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Ponto de Vista







30-11-2008


Servidores doentes



“Não são poucos os servidores que reclamam da Junta Médica, que sistematicamente tem negado validade a pareceres de especialistas no caso de doenças não aparentes”

O CORREIO noticiou no domingo 23/11 em primeira página dados preocupantes acerca dos 5 mil pedidos de afastamento médico de servidores municipais, notadamente na área de Educação. Gostaria de fazer algumas observações, em primeiro lugar parabenizando a reportagem e o destaque dado por Cézar Honório em sua coluna. Em segundo lugar, aproveitar o momento para criticar o posicionamento de médicos da Prefeitura que, por conta desses números estarrecedores, estão obrigando servidores a trabalhar doentes, apesar de possuírem diagnóstico médico indicando afastamento.

Não são poucos os servidores que reclamam da Junta Médica, que sistematicamente tem negado validade a pareceres de especialistas no caso de doenças não aparentes, como dores na coluna, nos nervos e nos músculos. Não bastasse a indignação, várias servidoras ainda relatam que médicos as humilham insinuando desídia, entre outras injúrias totalmente inadequadas e indevidas. O Conselho Regional de Medicina precisaria ser informado desse acinte, entre tantos outros relatados.

Na medicina, como em qualquer profissão, é comum ocorrerem divergências sobre temas cientificamente controvertidos. Mas médicos negarem deferimento a laudo de outros colegas (alguns notórios especialistas), naquelas circunstâncias, não creio que seja por divergência, mas por conveniência administrativa. Para a Administração, certamente é um prejuízo o afastamento desses milhares de servidores; para os servidores, é um suplício equivalente à tortura se verem obrigados a trabalhar sentindo dores (seja-me permitido indagar a eles o que fariam se fosse a mãe de um deles que se acometesse de lesões musculares, diriam as barbaridades que têm dito a várias servidoras?).

Engana-se, entretanto, quem julga esse conflito do lado das conveniências estatais, pois o direito do servidor equivale aqui à proteção da vida e da liberdade, fundamentos constitucionais superiores e prerrogativas exclusivas dos seres humanos, jamais do Estado, que não passa de poder representativo, sem vontade originária. Em suma, o Estado existe apenas para servir às pessoas, não nós para servirmos ao Estado.

Se existem tantos servidores pedindo afastamento médico por supostas doenças, deviam se buscar suas reais causas e realizar uma reforma radical no modo de tratar essa sofrida categoria, antes de se fazerem ilações indevidas contra servidores estressados e fragilizados com a sobrecarga do exigente serviço público que comporta uma cidade cheia de contrastes.

Por que não permitir que o médico do servidor acompanhe a perícia da Junta, como ocorre em qualquer perícia judicial? Penso que o senhor prefeito, a quem estimo êxito em sua missão — e a quem também não posso reputar a origem dessas deformações, que são mais complexas —, deveria levar em consideração essas observações. Os servidores são a base do sucesso de qualquer governo.

Adir Cláudio Campos
Advogado
Uberlândia

Balde de piche

“Quem com piche picha, com piche será pichado!” (máxima de um delegado do interior)

Cúmulo do absurdo. Um grupo de 40 desordeiros, atuando com desenvoltura de comandos, invadiu um pavilhão do Parque Ibirapuera, no primeiro dia da 28ª Bienal de São Paulo, pichando as paredes com grafismos de supremo mau gosto e  disparates pretensamente políticos. Um deles: “Abaixa (com “a” mesmo) a ditadura”. Integrante desse grupo de contestadores sem causa, uma jovem de 23 anos, estudante universitária, assim “justificou” o amalucado gesto: “É o protesto da arte secreta”. Um comparsa seu, na maior cara de pau, “explicou” que a bagunça, promovida pelo que se ficou sabendo por alunos de Belas Artes, faz parte de um “trabalho de conclusão de curso”, que encerra o nobre objetivo de atestar para o distinto público que “pichação é arte.” A despropositada ação inspirou-me a buscar no baú uma historinha narrada neste mesmo espaço há 10 anos.

