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28-11-2008


A História Invade a Cena



Textos de pessoas que amam a Arte; sejam eles espectadores, leitores ou profissionais. Essa é a proposta do livro que inaugura a série “A História Invade a Cena”, da coleção Teatro, dirigida por Fernando Peixoto, da editora Hucitec. O livro é também resultado de estudos feitos desde o início da década de 1990 no Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), coordenado pela professora Rosangela Patriota juntamente com o professor Alcides Freire Ramos, que, com Fernando Peixoto, organizaram esta obra.

Articulando o ofício do historiador às linguagens artísticas, os 12 ensaios dialogam especificamente com a questão cênica, refletindo acerca da relevância social, cultural e política que o teatro pode trazer à guisa de contribuição à pesquisa histórica.

Todos os textos se destacam pela qualidade das pesquisas, o que não chega a ser surpreendente, haja vista que nomes de inquestionável colaboração aos estudos culturais, como Sandra Jatahy Pesavento, assinam a autoria dos artigos e contribuem para a compreensão das interlocuções entre arte e sociedade.

A edição conta com dois textos do ator, diretor e escritor Fernando Peixoto, escritos na década de 1970, mas que nem por isso são menos atuais e significativos para se pensar sobre as possibilidades de diálogo entre cultura e democracia. Em “Por uma cultura crítica e democrática”, ele afirma que o teatro é um vigoroso instrumento, capaz de problematizar a consciência do espectador, mas precisa elaborar condições ideológicas e materiais que visem a ampliar o diálogo sociopolítico, se quiser ocupar espaço como instrumento de análise da realidade objetiva.  Sempre levando em conta que o palco não é substitutivo da realidade, mas uma expressão artística.

Na seqüência, a obra traz ensaios de Rosangela Patriota e Alcides Freire Ramos, tangendo proposições teóricas e metodológicas sobre o trabalho interdisciplinar. De forma elegante e competente, a professora Rosangela Patriota deixa evidente que o diálogo entre teatro e história se faz com o objetivo de a primeira emprestar ao teatro a sua singularidade interpretativa, concomitantemente ao teatro caberá conceder ao historiador a ousadia do possível no seu contato com a ficção. Não menos preciso, o professor Alcides se utiliza da compreensão da obra de Fernando Peixoto para demonstrar como diferentes linguagens (teatro, cinema e televisão) se entrelaçam ao longo do processo histórico estudado.

O livro ainda traz escritos de Rodrigo de Freitas Costa, Maria Abadia Cardoso e Christian Alves Martins, Dolores Puga Alves de Sousa, Syrlei Cristina de Oliveira e Silvana Assis de Freitas Pitillo, refletindo entre História e Dramaturgia; além de contribuições de Kátia Eliane Barbosa e Nádia Cristina Ribeiro dialogando sobre questões cênicas, Pedro Caldas, que incursionou pela obra de Nelson Rodrigues, e Sandra Jatahy Pesavento com um ensaio sobre a cena teatral do século 19 do Rio de Janeiro e de Paris.

É uma leitura obrigatória para estudiosos e pesquisadores da arte. Pela riqueza de informações, clareza e objetividade, que torna a leitura agradável e leve, é uma ótima opção para leitores em geral. Sofisticado, com nada além do essencial.

Serviço:
“A História Invade a Cena”, organizado por Alcides Freire Ramos, Fernando Peixoto e Rosangela Patriota. Editora Hucitec, 361 págs. R$ 43. Onde adquirir: site da Hucitec (www.hucitec.com.br) e Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br). Em Uberlândia: livraria da Edufu (campus Santa Mônica) e no Nehac (bloco 1H, campus Santa Mônica).


*Thaís de Sousa Corsino
Graduanda em História pela Universidade Federal de Uberlândia, bolsista do Programa Institucional de Bolsas do Ensino de Graduação (Pibeg-UFU) e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac).

*elianealvesleal@hotmail.com





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21-11-2008


Prender-se na "Teia"!?



