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Nehac







25-07-2008


Quanto vale a caridade?



Sem dúvida, caro leitor, a questão do título o chocou ou, pelo menos, chamou sua atenção. Agora resta manter seu interesse até o último ponto deste artigo. Vamos lá!

Muito se discute sobre o papel do Estado brasileiro e sua “tutoria” às camadas mais pobres. Todo dia vemos manchetes jornalísticas escancarando que a saúde, a segurança e o bem-estar, mantidos por segmentos governamentais, estão falidos.
Ao mesmo tempo, somos convocados a “fazer nossa parte”, a atuar nas inúmeras brechas deixadas pelo poder público.

Nesse sentido, a classe A, a classe média e aquela “emergente” se sentem na obrigação de criar um Terceiro Setor (mais conhecido como Programas Assistenciais). É evidente que esse setor cumpre um papel importante, socialmente falando, e garante uma qualidade de vida um pouco melhor para aqueles que necessitam de ajuda e são esquecidos pelas autoridades.

Até aqui, acredito que todos nós estamos de acordo e sabemos do valor desses setores que atuam paralelamente ao Estado, realizando, quase sempre, seu papel.

É nesse instante que vou colocar inúmeras dúvidas em sua cabeça. Acaso já ouviu falar do filme “Quanto vale ou é por quilo?”, direção de Sérgio Bianchi, lançado em 2005? Talvez não, uma vez que a película teve uma circulação mínima.

Bianchi dirigiu outros filmes polêmicos, dentre eles, o “Cronicamente Inviável” (2000)— sucesso de bilheteria. Sendo assim, por que “Quanto vale...” não teve essa repercussão? O diretor acredita que “mexeu com as pessoas erradas”, por isso o filme foi pouco comercializado e precisou ser interrompido algumas vezes, durante a produção, por falta de verba. Mas afinal do que trata o filme?

“Quanto vale ou é por quilo” tem uma temática delicada. Recupera e recria, sobre o conto de Machado de Assis “Pai contra Mãe”, uma narrativa cujo enfoque é a crítica mordaz ao Terceiro Setor. O enredo é tecido fazendo constantes relações passado-presente – o conto de Machado foi escrito em 1906 –, com vistas a demonstrar que desde aquele instante o ser humano foi tratado como uma mercadoria, primeiro como escravo e, atualmente, como meio de ascensão social. Em que sentido?

Machado de Assis coloca em seu conto um casal extremamente pobre: Candinho (caçador de escravos fugidos) e Clara (costureira) cujo sonho é ter um filho. Entretanto para manterem esse filho é necessário sacrificar outra vida, o bebê ainda não nascido de uma escrava fugitiva (Arminda) capturada por dinheiro.

A perspicácia de Bianchi incide justamente em colocar em cena a essência desse conto, mesclando cenas do século 18, 19 a acontecimentos atuais. Candinho no século 21 trabalha na coleta de lixo, Clara uma jovem que sonha em ser uma pessoa da “alta sociedade”. Quando o rapaz vê a família passar necessidades financeiras graves, após Clara engravidar, se torna um matador de aluguel. Um dos seus trabalhos é eliminar Arminda, também grávida, que descobre corrupção dentro de uma empresa que auxilia pessoas carentes.

Tangente a esses acontecimentos, Bianchi nos coloca pontos difíceis de serem respondidos, mas extremamente necessários. Uma vez que se multiplicam as entidades que nos aconselham “não dê dinheiro ao menino de rua, colabore em causas sociais!”. O que o diretor de “Quanto vale” nos questiona é sobre o fato de essas organizações terem se tornado empresas, se manterem com o dinheiro das doações e, além disso, tornarem-se meio de sobrevivência e ascensão social dos seus membros.

É muito séria essa problemática: a reificação da miséria, ou seja, tornar o mendigo e a criança abandonada uma mercadoria. Nesse sentido, o objetivo tanto do filme quanto desse artigo não é descobrir quais as organizações sérias e quais as que não são. Ao contrário, é discutir o fato de todas colocarem o miserável como mercadoria. Para tanto, basta olhar os comerciais das diferentes empresas que, no fim dos 30 segundos lhe dá um 0800 qualquer e pede a sua colaboração.