O cidadão identifica-se ao telefone como freqüentador assíduo destes escritos. Não contendo a satisfação pelo aumento do número de leitores, exprimo-me de forma um tanto desajeitada: - Você é o 24.

- Mas, como? Reage ele, o tom de voz contrafeito.
Demoro um pouquinho a explicar que, em artigo de dias atrás, andei recenseando 23 leitores pras coisas que escrevo. Com sua adesão, o número está se elevando, naturalmente, a 24.
- Pula o número.
- Como?
- Passa para 25. Nesse negócio de número, sou que nem os ianques: tenho lá minhas superstições. Eles são cismados com o 13. Tanto é que excluem o 13 da numeração de andares e elevadores nos edifícios. A minha cisma é com o 24, tá bem? Foi assim o começo de conversa com o 25º cidadão que se declarou disposto a integrar o meu seleto, inteligente e culto público leitor. Na continuidade do papo ele comenta artigo onde deixei consignado meu inconformismo com relação a atos rotineiros de vandalismo praticados por pichadores, desses que enxameiam e emporcalham as horas soturnas das noites em tudo quanto é canto.

Conta-me que, anos atrás, na cidade do interior onde morava, problemas muito parecidos de vandalismo foram enfrentados e coibidos de forma assaz original. Caso é que o delegado do lugar, depois de campana bem-sucedida, identificou o bando de desocupados que, na calada da noite, enfeiava muros e paredes com garatujos traçados a piche, revelando especial predileção por superfícies recentemente pintadas. Representantes do jornal e da rádio locais, ao lado de outros interessados, foram convidados a conhecer, na Delegacia, os malfeitores. Ficaram sabendo que eram quatro rapazes de famílias bem postas na sociedade. À hora em que os moços entraram na sala, os convidados se deram conta de que todos eles, possuidores de cabeleiras esparramadas ombro abaixo, ostentavam, constrangidos, um penteado pra lá de extravagante. A versão dada pelo delegado, sem maiores questionamentos da platéia, era de que, flagrados em pleno delito, em desabalada carreira, os desordeiros acabaram “tropeçando” no balde de piche, mergulhando, por incrível que pudesse parecer, as cabeças na substância viscosa.

César Vanucci
Jornalista
Belo Horizonte e Uberaba (MG)
cantonius@click21.com.br





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29-11-2008


Nossas tragédias anunciadas



Sou engenheiro e pedagogo e estive em missão de reconhecimento de curso pelo MEC na cidade de Blumenau, em Santa Catarina. Vi de perto a tragédia climática que se abate sobre aquele Estado. Quem duvidava dos efeitos da atual variação do clima sobre o cotidiano das pessoas deve prestar atenção a este fenômeno. Não existem registros de tamanha força destruidora e números pluviométricos tão avassaladores até então no País. É evidente que parte da inspeção in loco ficou adiada por falta de segurança e condições psicofisiológicas de dirigentes, alunos e professores da instituição visitada. E esta é uma tragédia anunciada, que muitos ainda teimam em não querer admitir: o sensível equilíbrio das forças da natureza, que já era caótico, está quebrado e não existem modelos matemáticos que possam prever o que nos espera. As nuvens de chuva que pairam há quatro meses sobre grande parte de Santa Catarina estão fazendo o solo desmanchar mesmo em lugares onde não há ação de desmatamento. Vi morros com mata atlântica intocada descerem sobre estradas e casas. Antes se pensava só em geleiras se desmanchando. Agora teremos de considerar este modelo de serras desmaiando sobre vales e não existem poucos ambientes assim aqui no Brasil.