Poucos sabem, talvez alguns críticos literários e uns leitores dispersos no País. Mas são poucos, infelizmente. Poucos sabem que neste mês faz uma década da morte da poetisa paulista Orides Fontela, morta em 2 de novembro de 1998. Apesar das releituras realizadas em sua obra atualmente e do seu reconhecimento paulatino, ela ainda é um nome pouco citado pelo grande público. E o restrito público leitor (ainda mais de poesia!) centrou-se neste ano nas comemorações do centenário de morte de Machado de Assis e o de nascimento de Guimarães Rosa, o que ocasiona o esquecimento de importantes escritores que são relegados ao ostracismo, à poeira das estantes abarrotadas com a bandalheira literária contemporânea. Cultiva-se um cânone, mas privilegiam-se apenas alguns nomes e algumas obras. Apesar de tudo isso, podemos contornar a situação: façamos nós a justiça, com a simples leitura da poesia de Orides Fontela.

Nascida em 21 de abril de 1940, no interior de São Paulo, São João da Boa Vista, Orides estudou Filosofia na USP e trabalhou como professora e bibliotecária; teve uma situação financeira muito difícil durante a vida. De personalidade quase intratável, nunca a reter hostilidades e opiniões incisivas, conviveu com desavenças e brigas de diversas naturezas e períodos de reclusão e depressão. Faleceu num sanatório em Campos do Jordão, na miséria e, se não fosse a ajuda de um médico, Orides teria sido enterrada como indigente.

De sua curta obra, apenas seis títulos (“Transposição”, “Helianto”, “Alba”, “Rosácea”, “Trevo” e “Teia”), devo aqui sublinhar, para quem desconhece a poetisa, a relevância de “Teia”, seu último trabalho publicado dois anos antes de sua morte, em 1996. Este é um livro que permite constatar a importância da poesia de Orides para a literatura brasileira no século 20.

Em “Teia”, como Aracna do mito grego transformada em aranha por Atena, Orides Fontela tece sua teia-poesia, também “arma, armadilha”, para prender todo aquele que se enveredar em sua leitura. Uma característica marcante de sua obra é a concisão, seus versos são sintéticos e densos, o que faz de sua poesia um trabalho artesanal com a palavra, com zelo e com acurado conhecimento ao tratar da complexidade da vida e do ser humano com singelas e poucas palavras. Da tradição epigramática clássica aos propósitos formais modernos, seu verso é livre e preciso, não verborrágico que choraminga dispensáveis sentimentalismos. Mas sua técnica, próxima da de João Cabral, é um ofício artístico, que se atém ao trabalho, mas também “a beleza e seu/além”, “o fim o infinito/o mesmo”. Assim, a poetisa conjuga, com magistral labor, suas tendências e peculiaridades, tecendo um verso ora profundo, abstrato, ora claro e clarividente. Com epígrafe de Spinoza, Orides reafirma, com sua teia-poesia, que “todas as grandes/coisas/são difíceis/e raras”.   

