
Tem gente que dá tanta importância à aparência e se esmera com tamanho cuidado em cultivar o corpo, que parece esgotar aí seus esforços e deixar em segundo plano as atenções ao interior, à essência, ao ser.
E tome cirurgia de redução de estômago, de correção facial, de implante de silicone, de anabolizantes, lipoaspiração, botox e uma série infindável de interferências que, realmente, fazem reparos consideráveis nas aparências cada vez mais vaidosas das pessoas.
A isto vêm se somar as atividades físicas das academias com suas múltiplas ofertas que prometem corrigir e manter aquilo que a natureza nem sempre favoreceu. Aí entram o spining, o pilates, as artes marciais e por aí afora.
A indústria da estética sempre atenta às oportunidades não perde a chance de oferecer produtos miraculosos de rejuvenescimento corporal, alimentação balanceada, prolongamento de vida das células, correções das mais diversas. Tudo para oferecer ao narcisismo do ser humano a ambicionada juventude permanente.
E tudo isto não é apenas com as pessoas que já alcançaram determinada idade em que os anos de vida deixaram marcas visíveis. Porque estes, pelo menos, querem manter aquilo que um dia já tiveram; o problema é que cada vez mais os jovens estão entrando nesse frenesi de correções, cirurgias e interferências físicas, insatisfeitos não com as marcas adquiridas ao longo do tempo, mas com as que caracterizam seus traços genéticos. É tanta gente fazendo isso, que quem não faz quase se sente constrangido.
É a criatura interferindo na criação estética de si mesma. Quase um quadro que, por sua obra e graça, interfere no traço do autor e altera por sua conta a forma com que foi criada.
Claro que tem muita gente que, por razões muito peculiares, tem mais que ter iniciativas corretivas. E outras que, por necessidades profissionais ou por natureza íntima, o façam para ficar bem consigo mesmas.
Mas tem muitas, e este número cresce cada vez mais, que fazem isso sem nem saber o porquê. Apenas por comparação aos outros, apenas porque está na moda, apenas porque tem muita gente fazendo. Apenas porque não sabem o que fazer para mudar a si mesmas.
Para essas, talvez, a melhor plástica não seja na estética, se bem que esta é mais fácil, porque é de natureza cirúrgica e mexe só com pele, carne, osso e células.
O que elas precisam mesmo é de uma plástica nas idéias que seja capaz de melhorar não a aparência do corpo, mas a essência das idéias, das atitudes, da consciência, do comportamento.
O problema é que, para fazer plástica nas idéias, o bisturi não basta, é preciso modificar a cabeça, o coração, os sentimentos...
*celsomachado@netsite.com.br

Estamos sendo tão bombardeados com notícias trágicas que nem temos tempo para digeri-las na sua intensidade. Vamos de certa forma nos tornando também um pouco insensíveis, até mesmo como uma defesa de proteção ao nosso sagrado direito de dar seqüência à nossa vida de uma forma mais otimista. E passamos a direcionar nossas atenções na busca de acontecimentos felizes que possam recarregar nossa inspiração de vida de uma forma mais "pra cima".
Como a crueldade humana parece não ter limites nossa indignação, incredulidade, diante de uma tragédia não pode mesmo perdurar, porque o surgimento de outras novas igualmente grandiosas vão se repetindo numa freqüência cada vez mais frenética.
Com isso, muitos fatos que justificariam maiores reflexões acabam relegados diante da quantidade e diversidade de outros de dimensões mais impactantes.
Daí a explicação para colocar neste espaço a presente observação sobre um acontecimento recente. Um ator da mais poderosa e influente emissora de TV nacional, galã disputado para as novelas de maior audiência, dotado de beleza física que lhe permite desfilar e desfrutar das mais cobiçadas companhias femininas, de muito boa formação familiar e escolar, bem financeiramente e, pelo que consta, com saúde compatível aos seus 37 anos, se entrega ao mundo das drogas de forma descontrolada. E tem que vir publicamente anunciar que deixa um dos principais papéis de uma novela em andamento porque não tem condições de atuar.
Mesmo que tenha sido capa da principal revista semanal, a repercussão não foi das maiores. Parece que consideramos natural uma celebridade envolvida com drogas. Quando se comenta o assunto nos mais diferentes ambientes quase sempre ouvimos a expressão: logo ele, que tem tudo.