Gostaria de só tratar dessa tragédia climática, mas uma entrevista da antropóloga Eunice Durham à resvista “Veja” me moveu para outra tragédia nacional, a do ensino. Nossos professores não ensinam porque as escolas de pedagogia nacionais não colocam entre suas prioridades a parte prática, ou seja, o laboratório da sala de aula. Nelas o candidato a professor deveria aprender a executar as técnicas de Piaget (construtivismo, aprender fazendo), Vygotsky (sociointeracionismo, em que o aprendiz aprende interagindo socialmente), Freire (pedagogia crítica, que ensina autonomia), Feurstein (aprendizagem por mediação, do professor) e Morin (pensamento organizador que dá fundamento para planos de aulas, planos de curso, planos pedagógicos institucionais e planos de desenvolvimentos institucionais).

Concordo com a professora Durham quando diz que nossos pedagogos não são ensinados a ensinar, e sim a discutir de forma assembleísta e política, pois isso é que é nobre. Debruçar-se sobre um plano de aula e depois experimentá-lo sob a visão ensinada por esses mestres da pedagogia é algo servil e podre, pois serve ao “sistema”!

O resultado? Milhões de horas de ensino não dadas, por absenteísmo e lero-lero, e outras milhões mal aproveitadas por falta de condições técnicas para ensinar. Já estive em escolas em que mantenedores gastaram milhões de reais com laboratórios e excelentes instalações físicas.

Todavia, quando entrevistei os egressos (desempregados e sem perspectivas), veio a constatação: não enxergaram nada do que estava ali. Chequei os planos de ensino do curso e os planos de aula: nenhuma visita técnica, nem aula prática como previstas no do plano pedagógico da instituição. Pois é, algum pedagogo achou que aquilo era “burguês” demais e jogou milhares de alunos no limbo.

Concluo: precisamos acabar, com urgência, com as nossas tragédias anunciadas, executando planos de ação para, a médio e longo prazos, salvar nosso meio ambiente e reformar a matriz do modelo mental de nossos professores: as escolas de pedagogia.

José Carlos Nunes Barreto
Professor-Doutor
debatef@debatef.com.br

Livros e livros

“Por incrível que possa parecer, é justamente na literatura onde muitos aculturados insistem em ‘fazer dinheiro’”

Não poucas vezes somos alvos de propagandas que nos incitam à leitura de um número maior de livros, o que, na prática, nos faria adquirir uma consciência maior do extraordinário alcance e do poder incalculável contido nas palavras. Mas por incrível que possa parecer, é justamente na literatura onde muitos aculturados insistem em “fazer dinheiro”, ante a possibilidade de multiplicarem as cópias dos seus livros.

Ora! Dante e Petrarca, na Idade Média, talvez não tenham visto senão dois ou três exemplares dos seus escritos. Naquela época, segundo livros de história, redigia-se com sacrifício financeiro, gastando-se energia e tempo com o único ideal de comunicar uma mensagem ao homem. Escritores que viveram naquela época, certamente deveriam possuir outras fontes de renda, que não originada de escrever livros e que pudesse garantir-lhes uma fonte de renda; o importante para eles deveria ser o prazer de escrever e a glória pessoal daí decorrentes (tal e qual acontecia com os parlamentares, cuja grande maioria, a título de pagamento, recebia apenas o ressarcimento de suas despesas enquanto no exercício de suas funções e uma modesta compensação financeira).

Hoje em dia, sabemos, gráficas se multiplicam e editoras — visando a lucros fantásticos — pagam direitos autorais a escritores diversos e financiam edições numerosas para serem vendidas a preços altamente compensadores. E o que se nota é que a conseqüência da verdadeira arte de escrever torna-se em mercadoria, refém e sujeita às leis da oferta e da procura e , ainda, de poderosas manipulações de quem tem o poder de ditar as normas do mercado editorial. Temos visto escritores que se gabam de lançar dois ou três livros a cada ano, porém de qualidade questionável, e editoras, por sua vez, à procura de sucesso financeiro, influindo decisivamente na produção de não poucos títulos, enquanto apelando para modernas e persuasivas campanhas de marketing.

