
Diariamente enganamos e somos enganados. Mas, como se houvesse um pacto de silêncio, nem o consumidor de notícias denuncia o emissor, nem o emissor reconhece que está enganando o consumidor.
E olha que já vai longe o tempo em que não se distinguia informação de opinião, não se sabia onde terminava a redação e onde começava o departamento comercial. Avançamos muito. Já escrevemos "Informe Publicitário" para dizer que não se trata de notícia, mas de propaganda.
Já publicamos a notícia positiva sobre o inimigo do dono do jornal ou da revista e, lá dentro, no editorial, espinaframos com ele. É, aprendemos a separar as coisas. Já abrimos espaço para o direito de resposta. Um espacinho raquítico, mas, pelo menos ele existe. Vez por outra até reconhecemos que erramos, e nos corrigimos. Acredite: estamos nos tornando civilizados.
Nos cortes das entrevistas de TV, hoje usamos um flash. Resolveu? Será que o respeitável público sabe que aquela piscada significa que ali houve a intervenção do editor? Talvez não. Mas já é um avanço.
Vamos começar pelos impressos. Aposto que, se for feita uma pesquisa, raríssimos serão os leitores que conseguirão traduzir a expressão "Da Redação". Provavelmente dirão que é texto escrito por algum jornalista do jornal ou da revista que não quis se identificar. Poucos imaginarão que se trata de uma notícia que da redação não tem nadica de nada. Desinformado, o público leitor jamais suspeitará que, muitas vezes, a notícia "Da Redação" que está lendo é a transcrição que uma agência de notícias despejou via internet ou de uma assessoria de imprensa. A prática lembra aquelas mulheres que botam um balde de silicone nos peitos e se orgulham de dizer: "São meus. Paguei uma baba por eles."
Nos veículos audiovisuais o truque é feito, digamos, com mais "catiguría", mas a desfaçatez é a mesma. Em pouquíssimos casos, as matérias dos correspondentes internacionais resultam de produção própria. Na maioria das vezes, resultam da "cozinha" do material recebido de agências internacionais. Só que as emissoras de TV não revelam isso, não dão crédito a quem as produziram nem naquelas letrinhas que correm lá no final do telejornal.
Outra enganação frequente e pouco percebida é a da conversão da enquete em pesquisa. É comum um repórter ouvir três ou quatro pessoas sobre qualquer tema e depois afirmar, como se fosse a verdade mais absoluta, que a população está a favor disso ou daquilo. Base científica para fazer tal afirmação? Nenhuma.
O que não falta é chão para andar quando se trata de ser transparente com nosso leitor, nosso ouvinte, nosso telespectador. Existem veículos e veículos. Como existem padarias e padarias. Convém saber e dar a saber a procedência do pão. E das notícias.

Perguntas e respostas: a televisão generalista, de sinal aberto, tem programação específica para quem gosta de esportes? Tem. Tem programação específica para o público infantil? Tem. Tem programação específica para adolescentes? Tem. E programação específica para donas-de-casa? Tem também. E tem programação específica para idosos? Bem... Não tem. Hebe? Ana Maria Braga? Cid Moreira? São coroas, mas não apresentam programas para coroas.
Os programadores da televisão brasileira ainda não reconhecem o público da chamada "melhor idade" como alvo para produções específicas. Um coroa com mais de 60 anos no Brasil não dispõe, hoje, de nenhum programa de televisão idealizado, criado e desenvolvido especificamente para ele. Na sociedade de consumo, em escala planetária, o que vende é o que carrega valores jovens, e jovem é quem consome. Assim, quase toda a publicidade é alicerçada na cultura, nos ícones e nos valores da juventude. O máximo que se admite é velho com comportamento de jovem, como o comercial da velhinha que passa uma cantada no Marcos Palmeira e diz o que faria se o levasse para casa.
Não existe uma programação televisiva com foco direcionado prioritariamente ao idoso por duas razões. A primeira é que emissora alguma se arrisca a colocar no ar um programa especificamente destinado a esse público porque teme ser carimbada de "televisão de velho" e, com isso, perder a audiência das demais faixas etárias. Em segundo lugar, porque, desde o departamento comercial até a teledramaturgia, os estereótipos apontam para a necessidade de não se mostrar o velho ou, se tiver de mostrá-lo, que se mostre um velho que quer ser jovem, que precisa ser jovem, que não pode jamais "sucumbir" à própria velhice.
Em 1965, quando surgiu a TV Globo, havia 3,3 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil. Em 2.020 a turma com mais de 60 vai chegar aos 27 milhões. Uma turma que adora viajar, se divertir, consumir cultura, arte, entretenimento. Uma fatia de audiência aberta para produtos específicos à sua idade, aos seus anseios.
Vez por outra, a publicidade desperta para esta fatia do mercado. Mas, e quando teremos na TV um programa fixo, deles para eles? Quando teremos a velhinha passando uma cantada... no velhinho!, e não no Marcos Palmeira? Quando teremos a coragem de admitir que um dia chegaremos ou já chegamos lá, como chegaram a Hebe Camargo, a Ana Maria Braga, o Cid Moreira, o Léo Batista? Tal como eles devem pensar hoje, quando chegar àquela idade, vou querer um programa só para mim. Vão pensando aí, porque não demora.