Admirada por nomes de relevo, já foi referida por Antônio Cândido que lhe versou as seguintes palavras sobre os versos dela: “Denso, breve, fulgurante, o seu verso é rico e quase inesgotável, convidando o leitor a voltar diversas vezes, a procurar novas dimensões e várias possibilidades de sentido”; assim, seu verso é plausível de diversas interpretações, pois “Sempre é melhor/desfazer/que tecer”. Na difícil definição de poesia, questão ainda mais complicada por tratar-se restritamente da poesia de Orides, Marilena Chauí, no prefácio de “Teia”, expressa que a poesia de Orides “é palavra pensante e pensamento falante”, o que denota na sua obra tanto o caráter de acepções abstratas, quanto de constatações concretas da vida cotidiana, muitas vezes tratada com um olhar crítico, pois escreveu Orides, também “Falo do que impede/o sono.”.
Indagações sobre a questão humana; questionamentos de ordem material ou não; suas experiências subjetivas e exteriores; seus pássaros; o racionalismo humano em oposição com a liberdade de pensamento (expresso na contradição entre asa e cérebro no poema Vôo); a constância da imagem do sangue; seu pessimismo e sua angústia interna; as menções eruditas e mitológicas; a refinada crítica do mundo que a cerca; o silêncio e a vagueza são elementos que se fundem e constituem seu sóbrio e encantador verso. São com tais fios que Orides arma sua teia, que com certeza apanhará todo aquele que se inclinar na leitura de sua obra. “O que é impalpável/mas/pesa//o que é sem rosto/mas/fere//o que é invisível/mas/dói” (Adivinha), este é um poema que expressa a grandeza da obra de Orides e suas pretensões (“o duro/impuro/labor: construir-se”, seu esforço de “construir/a casa/construir o/canto”, sua poesia e sua teia) e que, principalmente, a coloca no nível dos grandes poetas, digna do reconhecimento de todos nós brasileiros por possuirmos tal poetisa no rol de nossos literatos.

Prender-se na Teia? Sim, é aconselhável. Não tema o risco, não há riscos. Aliás, só há um único risco, que é inevitável, que é o de não querer, depois de lê-la, desprender-se, da inegável beleza poética da obra de Orides Fontela. Arisque-se, pois “no/ fundo/a aranha espera”. Boa leitura!

 Alexandre Augusto Fernandes da Silva
Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia. alexandrehist@hotmail.com





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14-11-2008


“A poesia prevalece”



Ana Carolina de Araújo e Silva *
Talitta Tatiane Martins Freitas **

Engana-se quem imagina que a magia do circo seja reservada somente às crianças. Este espaço lúdico e prazeroso que há anos vem encantando gerações independe de idade, credo ou posição social. Agora imagine unir em um único espaço música, poesia, teatro e circo. O resultado é um delicioso espetáculo que deixa todos extasiados diante das canções e números performáticos.
O nome não poderia ser mais propício: “O Teatro Mágico”. E em nome dessa magia – inerente aos palcos, onde tudo se torna possível –, a trupe resgata a musicalidade e o gosto pela experimentação de estilos e ritmos. Neste ano, sobram motivos para comemorar. Além de completar cinco anos, o grupo lança seu novo CD “O Segundo Ato”, uma produção independente que, tal como o primeiro, está sendo vendido a preços populares e disponível gratuitamente para download no site www.oteatromagico.mus.br.
Se somente ouvir as canções já proporciona um prazer sem igual, vê-los pessoalmente se mostra uma experiência única, indispensável tanto àqueles que já conheceram o trabalho anterior, “Entrada para raros”, quanto àqueles que ainda não tiveram esta oportunidade. Por isso, a noite desta sexta-feira tem tudo para ser um sucesso.
O grupo “O Teatro Mágico” se apresenta hoje em Uberlândia, a partir das 22h na Acrópole.
Recorde absoluto de público, a trupe (que tem à frente Fernando Anitelli) já se apresentou em diversas cidades brasileiras, sempre misturando música, prosa, poesia... em um sarau onde a platéia não é um mero espectador: é um elemento vivo e atuante — um verdadeiro espetáculo à parte. E não é para menos. Grande parte desse sucesso se deu graças à criação de comunidades em sites de relacionamento, bem como à publicação de dezenas de vídeos na internet feitos pelos fãs.
O volume dessas informações ultrapassa 2 mil vídeos, com cerca de 120 mil acessos diários. O alcance do seu sucesso é algo que surpreende a todos, visto que “O Teatro Mágico” é um grupo totalmente independente que, apesar de não possuir gravadora, conseguiu vender mais de 65 mil cópias do primeiro CD (fabricadas em casa, pelos próprios integrantes).
Assim, é com esta proposta instigante que Anitelli e sua trupe conseguem integrar o palco e a platéia em uma perfeita comunhão — e com certeza, a noite de hoje no Acrópole não será diferente. Como sempre, o público tem a oportunidade de interagir com o espetáculo, recitando poesias, participando de brincadeiras... Aliás, é possível perceber que grande parte dos fãs segue o estilo da banda, indo aos shows com as mesmas roupas coloridas e os rostos caracterizados de palhaço.
Como em uma brincadeira, “O Teatro Mágico” faz de um simples jogo de palavras poesia para suas músicas. Porém não se enganem! A sofisticação dessa mistura ímpar de instrumentos, sons e ritmos, resulta em um espetáculo que tomou proporções inimagináveis pelos seus integrantes e que, com certeza, surpreenderá até os mais céticos.
Vale a pena conferir de perto este show, onde a poesia sempre prevalece!