Leitor persistente, entendo que o uso da palavra escrita vem se degenerando. O que antes era praticado por arte ou por ideal segundo elevados critérios, passou a ser exercido (muitas vezes) em função do mercado, atendendo às oscilações desse, que nem sempre condizem com os ditames do bom e do belo. Assim, ratifico, continuam surgindo escritores e editoras que parecem não dispensar a devida atenção ao aspecto sublime e construtivo da arte de produzir boas obras literárias, mas apenas às necessidades comerciais.

Em vista disso, penso, fica claro que o poder econômico vem sufocando a arte da literatura e, mediante a “literatura”, concorrendo para conspurcar a dignidade humana. Tomemos, a título de exemplo, as publicações pornográficas que, com forte apelo de marketing, vendem milhões de dólares a cada ano, mas não conseguem seduzir, sequer, seus próprios editores.
No entanto, chegam a ser publicações inscritas entre os best-sellers até em países tradicionalmente cristãos e o que leva milhares de padres, pastores e outros religiosos a combater — incansavelmente — o lamentável fenômeno da dissolução de famílias inteiras, muitas das quais já penam em função do uso de drogas por algum dos seus membros.

Gustavo Hoffay
Agente Social
Uberlândia (MG)





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28-11-2008


Infelicidade, TV e pescaria



“Estudo recente realizado pela Universidade de Maryland, EUA, comprova que pessoas infelizes ficam mais tempo à frente da televisão”

Quem sou eu para duvidar de pesquisas sérias e com base científica? Mas constatações dessa natureza me levam sempre a um devaneio.

Os tempos atuais, que daqui a pouco já serão versão beta, mudaram radicalmente nosso comportamento. Calma, sei, eu não disse nada de novo. Os perigos mudaram de endereço. Saíram dos quintais e das ruas pacatas de outrora, onde o maior risco era uma queda de muro ou de uma árvore, uma briguinha por causa de um jogo de bete ou pique bandeira, no meu caso, um tombo de carrinho de rolimã nas ladeiras ainda seguras de uma Belo Horizonte que, drumonianamente, virou retrato na parede e estão agora vivendo lado a lado conosco em nossas casas. O mundo virtual transformou-se em campo minado, com grande poder de fogo, ameaça para nossos filhos, atraindo-os para armadilhas por vezes fatais. Paradoxalmente desenvolvemos diariamente mecanismos para patrulhar um mundo autorizado a entrar sem cerimônia em nossas alcovas.

Até o então inocente telefone virou arma de crime, e não estou me referindo às agressões cinematográficas com aqueles aparelhos pretos enormes não, falo de golpes variados praticados com o uso da invenção de Graham Bell. O isolamento familiar aumenta a olhos vistos. Raras as famílias que podem desfrutar de um almoço de domingo juntas. Não que todos não estejam em casa, mas um está no computador, outro, esse deve ser o mais infeliz, vendo televisão.

A prosa doméstica vem diminuindo. Se o filho quer falar com o pai, que mande um e-mail, ou que o adicione ao MSN. Viu as fotos de meu filho? Não? Estão no Orkut. O garoto está crescendo sô, tem tempo que não o vejo off line. Até boletim escolar é virtual e pais só têm acesso se tiverem a senha. Se tiver nota vermelha fica uma semana sem computador ou sem ver televisão. Isso é que é castigo severo. Realmente as janelinhas de plasma, ficam mais tempo abertas do que as da casa, e o sol, a vida de verdade, presos do lado de fora. Também, quem liga?

Levantar da cama e correr para o quintal é coisa do passado na maioria das residências. Abrir as cortinas, deixar os sonhos ou pesadelos saírem e se dissiparem à luz do dia está cada vez mais difícil. Cá pra nós, tem coisa mais estranha do que levantar e ficar de pijama até a hora do almoço? E luz acesa de dia? Mas voltemos à televisão como indicador de infelicidade e por tabela da falta de prosa doméstica. Outro dia, um amigo me contou história que demonstra que os tempos modernos estão contaminando até nós mineiros de alma simples e caipira. O caso:

Dois compadres estão na barra do rio Tijuco pescando, bebendo uma cervejinha gelada e observando com atenção a bóia, quando um deles diz:

- Tonho, vou me separar da minha mulher. Já faz três meses que ela num fala comigo. O outro, após refletir por alguns momentos, lhe diz:

- Pensa bem Zé, hoje em dia é muito difícil achar uma mulher assim, com essas qualidades...