Aí, meu fiel leitor, você me questiona, se o Estado não consegue fazer seu papel e o Terceiro Setor “ganha a vida” com a miséria, por onde caminhar, acaso dar esmolas nas ruas? E eu sinceramente lhe respondo, não sei. Assim como Bianchi, não deixarei uma indicação por onde seguir no final deste artigo, porque ainda não vislumbro uma possibilidade satisfatória.

Contudo, acredito que falar sobre o assunto e discutir as questões que o filme “Quanto vale ou é por quilo?” nos coloca é um primeiro passo para se encontrar as soluções.

Eliane Alves Leal
Mestranda em História Social, pela Universidade Federal de Uberlândia, bolsista do Capes e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac). 
elianealvesleal@hotmail.com





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11-07-2008


Histórias e museus: o revelar de novos mundos



São 30 anos de federalização da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A instituição tem em sua formação diversas histórias que contam um pouco da formulação do ensino superior em nossa cidade. A própria construção dos blocos dos distintos cursos têm uma história política peculiar, visto que foram feitas dentro do período da ditadura militar, na década de 1970.

A estrutura física dos blocos foi executada de forma a distanciar a aproximação entre os alunos dos diferentes cursos. A área das Humanidades ficou separada da área das Exatas. Naquele momento, a política que vigorava no Brasil primava pela não luta entre as classes.

Mas, depois de 30 anos, como está a UFU? Atualmente, intenta promover a interação entre os alunos dos diversos cursos. As programações culturais internas buscam dar acesso aos estudantes à música, dança, teatro, palestras etc. Durante as semanas, são eleitos alguns dias para determinado tipo de confraternização no Centro de Convivências.

Além das programações culturais dentro dos campi Santa Mônica, Umuarama e Educação Física, existem os museus que fazem parte da história da cidade e do movimento cultural produzido na mesma. Os setores da UFU como a Diretoria de Cultura (Dicult) e a Pró-reitoria de extensão, cultura e assuntos estudantis (Proex) coordenam cinco museus da cidade: o do Índio, da Biodiversidade do Cerrado, de Minerais e Rochas, o Municipal de Uberlândia (que não faz parte da UFU, mas entra como convidado) e o MUnA (Museu Universitário de Arte), que comemora 10 anos de existência no mês de outubro deste ano.

O MUnA é uma extensão dos empreendimentos produzidos pelos alunos do curso de Artes Visuais da UFU e não somente destes. Artistas da cidade e região têm acesso ao local de forma a apresentar seus trabalhos para o público em geral. O museu, em todos esses anos, teve um crescimento significativo. A infra-estrutura obteve mudanças importantes tornando o ambiente mais agradável para os visitantes. Contudo, antes da criação do espaço, houve a necessidade de adquirir um ambiente específico para a exposição das obras criadas pelos alunos que antes eram apresentadas em diferentes espaços do campus Santa Mônica.

O Museu Universitário de Arte também apresenta outras opções para o público da Uberlândia, como exibição de filmes e palestras. A ampliação acadêmica por meio da disciplina de licenciatura “Prática IV” faz com que os alunos do curso de Artes Visuais trabalhem em conjunto com alunos das escolas municipais e estaduais por meio do projeto “Ação Educativa”, no qual os universitários ensinam trabalhos artísticos aprendidos dentro do curso de artes aos alunos dos ensinos fundamental e médio, lógico, de maneira mais acessível.
Isso, com o intuito de os universitários aprenderem a lidar com crianças e estas poderem ter ingresso, mesmo que restrito, às artes.

A graduanda do curso das Artes Visuais Ana Paula de Andrade, que estagia no MUnA há quatro anos e já atuou em diferentes setores do mesmo, diz que “o MUnA funciona como um laboratório de práticas”, se referindo ao fato de o museu se tornar uma opção a mais para os alunos das Artes Visuais exibirem o que estão adquirindo em conhecimento dentro do curso.

Vale destacar que, durante o ano, são expostos diversos trabalhos de alunos e artistas da região. No espaço do museu existem dois locais específicos para a divulgação de obras, a sala de pesquisa e a galeria, sendo esta a maior área do lugar. No mês de aniversário do museu, os salões de exposição apresentarão diversas programações em comemoração aos 10 anos do local.

