
* Na Coluna de hoje, leia o artigo da professora de Língua Portuguesa e Literatura Neli Edite dos Santos. A professora é doutoranda em Letras pela Universidade Estadual de Campinas.
Neste texto, teço breves considerações a respeito das redações do Enem 2008 e apresento minha defesa do fortalecimento da esperança nos estudantes do ensino médio.
Os estudantes, ao redigir texto focalizando a relevância da região amazônica para o meio ambiente e para a economia brasileira, temática da redação do Enem 2008, defendem, entre outras propostas: o desenvolvimento sustentável; a valorização das culturas dos ribeirinhos e dos indígenas; a celebração de acordos internacionais sem perder a perspectiva da região amazônica brasileira como patrimônio de nosso povo; a biodiversidade; a educação ambiental; a reforma agrária como estratégia de proteção da região amazônica contra a invasão estrangeira; a ampliação da quantidade de fiscais e a sua qualificação técnica e ética; rígido controle de ONGs e religiosos que se prestam a disfarçar práticas predatórias.
Eles referem-se a personagens e fatos historicamente importantes para a compreensão dos embates que a temática socioambiental suscita: Chico Mendes; a religiosa norte-americana Dorothy; o massacre em Eldorado dos Carajás; a atuação da ministra Marina Silva; os Estados Unidos e a China, como exemplos de intransigência e omissão em relação à proteção do planeta Terra.
Seus textos também indicam que percebem aspectos pouco difundidos: o valor comercial da fauna e da flora amazônica, sobretudo para as indústrias de ornamentos, farmacêuticas e de cosméticos; o tráfico internacional de espécies da biodiversidade amazônica; conflitos entre defesa ambiental e interesses econômicos. Denunciam, veementemente: a devastação cometida por pecuaristas e madeireiros, inclusive com o envolvimento de políticos; o trabalho escravo, principalmente, de crianças; o aliciamento dos povos da floresta para encobrir crimes ambientais.
Por meio da exposição acima, pretendo ter oferecido aos leitores motivos para escolher a valorização dos esforços de escrita dos nossos jovens em detrimento de sua ridicularização. Escrever é tarefa complexa. Pensar e escrever em situação de avaliação e mediante a precariedade das condições antecedentes de escolarização, mais ainda. Como já poemou nosso Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã”.
Temos elementos valiosos, jóias verdadeiras, para cultivar respeito e carinho pela juventude e fortalecê-la em suas lutas — inclusive a luta com a palavra e pela palavra. Com relação às redações do Enem, é preciso repudiar quem, anonimamente, se apropria de tais trechos e fomenta a ridicularização dos estudantes. Ao zombar de tais escritos, irresponsavelmente retirados de uma avaliação oficial, contribui-se para empurrar ainda mais a juventude para fora das instituições de ensino, minar sua autoconfiança e enfraquecer a esperança coletiva e individual em uma educação de qualidade.
Tal prática presta, ainda, um outro desserviço: difunde as idéias equivocadas, tanto do ponto de vista pedagógico quanto político, de que a melhor escrita é aquela que se faz sem desvios da norma padrão e de que o erro não é fonte de aprendizado.
Minha posição não destitui a importância de verificar nos textos produzidos pelos estudantes do ensino médio dificuldades de domínio da modalidade escrita: desvios da variante socialmente referenciada como padrão, excesso de marcas de oralidade, confusão na utilização de conceitos, vocabulário restrito, limitado acervo de elementos coesivos, uso inadequado de elementos caracterizadores de gêneros textuais. Essas e outras dificuldades devem ser trabalhadas e tratadas de modo a promover sua superação e subsidiar as políticas públicas voltadas para a educação.
Por fim, convido os leitores à decisão de valorizar o esforço de produção de textos da juventude, inclusive colaborando na difusão de informações que contribuam para a superação de tais dificuldades. Tomara nossa sociedade, em breve, se recuse às falsas “pérolas” e consiga perceber os desafios que temos a assumir na constante conquista da qualidade do nosso ensino.

