similar ao anterior, propondo-se a um “espírito crítico” que explore as mazelas e deficiências de nossa urbe.
A proposta, no entanto, escorregou para a vulgaridade. Virou uma avalanche de ofensas, na qual os frequentadores da página atacam pessoas e empresas de Uberlândia, rotulando a cidade de “provinciana”. Tais ataques não podem ser vistos como críticas, exatamente por estarem camufladas no anonimato. O que os “fantasmas” chamam de provinciano e arrogante, na verdade é público e notório e, por estarem expostos sem máscaras na cidade, bem ou mal, contribuem para a sua evolução. E essa é uma forma legítima de arrogar em favor de transformações efetivas na sociedade.
Valeria muito a iniciativa se a palavra crítica fosse levada a termo. O que ocorre ali nada tem a ver com o seu real sentido léxico. Ao contrário, incorre em equívocos, revelando perfis que nem sequer percebem a inconsistência de seus comentários em rede.
Assim como outros espaços virtuais, o Twitter tornou-se um terreno perigoso para a navegação. Mais do que isso, um terreno árido onde não se planta muito de frutífero e as pessoas expõem-se facilmente ao contágio de heras venenosas.
Com isso, fica comprometida, inclusive, a credibilidade que este mundo infinito deveria trazer. Uma jornalista de São Paulo, por exemplo, utilizou o Twitter como fonte e acabou dando informações falsas sobre a internação da apresentadora Hebe Camargo. Há perfis falsos usando o nome de Hebe no Twitter, assim como de centenas de outras celebridades. No caso da apresentadora, existem sete perfis.
Vale lembrar, então, aos “cosmopolitas” da referida página, que provinciana de verdade é a internet, uma tecnologia embrionária da qual boa parte das pessoas ainda não aprendeu a fazer bom uso.




Comentários (7)



Comentários




Basilio
19-01-2010
Mesmo com estas falhas, acredito que o serviço de distribuição das informações que veio com a www e redes sociais são essenciais para democratizar as informações. Natural que surja pessoas mal intencionadas que farão usos inadequados, afinal como dizia Gramsci, \"a burocracia melhor servirá quem dela souber se apropriar\". Esta democrática forma de compartilhar informação, veio quebrar o monopólio dos tradicionais grupos de informações ligados geralmente a familias de políticos e mandatários deste pais, que durante anos manipularam as informações a seu bel prazer,peneirando aquilo que melhor conviesse para seus negócios outros. A proposito também uso twitter @ildeubasilio




Manuella Rabelo Garcia
19-01-2010
Muito bem colocado, Carlinhos. Muita gente não aprendeu ainda a fazer bom uso da internet, que por sinal é uma ferramenta excelente para quem tem bom senso e sabe filtrar as informações que recebe, principalmente no Twitter. Porém, o que não pode acontecer é deixarmos que ofensas, comentários maldosos e infundados prejudiquem a nossa capacidade de levar em consideração críticas construtivas e conteúdos que podem e são muito úteis no nosso dia a dia. Tem muita "criança" na internet, mas também tem muita gente boa, que sabe usar o canal para expressar opiniões relevantes, principalmente para nós, jornalistas. O desafio é "separar o joio do trigo" e isso só se consegue a partir do momento que nos dispomos a conhecer as ferramentas disponíveis. Beijos para você e um excelente 2010!




Flávio Mex
19-01-2010
É necessário sempre um olhar crítico verdadeiro para se expor pensamentos que nem sempre estão de acordo com a onda da maioria. Bom saber que existe um verdadeiro analista da sociedade uberlandense, seja do ponto de vista cultural ou social, como Carlinhos Guimarães. Muito bom o artigo sobre o twitter, hj no Jornal Correio. Verdades c/ rosto são sempre bem-vindas, isso q é dar a cara a tapa.




Gustavo Rezende
19-01-2010
Absurdo é um "jornalista" apelar à generalização, de forma tão infantil.




Silvana
19-01-2010
Muitíssimo bem colocado. Que bom saber que temos espaço para esses questionamentos. Parabéns por trazer a tona assuntos tão atuais e que não podemos mais evitar que invadam nossas vidas.




Núbia Mota
22-01-2010
Adorei meu amigo. Vc é fino. Te adoro!




Ana CLara
25-01-2010
Realmente é muito refinado.










