
Texto que divulguei em um trabalho acadêmico.
O ato de preterir é antigo. Não há uma só pessoa que nunca omitiu ou “`desdisse` o que disse” a fim de se livrar de críticas, ou, até mesmo, broncas de alguém. Chaucer, um grande escritor da Literatura Inglesa fazia muita preterição. Sua obra foi escrita na segunda metade dos anos de 1300, época em que vários acontecimentos marcavam o Reino Unido.
A Peste Negra aniquilou um terço da população da Inglaterra em 1348, o que diminuiu a mão de obra e desencadeou uma séria crise econômica. Quase quarenta anos depois, também a Igreja Católica, que, até então, era um dos fortes sustentáculos sociais, entrou em decadência. Foi desmoralizada pela transferência da sede do Papado para Avignon e, mais tarde, pelo Grande Cisma. Todo o clero estava minado pela corrupção.
Devido à crise econômica, social e econômica, um forte pessimismo toma conta da sociedade da época e, nesse cenário, Chaucer escreve seus contos que se transformaram, ao longo da história, no verdadeiro cânone ocidental.
Em sua obra, Chaucer faz críticas à hipocrisia da sociedade bem como à Igreja Católica e, quando a coisa apertava para o seu lado, o que ele fazia? Preterição. Semana passada, falei sobre a ousadia na hora de escrever. Pois bem, selecionei alguns trechos do “Conto da mulher de Bath” para mostrar a coragem do autor, que escreveu há 708 anos, simplesmente sete séculos atrás. (Não desista de ler o texto, leitor, por favor).
“Eu gostaria que mostrassem onde e quando Deus altíssimo condenou expressamente o matrimônio. E onde ordenou ele a virgindade? Sem dúvida, sei tão bem quanto vocês que, quando o Apóstolo Paulo falou da virgindade, reconheceu não ter qualquer preceito sobre o assunto: pode-se aconselhá-la às mulheres. Se Deus tivesse imposto a castidade, teria com isso, automaticamente, proibido o casamento; e se a semente não fosse plantada, como é que a virgindade iria crescer? [...] Embora o Apóstolo tenha dito que é melhor para um homem não tocar em uma mulher (ele quis dizer no catre ou na cama, porque é perigoso aproximar fogo de estopa... e vocês sabem a que essa imagem se refere) [...] Cristo, que é a própria fonte da perfeição, não exigiu, por exemplo, que todos os homens vendessem o que têm, dessem tudo para os pobres e seguissem suas pegadas: Ele apenas recomendou isso aos que desejam viver na perfeição.... e, com a devida licença, cavalheiros, eu não desejo.”
Por incrível que pareça, retirei todos esses períodos de apenas um parágrafo. Nesse trecho, pode-se encontrar críticas ao celibato, ao único matrimônio, sem direito a divórcios, às vendas de indulgências e ao fato de se dizer “porque Deus quis assim”. O mais instigante é que o emissor é uma mulher. Realmente, Chaucer precisava de se valer da preterição para não acabar em cinzas.
Depois de tanto blá blá blá sobre história e literatura, o leitor deve estar se perguntando: o que tem isso a ver com política? Bem, na verdade, quis mostrar que o ato de se defender por meio da retórica é antigo. Só que houve uma “evolução”: o que antes era feito com o objetivo de se safar da morte, hoje é feito de forma dissimulada, a fim de enganar.
Estive pensando em alguns políticos que já preteriram. Lembrei-me de Fernando Henrique Cardoso, que escorregou na maionese três vezes com apenas uma declaração. Lembram-se de quando, ao se referir a Lula, ele afirmou que queria "brasileiros melhor educados, e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria"? Essa afirmação, aos olhos do leitor e da mídia, foi infeliz três vezes. O estardalhaço na mídia girou em torno de três argumentos: primeiro, FHC teria demonstrado forte preconceito acerca da condição de Lula; segundo, a declaração do ex-presidente foi considerada cheia de soberba por causa do prestígio intelectual de que goza; terceiro, a frase está mal elaborada do ponto de vista gramatical. Especialistas mais conservadores da língua portuguesa argumentaram que, rigorosamente, deveria-se usar "mais bem educados", já que não se usa melhor antes de particípio. Ironia do destino, não? Foi criticar a educação de Lula e acabou pecando pela própria. (Eu disse para ter paciência, leitor, agüenta aí que falta pouco para terminar).
Entrevistado recentemente por uma jornalista da Record, FHC foi relembrado do episódio e negou veementemente. Garantiu que jamais proferiu qualquer ofensa à pessoa de Lula... preterição dele, não é mesmo?
Um político que tem feito muitas preterições – só para provar que essa arte não é apenas dos brasileiros – chama-se Nicolas Sarkozy. O mundo inteiro já sabe que Sarkozy antes de Carla Bruni e depois de Carla Bruni são duas coisas totalmente distintas. É a mesma coisa de separar a era paleolítica da proterozóica.
Antes de se casar, Sarkozy fez uma denúncia contra a revista "Le Nouvel Observateur", que publicou que o presidente desistiria do matrimônio com Carla Bruni, caso sua ex-esposa, Cecília, decidisse voltar para ele. Após uma carta recebida pelo editor da revista, o presidente preteriu e fez as pazes com o periódico. Quem contou a boa? Carla Bruni, que escreveu a seguinte declaração ao jornal Le Monde: "o assunto da falsa mensagem está encerrado: meu marido acaba de retirar sua denúncia contra a publicação". Quanta preterição.