O Millôr tem uma frase ótima: “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Eu me lembrei dela ao avaliar o impacto da postura destemperada do técnico Dunga em relação à imprensa, mais especificamente em relação à Rede Globo, nos episódios que todo o Brasil – e o mundo – acompanharam pelos jornais e pela TV.
Antes de qualquer coisa, jornalismo é fiscalização (e não oposição sistemática, como exagera o Millôr). E fiscalização é prima-irmã da crítica, que incomoda, machuca e, por vezes, revolta. Basta ver como os governos, qualquer um, se comportam diante da imprensa. Lula rasgou-se em elogios à imprensa no impeachment de Collor. Mas, atualmente, ele e sua troupe descem o pau na imprensa, acusando-a de golpista e partidária. Tanto Dunga como Lula precisam entender, de uma vez por todas, que imprensa não existe para elogiar, mas para criticar.
Jornais exibem maior número de notícias ruins do que de notícias boas pela simples razão de que a atividade da imprensa compreende muito mais apontar o dedo para o erro do que bater palmas para o acerto. Até porque acerto, nos governantes, é obrigação. E erro, principalmente quando implica em desperdício ou rapinagem do dinheiro público, é crime e precisa, sim, ser denunciado.
Sim, é malhar em ferro frio, não tem jeito mesmo, porque jamais os detentores do poder – qualquer poder, inclusive o de comandar a seleção canarinho – admitirão como normal a postura crítica da imprensa. Esperam, sempre, que ela destaque o positivo e minimize o negativo. Mas é da nossa natureza, do nosso ofício e de nossa obrigação a denúncia permanente do erro.
Tão logo ocorreu aquele destampatório de palavrões de Dunga contra o jornalista Alex Escobar, choveram e-mails na internet justificando o fato com a informação de que o motivo fora uma negativa de Dunga a um pedido de entrevista exclusiva que Fátima Bernardes teria acertado com o Presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Sem justificar privilégios inaceitáveis que a Rede Globo possa ter tido em outros mundiais, é preciso dizer, também, que jornalistas tentam, vão tentar e se não tentarem é melhor mudarem de profissão - furar todos os bloqueios possíveis para chegar perto da melhor informação.
Se a Globo havia conseguido realizar um acerto com a CBF, não cumprido pelo técnico, restaria à Globo meter a viola no saco e ao técnico manter-se na posição educada de resistir sem partir para a ignorância do palavreado de botequim em final de farra. Jamais direi que por causa disso deu no que deu. Mas que ajudou a dar no que deu, ajudou, sim, e muito. E, se quer saber, Lula, Dunga e seus sucessores precisam saber, sim, que jornalistas existem para pegar nos seus respectivos pés. Para isso existimos. O resto é armazém de secos e molhados.

A tecnologia é impositiva. Dois exemplos rápidos: o celular e o computador. Quando os celulares foram lançados no Brasil houve quem não aceitasse a nova tecnologia. Alegava-se que não passava de uma coleira eletrônica. Podia-se viver sem ele. Em pouco tempo, todo mundo aceitou o celular e hoje é inadmissível não dispor de um. Os aparelhos, que fazem tudo e até falam, se adaptaram aos requisitos da preservação da privacidade, ao exibir o número de quem está ligando. Ainda existem algumas figuras jurássicas que recusam o celular. Mas aí já é maluquice, e com maluco não se discute.
Vamos aos computadores. Conheço um jornalista que não conseguia redigir um texto se antes não fizesse um rascunho à mão, depois copiado para o papel, no baticum da máquina de escrever. Hoje navega pelas páginas da internet e não acredita quando ouve falar que há quem ainda não saiba mexer num computador. A tecnologia é impositiva.
Com a Copa da África do Sul, novamente a tecnologia chega para dinamitar certezas e impor comportamentos. No jogo entre a Argentina e o México o deslize do responsável por apertar os botões do telão do estádio revelou a Deus e ao mundo o impedimento do argentino Tévez. Mas o juiz italiano Roberto Rossetti, do alto de sua autoridade baseada no que achou que viu, validou o gol. Tostão, na coluna que escreve e distribui para vários jornais brasileiros, lembrou que “na Copa de 1966, na vitória da Inglaterra sobre a Alemanha, a bola não entrou, e foi gol. Quarenta e quatro anos depois a bola entrou, e não foi gol”, referindo-se à bola chutada pelos ingleses, que bateu na trave, entrou 33cm e o gol não foi validado. Tostão arrematou: “Não utilizar a tecnologia para lances especiais é um atraso. Bastaria colocar uma TV para o quarto árbitro”.
A conservadora Fifa não aceita a arbitragem eletrônica. Quer dizer: não aceita até ter de aceitar. A situação é a mesma dos que fincaram o pé contra o celular até o aceitarem. Ou aqueles que se orgulhavam de não usar o computador até perceberem que a tecnologia impõe.
O mundo acompanha os jogos em telas de alta definição, com slow-motions que revelam até o formato da raiz da grama arrancada pelas travas das chuteiras, por meio das imagens das dezenas de supercâmeras instaladas nos estádios e mais as câmeras exclusivas das emissoras de TV que cobrem a Copa. Enquanto isso, um pobre e humano juiz só dispõe de duas falíveis “câmeras” (seus olhos) e as de seus auxiliares. A instalação de um chip na bola resolveria metade dos problemas da arbitragem. E a disponibilização das imagens geradas nos estádios para o quarto árbitro conferir e decidir lances duvidosos resolveria o resto. Chegará o dia em que a Fifa descobrirá que tecnologia é um troço legal. E impositivo. É só questão de tempo.