| Algar Lê |
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Professora Neire Lúcia e seus alunos da 4ª série A da E.M. Prof. Irene Monteiro Jorge |
A professora Neire Lúcia Guimarães, da 4ª série A da Escola Municipal Professora Irene Monteiro Jorge, no bairro Morumbi, zona Leste da cidade, acredita que, independentemente da idade, as crianças precisam estar envolvidas com o que acontece na sociedade. Ela faz questão de trabalhar o jornal na escola. Lê e comenta as notícias publicadas no CORREIO de Uberlândia diariamente.
Em julho, Neire iniciou uma proposta que focou a política. Segundo a professora, todas as reportagens relacionadas às eleições municipais deste ano foram trabalhadas pelos estudantes. As atividades foram bastante diversificadas, mas invariavelmente eram encerradas com roda de conversas entre os alunos e a professora. Em alguns momentos, pedagogos, supervisores e orientadores participaram das discussões. Neire teve a preocupação também de envolver os pais com o seu projeto. Por isso, para cada reportagem trabalhada em sala, ela elaborou um questionário, e como tarefa de casa os estudantes tinham que conversar a respeito com os responsáveis para respondê-lo. Depois, em sala, voltavam a discutir o assunto.
A educadora afirmou que percebe claramente o quanto os estudantes evoluíram. “Eles estão visivelmente mais críticos. No início, a participação era menor e mais difícil fazer eles falarem e exporem a opinião. Agora, além de demonstrarem que têm opinião formada, todos querem participar”, afirmou Neire Lúcia.
De acordo com a professora, os educandos até modificaram alguns hábitos a partir do despertar da cidadania. “Até o ambiente da escola melhorou. Eles estão mais atentos a uma série de questões que passariam despercebidas se não fossem nossas conversas em sala”, disse.
A comprovação de que o trabalho de Neire Lúcia valeu a pena e de que ela realmente conseguiu alcançar o objetivo de sua proposta, de educar para a cidadania, veio no dia seguinte às eleições. Os alunos chegaram na escola indignados com o que viram no dia anterior em relação às propagandas eleitorais. Todos queriam falar, comentar e expor suas opiniões. Neire contou que todas as reportagens publicadas na edição do CORREIO de Uberlândia do dia 6 de outubro foram discutidas pela professora e seus alunos; a que mais chamou a atenção deles foi a que noticiou a sujeira das ruas, pois foi essa a realidade que os deixou indignados.
Como resultado do trabalho a turma enviou uma carta escrita coletivamente após as discussões que vivenciaram em sala.
Confira na íntegra a produção dos alunos:
Carta Coletiva da 4ª série A
Carta direcionada às pessoas que ajudam a criar leis que devem ser respeitadas e cumpridas pelos cidadãos de uma cidade.
Pois pelo visto eles mesmos esquecem de respeitá-las.
Será que esqueceram que eles também devem cumprir e respeitar essas leis?
Por que no dia da eleição, no domingo dia 5 de outubro, as ruas perto das seções eleitorais amanheceram imundas. Quanta sujeira! Parecia que tudo que sobrou da campanha política os candidatos resolveram jogar nas ruas. Havia santinhos espalhados por toda parte e aos montes.
Os cidadãos ficaram revoltados com o que viram.
Quanta falta de respeito pela nossa cidade e com seus eleitores!
Parece que a crise para esses candidatos não existe, porque aquele montão de papéis espalhados foi o mesmo que jogar fora. Quanto desperdício!
Caros candidatos, as leis foram feitas para serem respeitadas por todos, então comecem a praticá-las, porque nós, seus futuros eleitores, estamos de olho em vocês. Esses candidatos que não respeitam as leis poderão ter grandes surpresas ao descumpri-las. Então pense muito antes de fazer. Vocês desrespeitaram o meio ambiente. Quantas árvores precisaram ser destruídas para serem feitos toneladas desses santinhos para serem espalhados pelas ruas? Quanto desrespeito!