Se eu fosse continuar a discussão, ocuparia o Prefácio inteiro. Aqui no Brasil, há políticos que fazem denúncias de corrupção e depois negam o que falaram; há políticos que dão entrevistas a jornalistas e depois retiram o que disseram. Desculpe-me se esse texto está tão cheio de anedotas, mas se você conseguiu ler até o final, parabéns e até a próxima!

Texto retirado do site Por Trás das Letras
"A arte de não ler
(Hélio Consolaro )
Não li o livro “Como Falar dos Livros que Não Lemos”, do psicanalista e professor de literatura francesa, Pierre Bayard, pois não houve ainda a tradução do francês para o português. Tomei conhecimento dele pela resenha de Jerônimo Teixeira, publicada na revista Veja, edição de 16/5/2007.
Nenhum bom escritor é um leitor voraz, ele é seletivo. A leitura de um livro precisa mexer com a vida de quem o lê, caso contrário, não passará de mero hábito de leitura, entretenimento. A não ser que seja literatura de consumo, como livros policiais, best-seller. Quem come demais, não aproveita todo o alimento ingerido.
Aliás, hoje nossas bibliotecas privadas são projetos de leitura, não leremos todos os livros de nossas estantes. Aliás, como está o mercado editorial, dinâmico, se tornou impossível ler toda a bibliografia de cada área profissional.
Então, o professor Pierre Bayard ensina como ser malandro nesse mar de livros: faça como aquele estudante que vai fazer o vestibular sem ter lido os livros da lista de leitura obrigatória, se vira, leia resenhas e resumos.
Às vezes, a pessoa quer parecer culta, não declarar que não leu tal obra, então há alguns macetes do francês, como:
1. NÃO TENHA VERGONHA - todos têm lacunas na sua formação cultural. Nas rodas em que se discute literatura, não há por que imaginar que o sujeito ao seu lado conheça mais de uma obra do que você.
2. IMPONHA SUAS OPINIÕES - opiniões sobre literatura são sempre um tanto arbitrárias. Fale bem ou mal de um livro, mas fale com convicção – e ninguém desconfiará que você não o leu.
3. INVENTE LIVROS - todo leitor é traído pela memória. Assim, você pode inventar novos episódios para um livro, ou até falar de autores e livros que não existem. Se alguém apontar o erro, diga, rindo, que sua memória confundiu as coisas.
4. FALE DE SI MESMO - Oscar Wilde ensina que a crítica literária é uma forma de autobiografia. Fale do significado pessoal que um livro tem para você – mesmo que não o tenha lido.
Se você, caro leitor, não lê quase nada, não se assuste. Ruth Rocha, escritora brasileira, disse que milhões de pessoas viveram sem a leitura. Graciliano Ramos, outro escritor brasileiro, disse, no final de sua vida, que se arrependia de ter metido o nariz nos livros, perdido a sua vida com isso.
Leia porque você gosta, deixe de fazer pose. Se começou a ler um livro e não gostou, pare! Não faça como o Consa, que não entende nada de francês, não leu o livro de Pierre Bayard e ainda se atreve a escrever sobre ele numa coluna da Academia Araçatubense de Letras. Que cara-de-pau!"
Fiquei encabulada com a sinceridade de Hélio Consolaro, bem como com o conteúdo do livro Como Falar dos Livros que Não Lemos, a que ainda não tive acesso. Já ouvi muitas sugestões de livros, dicas de como aproveitar melhor uma leitura, do que grifar em um texto, de quantas leituras são necessárias para compreender o conteúdo, mas, sinceramente, dicas para mostrar que sabe e que leu um livro sem nunca antes ter se deparado com ele é demais para minha cabeça.
Acredito que Hélio não está de todo errado. Há, hoje, muitos falsos intelectuais. Pessoas que dizem e que até demonstram que sabem, quando, na verdade, de quase nada têm conhecimento.
Os falsos intelectuais não são burros. Muito pelo contrário, eles têm o dom da retórica, raro em muitas pessoas. Conseguem falar de tal forma, com tanta lábia, que conseguem convencer qualquer um de que têm total domínio do assunto.
Interessei-me tanto pelo livro citado nesse comentário quanto pelo comentário em si. Quando estiver em uma roda de pedantes, posso até tentar aplicar essas dicas. Mas, aqui pelo blog, não. Apenas me atrevo a falar do que tenho o mínimo conhecimento. De qualquer forma fica aí, pra vocês, a dica de Consolaro.
Para conferir o texto, clique aqui.

Vinte e um anos se passaram desde que nasci. Para muitos, é um tempo curto, mas, para mim, já me faz ter saudade de muita coisa que não volta mais. Percebo que, daqui para frente, não serei mais pueril. Uma nova fase se inicia, com mais exigências, mais responsabilidades, mais vida.
Verdadeiros são os poucos amigos que tenho. Essa certeza me faz caminhar e seguir atrás dos meus objetivos. Hoje, não espero grandes surpresas, tampouco muitos presentes. Apenas espero boas companhias para conversar e muitos livros para ler.
Compartilho esse momento tão ímpar com vocês, que acompanham meu blog diariamente, enviam-me sugestões e me fazem continuar escrevendo sobre os assuntos de que mais gosto!
Feliz aniversário para mim e muito obrigada pela atenção de vocês!