Quanta tristeza. Estes dois devem ver televisão demais da conta.

Resta ainda uma dúvida a ser esclarecida pela tal pesquisa: se a felicidade leva as pessoas a ver menos TV, ou se o tempo em frente à TV leva à infelicidade. Portanto amigos há esperança.

William H. Stutz
Médico veterinário sanitarista   Uberlândia (MG)
whstutz@netsite.com.br

Biodiesel

“Não podemos novamente incorrer no mesmo erro de décadas passadas e abandonar a produção de biodiesel somente porque o custo econômico-financeiro do petróleo é menor do que o custo da fabricação do biodiesel”

Quanto custa não produzir biodiesel? Qual é o custo social e ambiental em não se produzir biodiesel?

Por ocasião da realização do Cobien — Congresso Brasileiro de Agrobioenergia, organizado pela UFU — Universidade Federal de Uberlândia, o Instituto Volta ao Campo (IVC) recebeu, em sua sede, o professor Expedito Parente, pioneiro na fabricação de biodiesel no Brasil, haja vista que em 1980 obteve a primeira patente mundial que lhe garantia esse direito.

Entretanto, o baixo preço dos combustíveis fósseis que vigoraram por muitos anos no País e no mundo inviabilizou o interesse por essa alternativa energética de tal forma que a patente caducou, 10 anos depois, sem ter sido usada.

Não foi apenas o biodiesel praticamente esquecido durante anos. Também o etanol sofreu, pelo mesmo motivo, um grande atraso no programa Proálcool. Uma sociedade que só vê lucros imediatos raciocinava que era muito mais barato refinar e extrair do petróleo os sucedâneos de que necessitava do que produzir biodiesel ou etanol, na ótica dessa mesma sociedade, vale dizer indústrias, econômica e financeiramente inviáveis. Mas aqui se impõe uma pergunta trazida pelo professor Parente em sua visita a Uberlândia e ao IVC: - Quanto custa não produzir biodiesel? Qual é o custo social e ambiental em não se produzir biodiesel?

Não podemos novamente incorrer no mesmo erro de décadas passadas e abandonar a produção de biodiesel somente porque o custo econômico-financeiro do petróleo é menor do que o custo da fabricação do biodiesel.

Há outros custos muito mais importantes como os sociais e ambientais que têm que entrar nos cálculos, não das indústrias, mas das várias instâncias de governo.

Somente em nossa região, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), há 3.590 assentados da reforma agrária e 16.554 agricultores familiares. Se levarmos em consideração a média nacional de quatro pessoas por família, teríamos um total de 80.576 pessoas desonerando os centros urbanos da necessidade de infra-estrutura para abrigá-los, porque, fatalmente, sem oportunidades de trabalho no campo, retornarão às cidades e, o que é pior, quase sempre às suas periferias com todos os problemas daí advindos.

Por outro lado, do ponto de vista ambiental, apenas a redução de emissão de gases poluentes já seria um fator de grande importância na diminuição do efeito estufa.

Assim, a preservação ambiental e a inclusão social de milhões de agricultores familiares mantidos no campo pelas oportunidades de trabalho, renda e restituição da dignidade — como o MDA vem promovendo por meio do Selo “Combustível Social”, vinculado ao Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) — têm um valor inestimável e devem ser levados em conta por quem realmente quer um país rico e justo na distribuição dessa riqueza.