Vocês precisam é trabalhar durante o ano todo junto ao seu eleitor, ganhando a confiança, o respeito e a admiração dele.
Que pena precisar criar leis para obrigar o candidato a ter respeito pelo lugar em que vive. Mas parece que o ser humano só funciona quando é obrigado a cumprir. Que pena!
Então se é preciso de mais leis para que sejam cumpridas as regras, aqui vão mais algumas sugestões dos alunos da 4ª série A da Escola Municipal Professora Irene Monteiro Jorge, do bairro Morumbi:
- Colocar os próprios candidatos que tiverem santinhos espalhados para fazerem a limpeza.
- Colocá-los para fazerem cursos onde eles aprendam a ser cidadãos melhores.
- Colocá-los para prestarem serviços para o melhoramento de nossa cidade, na limpeza, na arborização, nas escolas, nos presídios etc.
Então fica aí nosso alerta. Pense muito antes de praticar um crime porque o crime não compensa.
AGENDA
ATENÇÃO EDUCADORES! Não se esqueçam do nosso compromisso.
O IV Módulo de Formação do projeto Algar Lê – Correio Educação será na próxima 5ª feira, dia 23, no Cemepe. Você poderá participar no turno da manhã, das 7h30 às 11h30 ou no turno da tarde, das 13h30 às 17h30. Programe-se. Sua presença é fundamental.

A professora Sandra Vieira Nunes de Oliveira, da Escola Municipal Amanda Carneiro Teixeira, no bairro Brasil, zona Central da cidade, afirmou que neste ano se envolveu muito mais com o trabalho com jornal em sala de aula do que em épocas anteriores. Este envolvimento rendeu à professora a conquista de resultados que ultrapassaram todas as expectativas e trabalhos que se destacaram no ambiente escolar. Sandra é professora da 3ª série 4, no turno da tarde, e realizou diversas atividades utilizando o CORREIO de Uberlândia com esta turma.
Dentre elas, a que os alunos demonstraram ter apreciado mais foi o ‘Jornal Mural’. Este foi, inclusive, o trabalho apresentado pela turma na feira cultural da escola. Ela dividiu a turma em nove grupos e cada um ficou responsável por uma parte do conteúdo do jornalzinho. “Não imaginei que os alunos se envolveriam tanto. Foi ótimo. E o melhor é que apenas lancei a idéia. O resultado final foi 100% fruto da criatividade deles, das idéias deles”, afirmou a professora.
No jornal construído pela 3ª série 4 havia um espaço dedicado às notícias do bairro, outro só de esportes, uma seção para textos sobre as celebridades, como artistas e atletas, dicas e notícias de TV e de cinema, previsão do tempo e turismo, e não faltaram nem mesmo os classificados, páginas com passatempos, e, inclusive, propagandas.
“As crianças gostam muito de atividades diferentes. Elas gostam de ser ouvidas, gostam que as idéias delas sejam respeitadas. E os alunos sempre têm muitas idéias boas. Não adianta pensar que criança não tem opinião.”
Além de dar abertura para que cada estudante opinasse e colaborasse com a criação da identificação do jornalzinho, Sandra aproveitou para trabalhar estratégias de leitura e os conteúdos, principalmente de língua portuguesa. Ela teve o cuidado de corrigir cada texto com seu autor e pedir para fazerem de novo e todas as vezes que foram necessárias.
A educadora ressaltou que a maior conquista da proposta foi a interação que se processou naturalmente entre ela e todos os estudantes da turma. Sandra contou que descobriu detalhes sobre cada aluno.
“Havia, por exemplo, entre os colegas, aquele que nunca tinha ido a um cinema. Então, os demais contavam como é. E assim aconteceu com outros assuntos trabalhados e pesquisados”, afirmou.