* Graduanda do curso de História pela Universidade Federal de Uberlândia. Bolsista Pibeg, sob orientação da profª drª Rosangela Patriota e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac). E-mail: carolzita.ufu@gmail.com.

** Mestranda do curso de História pela Universidade Federal de Uberlândia. Bolsista Capes, sob orientação da profª drª Rosangela Patriota e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac). E-mail: talittatmf@gmail.com.





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07-11-2008


A história e os seus heróis silenciosos



Na terça-feira teve início em Berlim, Alemanha, uma exposição que celebra a memória dos “heróis silenciosos”, pessoas que ajudaram, de alguma forma, judeus a escapar da perseguição nazista durante o Holocausto entre 1933 e 1945. A exposição traz fotos, cartas, depoimentos e outros documentos de cerca de 20 mil não judeus que arriscaram suas vidas para ajudar judeus em um momento desesperador.

Johannes Tuchel, diretor de uma organização que cuida de memoriais à resistência contra o nazismo, ressaltou a importância da exposição de caráter permanente: “Existem muitos memoriais às vítimas do nazismo, mas nunca houve um dedicado exclusivamente a esses heróis”. Já André Schmitz, responsável pela cultura na cidade de Berlim, destacou a importância simbólica do local escolhido para abrigar a exposição: "Fica a alguns passos de distância da antiga fábrica de pincéis onde o ativista antinazista Otto Weidt infringiu a lei ao dar a judeus cegos e surdos abrigo e oportunidade de trabalho durante o governo de Hitler", disse ele ao jornal “Berliner Zeitung”.

Em diversas películas cinematográficas nos deparamos com estes “heróis silenciosos”, representantes de uma resistência incessante. O caso mais emblemático é o de Oskar Schindler, cuja história inspirou o filme “A Lista de Schindler” (Steven Spilberg, 1993), premiado com o Oscar de melhor filme, que retrata a história da “humanidade” de um empresário que empregou mais de 1,1 mil judeus em sua fábrica, ajudando a salvá-los da deportação para o campo de concentração. Referências mais sutis são encontradas em outros filmes, como no caso da família que abrigou o pianista judeu vivido por Adrien Brody em “O Pianista” (Roman Polanski, 2002). 

Em meio aos inúmeros memoriais que homenageiam os milhões de judeus mortos nos campos de concentração e extermínio nazistas, que cumprem uma dupla função tanto de homenagear os mortos quanto de recordar os vivos da capacidade destrutiva do homem, a exposição “Heróis Silenciosos” realiza uma justa homenagem a pessoas que arriscaram posições étnica e economicamente “confortáveis” em prol de ideais de solidariedade e da rejeição do nível asqueroso a que chegou a condição humana.

Este acontecimento revela a necessidade da sociedade presente de “cuidar” de seus mortos; bem como da história promover sua redenção. No entanto, mais importante do que celebrar e fazer justiça à memória dessas pessoas, é cultuar na prática cotidiana de cada um de nós o exemplo de dignidade e coragem por eles legados “silenciosamente”. 

* André Luis Bertelli Duarte
andrebduarte@gmail.com -  Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac).





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