12-01-2010


As relações de consumo



Algum artista local bem que poderia registrar o cotidiano de lojas, bancos e supermercados para evidenciar o quanto as relações de consumo estão deterioradas e como há ali uma nítida inversão de papéis. Para constatar esta triste realidade, basta prestarmos atenção à avalanche de reclamações sobre as compras de fim de ano, não entregues, atrasadas ou com a qualidade comprometida.
O consumo, de fato, é uma via de mão dupla. Há direitos e deveres de ambas as partes. O consumidor, contudo, é quase sempre o que sai lesado nessa obscura relação, iniciada de modo sedutor, mas não materializada no pós-venda. Vitimado pela frustração, quando não fica a ver navios, o consumidor compromete sua credibilidade em quaisquer tipos de relações comerciais.
As filas intermináveis em determinados bancos descumprem a legislação que estabelece prazo para o atendimento, o não-cumprimento do prazo prometido para a entrega do produto adquirido e a ausência de um atendimento personalizado existente no passado; tudo hoje em dia parece ferir o ego do consumidor e rebaixá-lo a uma condição não de parceiro cliente, mas de alguém que está recebendo um “favor” ao consumir determinado produto ou serviço.
Esse enfrentamento à disposição do consumidor, muita vezes sacrificando seus recursos para a obtenção daquele bem, leva-o a uma compreensível intolerância quando não é respeitado, e, na necessidade de sentir-se valorizado, ventila reações como a horripilante pergunta: “Você sabe com quem está falando?”.
Não quero aqui defender quem, com frases como essa, recorra ao tráfico de influências para fazer-se respeitado. Os direitos dos consumidores são os mesmos para todos e independem de origem social ou status financeiro do reclamante.
O comércio, desde a sociedade feudal, instalou-se como uma integração entre os homens, como uma troca saudável em prol da sobrevivência e da evolução da sociedade. Mas, o capitalismo moderno, ao expandir-se em rede, parece não privilegiar o seu destino final que é o consumidor, que frustra-se com o consumo na mesma intensidade de uma decepção amorosa e, em decorrência, indispõe-se à fidelidade comercial e busca um cotidiano onde freia o seu ímpeto consumista.
Algum artista bem que poderia registrar esse cotidiano. O formato final, obviamente, seria de ficção, mas qualquer semelhança com a realidade não seria mera coincidência.





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KElly C.
13-01-2010
olá!!!Carlos,então,acho muito pertinente falar sobre atendimento ao consumidor.Muitas das vezes nos sentimos tão mal tratados pelo total descaso com que as empresas nos recebe, e principalmente o pós venda.Também,me preocupa a falta de preparo desses profissionais com o atendimento ao idoso, visto que crescente o seu aumento na população.










05-01-2010


As canções de despedida de Viviane



Em uma das últimas terças-feiras do ano, presenciei situação de bom emprego do dinheiro público. Pelo menos no que se refere à produção cultural. Com recursos do Programa Municipal de Incentivo à Cultura, a cantora Viviane dos Guimarães realizou o show “Certas Canções”, no qual, ao lado de virtuosos músicos, desfilou um repertório elegante, com a consistência de uma pesquisa apurada e interpretação à altura das pérolas musicais selecionadas.
A ocasião serviu como uma espécie de despedida. A cantora, embora sempre com bastante profissionalismo em suas apresentações, não tem na música a sua profissão primeira. Graduada em Design de Interiores, ela parte este mês para Milão, onde prossegue os estudos por um período aproximado de quatro anos. O espetáculo “Certas Canções” serviu-lhe de encerramento de um ciclo artístico em Uberlândia, tempo em que se revelou intérprete sensível e correta. Com a ferramenta da Lei Municipal ela esteve ainda mais livre para expressar-se em cena com a maturidade que lhe é inerente e sem a obrigação de trazer um repertório ao estilo “música de barzinho” ou “atendendo a pedidos”.
Viviane não é cantora de barzinho. Tem gosto apurado e leituras musicais sofisticadas que não combinam com o tilintar dos copos e a euforia de noites etílicas. Em cena, deixou-se levar por canções marcantes, licenças poéticas e momentos de pessoalidade, como aquele em que convidou o pai para um dueto e juntos interpretaram um clássico de Dolores Duran, “Ternura Antiga”, emendando com a dócil e comovente “Você”, de Roberto Carlos.
O eclético programa musical teve, já na abertura, o prenúncio de uma noite prazerosa, com o inusitado pout porri de Martinho da Vila, Dorival Caymmi e Luiz Melodia. Daí, pra frente foi só alegria e momentos de intensidade poética, permeados por um ecletismo sem cair na obviedade de escolhas ou interpretações. A originalidade de Viviane não bastaria se não estivesse acompanhada por um time musical de primeira. O violão de Marcus Melazzo, também o diretor musical do show, a riqueza harmônica do teclado de Rayne Vitorino e a bateria de Cláudio Melazzo, que respondeu pela produção executiva, acentuaram com exatidão a consistente proposta do espetáculo.
Foi um privilégio encerrar 2009 com essa construção musical e sabê-la ancorada em uma lei de incentivo que dá oportunidade aos músicos de manifestarem-se fora do âmbito da “música ambiente”. Que este esteio permaneça latente em 2010. E possamos ser presenteados com novos momentos de tamanha beleza.





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