
Como não sou bidu, não sabia que o meu colega Osmar me convidaria para trabalhar na Secretaria da Agricultura da então capital federal. Continuei, pois, a levar a minha boa vidinha em Porto Velho. O porto poderia ser velho, mas a cidade era jovem e gostosa. Serviço havia, mas não era muito. Verba não faltava, porém, quase tudo vinha do Rio de Janeiro. E tinha que ser por via aquática ou gasosa. Os categas só aeroportavam em Porto Velho, já que viajavam por via gasosa, como destacava a coluna social do “Alto Madeira”.
Certa vez, o meu chefe foi ao Rio, por via gasosa, a fim de comprar implementos agrícolas. Fê-lo na Mesbla, que tinha o maior estoque de tais mercadorias. Feita a compra e paga a nota, o vendedor perguntou ao Gilton se ele queria receber a comissão em dinheiro ou em cheque. Como estava possuído pelo Espírito Esaviano, recusou a oferta. Quando ele me contou aquele fato, eu o chamei de burro e lhe disse: “É claro que o vendedor embolsou aquele dinheiro.”
Meu maior divertimento era namorar, como, de resto, foi o esporte que mais pratiquei. Pena não ter feito menino em cada uma das queridinhas que tive. Na minha Xeirinha nem pensar. Mas com ela me diverti muito, principalmente nos bailes. Bom pra daná foi o carnaval. Dancei até frevo. Tanto saçaricamos juntos, que até perdi o anel dela. De vez em quando, o conjunto musical, composto por rapazes nordestinos, tocava “Eu vou me casar no Tabuleiro de Areia, areia, areia, areia. No Tabuleiro de Areia qualquer um pode casar”. Era quando eu a arrochava mais e perguntava a ela: “Vamos nos casar no Tabuleiro de Areia?”. Ela me fitava ternamente e dizia sim com um aceno da linda cabecinha.
*cultura@correiodeuberlandia.com.br

Tenho dois pedidos a fazer ao prefeito Odelmo. Foi de indústria que deixei para fazê-los depois da tal jornada cívica. Somente no fim deste texto é que revelarei o que pretendo do Homem com agá maiúsculo. Ele merece. É empreendedor e, quando diz “vou fazer”, faz mesmo. Tem a ajuda das esferas estaduais e federais. É que já mostrou muito serviço e tem prestígio. É justo aplaudir o deputado federal Gilmar Machado. É daquele jeito que deve agir um político ficha limpa, legítimo representante do povo que o elegeu. Ele teve a rara virtude de colocar o interesse desta cidade acima do seu partido. “Palmas para ele, auditório!”
Certa vez, faz tempo, um diretor do Dmae não gostou da ferroada que dei naquele órgão, por meio do “Primeira Hora”. É que havia um “corguinho” perene na sarjeta bem em frente à nossa casa. Se fosse vazamento, que fosse estancado; se fosse mina, seria o caso de aquela água ser captada e jogada na rede hidráulica da cidade, afinal o Dmae estava a pedir ao povo economia até de gotas d’água.
Volto agora à sarjeta para pedir ao prefeito que mande tapar os buraquinhos que ela tem, os quais viram poças. Neles caem as folhas das oitis, que ali apodrecem e fedem pra dedéu. Daí resulta o que mais deploro: a varredura da sarjeta pelo precioso líquido tão bem tratado pela Dmae.
O outro pedido: dar à ponte, ora em construção perto do Vau, o nome do Cícero Diniz. Duvido que alguém tenha amado e mais tenha feito por Uberlândia do que ele. E sempre seus ônus para a Prefeitura, além de total desprendimento. Com aquela justa homenagem, o Uberabinha vai ficar orgulhoso e contente por contar com as eternas presenças dos mais notáveis Cíceros, filhos desta cidade que tanto amaram e dignificaram.

A nossa roça era animada. É que ela era ainda quase isolada da cidade e as propriedades rurais não passavam de sítios ou fazendas pequenas. Havia, pois, muita gente por lá. Daí, o agito que sempre acontecia em bailes e brincadeiras dançantes, principalmente nas casas que tinham moças. Ao som de violão, cavaquinho e sanfona, a turma se esbaldava.
Tivemos até um time de futebol na Ortiga, o Coqueiro Futebol Clube. A princípio batia-se bola no vasto terreiro de secar café, bem em frente ao nosso casarão. Chegamos à conclusão de que deveríamos ter um campo. Este foi construído num pastinho quase plano da nossa fazendinha, o qual foi palco de importantes jogos. Nos treinos, quando não havia jogadores suficientes, ele acontecia na base do ataque contra a defesa, numa das metades do campo, tal qual o jogo do Brasil contra a Bolívia, no Engenhão, no dia 10 de setembro de 2008. Nossos craques até que se esforçavam para romper a muralha boliviana. Não conseguiram. Aquele zero a zero foi justo.
O empate teve dois sabores: o de vitória para os bolivianos e de derrota para os brasileiros. A Bolívia foi sabida e previdente. Diante do que viu acontecer com o Chile, falou: “Epa, vou tirar o meu do rumo!” Tirou. Não deixou sequer vaselina por perto. A seleção brasileira nada pôde fazer. Faltou-lhe principalmente pontaria. Não posso deixar de aplaudir os bolivianos. A galera brasileira ainda está chiando.
Então, o que tenho a fazer é terminar esta parola futebolística com a seguinte peruada: “Cartolas da CBF, entreguem a seleção ao técnico Luxa. É o mais competente. Tenho certeza de que vai enxertar a seleção com os dois cracaços de sua preferência, o Piorra e o Carvalho. Ao incentivá-los, aos gritos, lá da área técnica, é certo que os demais jogadores do time serão também estimulados”.
Nota do Autor: O apelido do Piorra é “Esperma” e o do Carvalho é “Pênis”.