Os museus da cidade deveriam ser ambientes mais freqüentados pela população local e não só pelos estudantes dos cursos de Artes e afins. Há que se atentar para uma urgente desmistificação de certos lugares em nossa cidade sejam eles os museus ou outros espaços culturais. A população merece e deve ter acesso à cultura artística. Por isso, agendem suas visitas aos museus de nossa cidade e aqueles que quiserem visualizar a programação mensal do MUnA acessem o endereço eletrônico: www.MUnA.ufu.br e descubram um mundo novo.

* Fernanda Ramos Batista* - Graduanda em História pela Universidade Federal de Uberlândia e bolsista de Iniciação Científica vinculada ao CNPq. Integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac).
nanda_estoria@hotmail.com





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Comentários




Delasito Gomes
29-07-2008
Os museus mencionados por você, não pertencem, nem são coordenados pela Proex ou Dicult. Cada um deles está vinculado a um curso. Dizer que o Museu Municipal, por exemplo, é coordenado por estes órgãos é, no mínimo, extrema falta de informação. Pois, este é do município, enquanto os demais são federais. Se informe melhor sobre a realidade dos outros museus, ja que fala unicamente do MUNA.










04-07-2008


A banalização do cotidiano



Consideremos a seguinte passagem: “Os eventos que não são vistos como trágicos estão profundamente inseridos no padrão de nossa própria cultura: guerra, fome, trabalho, tráfego, política. Não ver conteúdo ético ou marca de ação humana em tais eventos, ou dizer que não podemos estabelecer um elo entre eles e um sentido geral, (...), é admitir uma estranha e específica falência”. Pensada no âmbito de sua produção, esta análise do pensador e crítico inglês Raymond Williams se insere numa discussão que procura refletir sobre o conceito de tragédia e sua presença ou ausência nas idéias contemporâneas ou, mais especificamente, na leitura que se faz sobre determinados acontecimentos do século 20.

Partindo da premissa que o sentido trágico é construído historicamente, isto é, não é possível pensá-lo sempre da mesma forma ao longo dos tempos, Williams destaca que há neste mesmo século uma preocupação em separar a “tragédia” de “acidente” ou “mero sofrimento”. O fator que permite distinguir estas duas acepções é, fundamentalmente, a presença ou ausência de significado. Assim, para que um acontecimento seja considerado trágico deve estar ligado a um “sentido geral”, pois, ao contrário, é apenas um acidente. Contudo, o que deve ser posto em questão é que sentido geral é este? E ainda, de que instância ele retira sua fundamentação? Dito de outro modo, quais os critérios utilizados para interpretar um evento como trágico ou não?

A par destas indagações, se retornarmos ao início da reflexão aqui proposta, verificaremos que, para Williams, são justamente os eventos mais presentes em nossa cultura que não podem ser lidos/interpretados como trágicos. Percebemos que os acontecimentos apontados pelo crítico como a fome, a guerra, política, etc. perderam seu sentido trágico por estarem presentes no cotidiano. A ausência de uma visão trágica nestes eventos traz uma conseqüência incomensurável: a banalização dos mesmos. Em outras palavras, a perda do estatuto trágico faz com que estes eventos sejam interpretados como “normais” e, portanto, aceitáveis. Mais que uma questão de definição ou de terminologia, esta mesma ausência revela uma concepção sobre a ética e valores humanos que deve ser problematizada.

Há uma considerável distância espaço-temporal entre o momento em que a análise de Williams é produzida e nossa temporalidade. Todavia, suas palavras se mostram extremamente atuais. Talvez, nunca fomos tão capazes de banalizar o cotidiano. Cotidiano este em que a fome, a miséria, a violência, os problemas da política, etc., perderam seu sentido de tragicidade e se tornaram normais. A mesma ausência de significação, apresentada pelo crítico, é o motor da interpretação/aceitação de tais eventos.

Se, conforme descrito antes, o sentido trágico é historicamente construído e, ao mesmo tempo, estamos excluindo deste âmbito eventos consideráveis, há uma urgência em repensarmos as instâncias históricas que permitem tal constatação, ou seja, é necessário deixar de lançar um olhar complacente para a miséria, a fome, a política, etc., e questionarmos as perspectivas que permitem sua banalização. Eis o passo inicial para caminharmos no sentido inverso de uma “estranha falência”.

*Maria Abadia Cardoso





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