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Crônica







27-09-2008


Antes do tempo modernos (66)



Sempre gostei de cidades pequenas. E Porto Velho, embora fosse uma capital, tinha apenas 8 mil habitantes, comparável a Patrocínio, onde fazia pião quando caçava borracha de mangabeira para os americanos. Eta, Patrocínio bom! O americano chefe do escritório da Rubber, em Belo Horizonte, disse-me que aquela era a cidade que tinha o melhor clima de mundo. Aí eu disse a ele: “Então é a segunda com o melhor clima do mundo. A primeira é Patrocínio.”.
Porto Velho é quente. No entanto, as noites eram agradáveis, a partir das 10h. Minhas noites ali sempre foram bem dormidas. Havia até a friagem que descia dos Andes da Bolívia.

Muito me divertia em Porto Velho. Tinha cartaz. Afinal, o Gilton e eu éramos os únicos engenheiros agrônomos do Território. Certa vez, num dia das árvores, li um discurso. Gostaram dele e, até o publicaram no “Alto Madeira”. Aconteci também na coluna social daquele jornal. Foi uma fofoca envolvendo este aqui, Xeirinha e um capitão do Exército que arrastava as asas em redor dela. Levei a palma, isto é, a Xeirinha continuou só minha. Creio que o capitão tenha passado a dono dela, logo que me mandei para o Rio de Janeiro. Ai, que dor de corno!

Para o Rio me fui porque não daria para recusar o convite do colega Osmar Resende para trabalhar na Secretaria da Agricultura do Distrito Federal. Teria mesmo que agarrar aquela oportunidade. Quase todos os funcionários do território viviam desejosos de voltarem à civilização. No Guaparé, eu tomava um comprimido de atebrina por dia, a fim de evitar os sintomas da malária. Apesar de estar gostando de Porto Velho, havia deixado a gente querida de minha família em Cachoeiro de Itapemirim, longe pra 70 de Porto Velho.





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20-09-2008


Trem bão é trem (8)



Quando eu era sócio da Auto Mecânica São José, de Araguari, ia muitas vezes buscar carros em São Bernardo do Campo, grande São Paulo. Pegava a Mogiana aqui. Em Uberaba passava para um leito e fazia uma ótima viagem até Campinas, de onde me transferia para a Paulista. Viajei também pela Estrada de Ferro Goiás, cuja sede era em Araguari, num imponente prédio que abriga agora a Prefeitura Municipal daquela cidade. Aquela sede dispunha de tudo para manter nos trilhos uma estrada de ferro. Ligava Araguari a Anápolis, deixando Goiânia à esquerda. Como vendedor de máquinas da Sotreq, estive na sede de Goiás, onde tive o prazer de me entender com o diretor daquela estrada de ferro, o major Mauro, um cavalheiro de fino trato, filho do famosíssimo Pedro Ludovico.

Alguns anos atrás, tive a satisfação de fazer turismo em Araguari. Não havia trem turístico, mas fiz turismo assim mesmo com a minha família. Foi uma tremenda curtição. Pegamos um excelente boião no restaurante do bosque, a que dou muito valor por ser um capão da mata nativa que ali existia e que deu lugar ao Arraial da Ventania do Brejo Alegre. Da ventania, o “ar”; o brejo sempre tem “água” e o alegre “ri”. O resultado desta “melódia” foi Araguari, uma bela, progressista, acolhedora e aprazível cidade.

Já estava quase no fim desta minissérie, quando tive a sorte de ler o texto da linda e competente repórter Priscilla Mundim sobre o Palácio dos Ferroviários. Fiquei sabendo que a estação voltará à ativa com um “trem turístico”.
Tomara que o Circuito Turístico do Triângulo Mineiro ponha logo nos trilhos o trem pelo qual possamos turistar entre Araguari e Uberlândia. Vai fazer um baita sucesso. Os jovens estão doidinhos para viajar de trem e sentir o gosto da novidade. A gente grande poderá matar a saudade do trem, que sempre foi um trem bão.





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13-09-2008


Trem bão é trem (7)



É claro que pelas rodovias a Vale não poderia transportar aquele tantão de minério de ferro para os portos. O mesmo podemos dizer dos grãos que são transportados em grande quantidade para os portos e as indústrias. Os trens, sempre bons, de carga ou de passageiros, levam muita vantagem sobre caminhões e automóveis, em termos de segurança: andam nos trilhos e nunca se ouviu falar da existência de maquinista pinguço nem usuário de “rebite”.

Construir ferrovias é investimento alto. Mas vale a pena porque, com o passar do tempo, os benefícios são elevadíssimos. Casar a ferrovia com a hidrovia proporciona eficiência e economia no transporte da grande produção de grãos. Foi uma monumental burragem dos governos o fato de terem jogado as ferrovias para as baratas.

A única ferrovia pela qual fiz turismo dominical foi a saudosa Estrada de Ferro Itapemirim. Que bondade era viajar para Marataízes a fim de curtir a praia, o mar, a maresia e a boa companhia dos colegas e das garotas. Certa vez, um rapaz da minha turma escondeu o sutiã da Zoé que estava a secar num varal. A infeliz teve que voltar para Cachoeiro com os braços cruzados para esconder aquele lindo par de seios.

Jamais tive a ventura de desfrutar de um passeio num verdadeiro trem de turismo, como os que trafegam entre São João Del Rei e Tiradentes, e o que liga Curitiba a Paranaguá.

Vi, recentemente, pela televisão, a alegria de crianças e adultos que ocupavam um vagão do trem que estava de partida de Belo Horizonte para Vitória. Deu para se notar como as crianças quicavam de alegria. Os marmanjos talvez estivessem curtindo a satisfação de usar um transporte agora tão vasqueiro, que cedeu lugar ao ônibus e ao avião.





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06-09-2008


Trem bão é trem (6)



Antigamente, o trem era melhor do que cavalo, carro de boi e jardineira. Agora o trem continua bão, isto é, melhor do que o avião. Há muita gente que não embarca em avião, apesar de ser o mais seguro dos transportes. Os que se borram de medo de avião não deixam de ter razão: o que mais cai do céu é chuva e avião. E avião caiu, babau! Atualmente o trem continua sendo o melhor transporte de carga e de passageiros em termos terrestres. O trem está cada vez melhor com o advento dos trens-bala. Se a Argentina ainda não o tem de Buenos Aires a Córdoba, passando por Rosário, brevemente ele será uma realidade. Sei da existência dos balas no Japão e na França. Na Europa só tem trem bão. E o mesmo acontece nos Estados Unidos.

O trem-bala entre São Paulo e Rio já vem tarde. Aliás, as ferrovias deveriam estar cobrindo quase todo o território brasileiro, deixando de lado a Floresta Amazônica. Um dia, os trens deverão substituir, de modo substancial, os carros e os caminhões que pererecam em nossas perigosas rodovias.
As grandes cidades brasileiras já pertencem aos automóveis e às motos. Cada dia, o inferno fica ainda mais infernal. É por isso que cidade de médio porte e em acelerado crescimento deveria partir, desde já, para o metrô de superfície. Uma cidade como esta só começaria a desfrutar de tal benefício com mais de um milhão de habitantes. Providência salutar: evitaria o caos urbano como o de São Paulo. Gente cada vez aumenta mais. E veículos também. Temos que dar um jeito na já escatológica situação. Ou será que vale a pena esperarmos que Deus nos transforme em pássaros?





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