E aí vem mais uma aberração e distorção dos complicados tempos do hoje: o conceito de tudo. Afinal, o que é tudo? Beleza física, riqueza, fama, influência, conquistas descartáveis? Ter acesso e uso do que se quer, do que se deseja, do que está na moda? Não ter limites para desfrutar seja lá do que for? Não saber o valor das coisas, apenas o preço? Ver o mundo só como seu?
E aí talvez o grande aprendizado que possamos tirar deste fato lamentável, porque se tudo é isso que se apregoa por aí, na realidade, o que as pessoas buscam avidamente para estarem bem é muito pouco. Nada disso que tantas vezes invejamos nos outros, principalmente naqueles que a mídia promove.
E tanta gente que considera que não tem nada vive bem melhor do que aqueles que julgamos ter tudo. Fica a constatação que é mais um paradoxo dos tempos modernos: tudo, muitas vezes, acaba sendo menos do que nada...

Dor é dor e, como tal, provoca sempre a dose de sofrimento proporcional à sua dimensão. Portanto, tem sua equivalência na razão, origem e profundidade de suas raízes. Por isso, toda dor é diferente, única, incomparável na sua individualidade.
Tem dores de diferentes níveis, intensidades, freqüências. E persistência. Dor que passa, que traz alívio logo. Como as dores do aborrecimento, muitas vezes, causadas pela nossa própria ansiedade, pelo nosso egoísmo, pela nossa mania de achar que o nosso ponto de vista é o melhor e nossa indisfarçável pretensão de "donos da verdade". Dores que esquecemos rapidamente. Que pouco tempo depois nem lembramos que passamos por elas.
Tem as dores que a gente, contrariando nossa vontade, acabe causando nos outros. A dor que a gente provoca sem querer, sem perceber, sem ver. Mas que dói exatamente em quem a gente menos quer ver sofrer. E tem a do reprimida de não conseguir evitar que quem a gente ama sofra sem precisar, se machuque sem necessidade.
Tem a dor que comove, que contagia, que é pública e repercute. Que causa indignação e consternação públicas, mas que logo passa diante de outra maior e que fica doendo só para quem está diretamente ligada.
E tem dor que dói e marca. Que ao contrário de outras, aumenta com o tempo ao invés de diminuir. Dor que além de provocar sofrimento, magoa.
E mágoa é como saudade do tempo de criança, nunca diminui, só aumenta. Vai e volta, que nem ferroada de marimbondo, que nem íngua no pescoço.
Corrói e destrói lentamente. Cria dependência e vicia. O indivíduo abandona a direção da sua vida e a entrega ao outro. Refém de uma situação ou fato que ela não consegue administrar, apagar, virar a página. Veneno que o próprio paciente vai tomando pensando que é remédio.
Tem a dor solitária, triste e sofrida. Calada, muda, que vai matando aos poucos, retirando a alegria de viver, principalmente quando ainda é alimentada por algum sentimento qualquer de culpa, de omissão, de desatenção.
E tem a dor que nem é diretamente na gente, mas como quem a sente é muito ligada na gente, tem um pouco de dor da gente.
A dor do outro que dói na gente. A dor que não é bem nossa, pelo menos não diretamente, mas que sentimos. De uma forma e intensidade diferente, mas sentimos. A dor dolorida, de ver quem a gente gosta sofrendo desesperadamente uma dor que não tem fim. A dor do silencio e da torcida.
De não ter o que falar, mas uma vontade enorme de ver tudo melhorar. A dor doída de não poder fazer nada. A dor de não poder ajudar. A dor de ser inútil. A dor de querer ser mais, de fazer mais, de poder mais. A dor de não poder apagar a dor. A dor de saber que tem dor que nunca vai passar.

Sei que não existe esta palavra, porque tive o cuidado de procurar no dicionário e não a encontrei. Mesmo assim insisti em escrevê-la, porque a considero cada vez mais necessária em nosso vocabulário.
Vivemos um mundo em que as pessoas estão ávidas por conhecimento como base para seu crescimento pessoal e profissional. Tem curso para tudo e para todos. E realmente faz todo sentido que o ser humano complemente sua formação, buscando o desenvolvimento nas áreas em que é menos qualificado ou onde necessita um grau de especialização maior. Neste mundo altamente competitivo e de constantes e extraordinárias mutações, a velocidade em aprimorar o lado intelectual é fundamental.