A professora acrescentou também que agora o jornal sempre terá espaço garantido em suas aulas.
“Foi uma experiência ótima, muito gratificante. Todas as escolas deveriam priorizar o jornal como material indispensável na sala de aula pois ajuda o trabalho das crianças fluir com mais leveza, mais naturalidade”, afirmou.
Sandra Oliveira ressaltou também que é necessário criar mais espaços de troca de experiências entre professores e estudantes envolvidos com a proposta de trabalhar o jornal na escola. Ela acredita que precisa haver mais exposições no Centro de Estudos (Cemepe) e mais abertura nos meios de comunicação.
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Professora Ana Maria Costa e seus alunos da 4ª série 4 da E. M. Prof. Sérgio de Oliveira Marquez |
“Eu gosto do CORREIO de Uberlândia porque a minha professora me ensinou a ler o jornal. Antes eu não sabia”, afirmou o estudante da 4ª série 4 da Escola Municipal Professor Sérgio de Oliveira Marquez, Matheus Vidal Ferreira, de 10 anos.
Matheus é aluno da professora Ana Maria de Oliveira Costa, que desde o início do ano letivo se preocupou em levar o jornal para a sala de aula pelo menos uma vez a cada semana. A opinião do garoto coincide também com a dos demais colegas de turma.
Normalmente, os estudantes separam um caderno para cada conteúdo. Os alunos de Ana Maria têm também o caderno de jornal. Nele, cada criança está registrando passo a passo tudo o que estão aprendendo com as aulas diferenciadas.
Roberta Loise Ferreira Costa e Karolina Kennedy Silva Costa, ambas com 10 anos, exibiram orgulhosas os cadernos encapados com jornal e plástico, que contêm as primeiras lições que explicam cada parte que compõe o impresso, e, ainda várias notícias comentadas. As garotas fizeram questão de deixar evidente que sabem na ponta da língua o que é manchete, editorias, chamadas e também diferenciar os textos.
Ana Maria contou que o sucesso do trabalho foi tanto, que ela e os alunos elegeram o CORREIO de Uberlândia como tema para apresentarem na Feira Científica e Cultural da escola.
O resultado mais uma vez deixou a todos satisfeitos, pois a comissão julgadora elogiou a criatividade dos alunos e principalmente o conhecimento sobre o meio de comunicação. Eles demonstraram desenvoltura e segurança para apresentar o veículo aos visitantes. Além disso, presentearam a cada um com um exemplar do dia do CORREIO de Uberlândia.
Na fase de preparação do trabalho, no lugar de utilizarem o jornal uma vez por semana, a turma passou a realizar atividades com o impresso diariamente. Em razão disso, Ítalo Soares Macedo, 10 anos, afirmou não conseguir mais ficar sem saber as notícias do dia. “Gosto de ver as reportagens e opinar sobre elas”, disse.
“Comparamos a realidade atual com os fatos antigos, assim aprendemos História de uma maneira muito mais fácil e divertida”, complementou Maísa Ferreira Rodrigues da Silva, 10 anos.
Beatriz Rodrigues Silva, de 9 anos, afirmou que depois de praticar bastante os exercícios propostos pela professora percebeu que diminuiu os erros de interpretação. Ela contou que antes do trabalho errava muito e que agora sente muito mais facilidade. Além disso, ela afirmou que descobriu que ler é algo muito divertido.
A professora afirmou que para ela o jornal é um material que se tornou indispensável. “Eu gosto muito. Todos os dias pego e já procuro o que posso encaixar no conteúdo. Sempre acho”, disse.
Ana Maria afirmou ainda que seus alunos estão realmente mais interessados e que isso faz com que as performances sejam melhores. “Eles estão mais críticos, conseguem distinguir os diferentes tipos de textos com facilidade, trabalham melhor em grupo, enfim, envolvem-se realmente com as propostas e aprendem mais”, afirmou a educadora.
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