Comecei a me familiarizar com telefone na Sotreq, no Rio de Janeiro. Quando aqui cheguei, em 1948, a Teixeirinha já era bem avançada: a gente, com muita paciência, podia até fazer interurbanos. Certa vez, em Avatinguara, em companhia do Peixotinho, pretendemos falar com Uberlândia. A telefonista, uma morena boazuda de cabelos compridos, pôs-se a girar freneticamente a manivela do aparelho e a gritar: “Ô, Oberlândia! Ô, Oberlândia! Atende, Oberlândia!” Neca de Uberlândia atender. Ela insistia, aos berros: “Ô, Oberlândia! Responde, Oberlândia! Ô, Oberlândia fedaputa!” Quanta grossura! Que diferença das moças do Rio!
Transformei o quarto 307 do Hotel Colombo em “esquartório” e ali instalei o telefone 1307 adquirido da Teixeirinha, por intermédio do Durval e do Moacir, filhos do Tito Teixeira, dono daquela empresa. Algum tempo depois, já operada pela CTBC, ele passou para 4–1307. Anos mais tarde, recebeu o número 3234-2573 e, hoje, é o que está na Lista SABE.
Como era bom atender às ligações das namoradas, no quarto, tão à vontade quanto Adão no Paraíso. Uma era eurodescendente; a outra, afrodescendente. Esta rendeu bons dividendos transacionais.
Tenho estado agora com raiva do meu telefone. O aparelho pára de tocar rapidamente. Foi daí que tentei falar com a CTBC. Desisti. Detesto falar com “seres eletrônicos”. Gosto de me entender com humanos. Liguei, pois, para um dos seres humanos dos mais humanos que conheço, o Celso Machado, um dos maiorais do Grupo Algar. Funcionou. No dia seguinte, o Lázaro, atencioso e gentil funcionário da CTBC, me ligou e me disse, em resumo, que se tratava de assunto da Central.
Diante daquela realidade, só me resta pedir à Central que arranje um doutor urologista eletrônico capaz de livrar meu telefone daquela abominável ejaculação precoce.

É pra me gabar: jamais pedi a jornal ou revista para me publicar. Comecei na revista “Seiva” dos estudantes de Viçosa, a convite dos colegas que estavam para lançá-la. Em seu segundo número, este modesto escrevinhador era o diretor daquela revista, a qual publicou, em seu primeiro número, uma crônica de minha autoria, fato que se deu em agosto de 1940. Nela permaneci até virar engenheiro agrônomo como diretor, redator, revisor...
Já na tal vida prática, fui convidado pelo fabuloso engenheiro agrônomo Antônio Secundino de São José, meu ex-professor de Genética, para mandar meus escritos para o jornal “Agroceres”. Nele permaneci durante 20 anos.
Nesta cidade, comecei em “O Triângulo”, a convite do Ivan Santos, logo que ele assumiu a editoria daquele jornal no lugar do Marçal Costa. Levou-me dali para “A Tribuna”. Estive no “Primeira Hora”, fundado pelo Zaire, cuja finalidade era fazer a propaganda daquele candidato a prefeito de Uberlândia. Nele um talentoso menino chamado Maurício Ricardo encontrou tecnologia para publicar suas apreciadas tirinhas.
Antes de 1988, o CORREIO de Uberlândia era um “diário” que não circulava todos os santos dias. Certamente com apoio da diretoria, o Ivan lançou “O Domingo”, isto é, a edição dominical do CORREIO de Uberlândia. Para lá me chamou. E, num domingo de outubro de 1988, foi publicado “O desconfiômetro”, no qual eu recomendei um para o Newton Cardoso com um plugue anal bem grosso.
E assim, durante 20 anos, os leitores deste jornal me aturam sem falhar sequer uma semana. Pulando de jornal em jornal, jamais saí da sombra amiga do Ivan Santos, um jornalista de mão-cheia, um extraordinário cabra da peste das Alagoas.
Nota do editor:
Torço para que chegue a sexta-feira. Assim, tenho o prazer de passar os olhos pelas suas palavras. Seu Clarimundo, você é o cara! Obrigado por iluminar as páginas do CORREIO. E um outro obrigado ao seu Ivan Santos pelas aulas diárias de jornalismo.
Jorge Alexandre Araújo