Onde então entra o “humildecer”?
Para mim, entra como uma necessidade cada vez mais crucial na vida de muitas pessoas. Porque está crescendo, e como, a quantidade daquelas que, nessa volúpia de aumentar sua bagagem de qualificações, têm a equivocada atitude de imaginar que, pelo fato de adquirirem um pouco mais de conhecimento, se tornam naturalmente superiores às outras. E o pior é que alastram isso pelo seu círculo de relacionamento. Disseminam não o acesso ao aprendizado que tiveram, mas a arrogância de egos que não conseguem evoluir na mesma escala da ascensão de suas trajetórias profissionais.
Pessoas que estão necessitando de um outro tipo de curso. E de o propagarem pelo seu círculo de convivência. Um curso para aprender a ser mais humilde, ser menos arrogante, ser mais simples, de baixar a bola. De especialização em ser gente igualzinha as outras. Isto se conseguirem melhorar bem...
Que a merecida escalada de uma carreira profissionalmente desgastante e sacrificada não elimina a atenção idêntica que tem de ser dada com relação ao seu comportamento, às suas atitudes, ao seu jeito de ser. Até pelo contrário, que reconhecem que o fato de alcançar posições de maior relevância as coloca num nível de destaque em que tudo que fazem tem uma repercussão muito maior pelo exemplo em que se transformaram.
E que as parceiras deles nessa jornada, que tanto contribuem para seus sucessos e, portanto, altamente merecedores de compartilhar dele, estão igualmente compromissadas em terem comportamentos que os referenda e não os desgaste.
Que da mesma forma com que levam para casa, com tanto orgulho, tudo aquilo que os promove, recompensa e os destaca, possam também levar a prudente recomendação de conhecer um pouco mais essa palavra que não existe, mas deveria: humildecer!

Não é fácil, mas estamos precisando de rever um hábito costumeiro e, geralmente, bastante destrutivo da vida moderna: a comparação.
A todo momento, em todo lugar, situação e circunstância, tudo é motivo de comparação. A toda hora, todo mundo está comparando tudo. E, certamente, está aí a origem de tanta frustração, tanta infelicidade, tanta insatisfação e revolta. Porque ao olhar para o outro e não para si, a pessoa está sempre buscando aquilo que não tem, não se satisfazendo com o que conquistou ou conseguiu.
E nunca vai estar em paz, bem e feliz porque não é da sua vida que ela cuida, mas da dos outros.
Se a referência fosse com relação a quem tem menos, passa mais aperto ou sufoco, é menos aquinhoada em determinados atributos e requisitos, talvez até que não fosse de todo ruim, porque poderia surgir em escala maior a gratidão do que a reclamação, a satisfação do que a lamúria, o reconhecimento do que a insatisfação. Mas a questão é que o comparativo é sempre com momentaneamente tem mais ou está em maior evidência.
Ao comparar com o outro, a pessoa acaba dedicando muito mais atenção ao outro do que a si própria e, por isso, passa muitas vezes a ser especialista em terceiros e ignorante em relação a si mesma.
Falta, a quem tem esse tipo de comportamento, reconhecer-se como indivíduo, portanto, único, próprio, com características, peculiaridades que o tornam singular. Para ir ao popular, como li certa vez esta inteligente frase estampada no pára-choque de um caminhão boiadeiro: não sou melhor, nem pior, apenas diferente.
Assim, cada um é único e como tal deve dedicar muito mais atenção em cuidar de si para que seus atos e suas atitudes reflitam o seu jeito, não obediência a estilos e regras, momentaneamente, ditadas pelas suscetibilidades sociais. Do contrário, essa pessoa nunca é realmente ela, mas uma somatória daquilo que inveja nos outros. Deixa de ser original, para se transformar em mais uma cópia, um sósia, uma imitação.
Falta a ela a coragem de assumir que, se nasceu para ser alguém, porque não ser ela própria? Com isto, temos mais um paradoxo dos tempos atuais desse mundo cada vez mais comparativo: original é quem consegue, com autenticidade, ser uma reprodução de si mesmo.
* O livro "Quando o assunto é gente", do cronista Celso Machado, está a venda na livraria Nobel por R$ 32.