José C. Martelli
Professor e advogado agrarista
Membro do Instituto Volta ao Campo (IVC)





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27-11-2008


Capital solar do Brasil



“O título de capital solar do Brasil ainda é reforçado pelo fato de estarem em BH as instalações do green solar da PUC (MG). Trata-se de laboratórios onde se desenvolvem pesquisas de ponta na área de energia solar”
 
Chama atenção a inclusão de energia solar como atributo do imóvel nos classificados de Belo Horizonte. A explicação é que a disponibilidade de energia solar alavanca a venda de imóveis e já é por lá uma exigência de mercado, tal  o  reconhecimento das vantagens dessa instalação. O emprego de aquecimento solar em Belo Horizonte, em proporções muito acima de qualquer outra cidade brasileira ou da América Latina, é resultado de um trabalho pioneiro da Cemig em divulgação, incentivos e até assistência técnica.

É paradoxal, uma empresa de energia elétrica incentivando o uso da energia solar no lugar daquela que ela tem à venda. O motivo é o elevado consumo de energia em aquecimento para banho, entre 17h e 21h. Neste intervalo, chamado horário de ponta, a energia é mais cara e em muitos casos indisponível. A demanda de ponta define as necessidades de investimento em geração, transmissão e distribuição. Cada chuveiro elétrico ligado neste horário (média de 5 kW na meia estação) tem atrás um investimento de R$ 25 mil para supri-lo. Se a concessionária subsidiasse cada residência com R$ 5 mil para energia solar seria para ela um bom negócio. Nos EUA, este tipo de incentivo já é comum e são pioneiras algumas concessionárias privadas da Califórnia e do Havaí, os mercados com maior índice de crescimento e com a menor disponibilidade de fontes de energia limpa.

O título de capital solar do Brasil ainda é reforçado pelo fato de estarem em BH as instalações do Green Solar da PUC (MG). São laboratórios onde se desenvolvem pesquisas de ponta na área de energia solar e trabalhos de ensaio para etiquetagem de qualidade de componentes de aquecimento solar. Estas instalações receberam subsídios e incentivos do Inmetro (Ministério de Ciências e Tecnologia), do Procel (Eletrobrás) e da Cemig. O Green Solar tem também o único simulador solar (sol artificial) da América Latina e um dos sete do mundo, o que vai trazer grandes benefícios à indústria nacional de energia solar.

Na frente institucional, a Abrava — Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento — vem conquistando terreno na promoção da legislação, em nível municipal, para tornar obrigatória a viabilização da energia solar nos projetos de casas, condomínios, hotéis e outros. A última cidade a promulgar esta legislação foi nada menos do que São Paulo/capital. Vêm ainda a favor desta onda a conscientização pelo que é bom para o meio ambiente, a preocupação com o aquecimento global, o esgotamento das fontes de energia limpa, enfim a conservação de energia. Estão com a palavra os nossos prefeitos e vereadores, recentemente eleitos.

Alan Kardec de Assis Carvalho Uberlândia (MG)
Engenheiro-consultor em conservação de energia
akjatai@yahoo.com.br

Os que não deveriam morrer

“Cada um de nós escolheria certamente aqueles que não deveriam morrer e perguntaria como eles e nós ficaríamos?” 

Muitos acharão estranho que, próximo ao Tempo do Advento, eu venha escrever um artigo com este  título.  Nesta época do ano em que os homens e a própria natureza devem anunciar o Natal de Jesus Cristo, mas este título me persegue há vários dias e comecei a matutar de como seria a  permanência daqueles que não deveriam morrer.  Cada um de nós,  que já viveu um pouco,  tem  na saudade a imagem, a voz, as ações de pais, irmãos, tios e amigos que não estão mais aqui. Cada um de nós não aceita a morte e se pergunta se este castigo que Iahweh deu  ao primeiro casal não foi terrível demais, e, por que ele se estendeu sobre todo o gênero humano? Esta narrativa do Gênesis muitos modernos não  consideram mais do que uma mitologia  hebraica e não aceitam a culpa original, mas se inquietam ao saber que nas mitologias de outros povos existem histórias semelhantes — como a de Prometeu que roubou o fogo do Céu para dar ao homem — e que é castigado eternamente. Não existe uma semelhança entre Prometeu e o primeiro casal?

Cada um de nós escolheria certamente aqueles que não deveriam morrer e se perguntaria como eles e nós ficaríamos? 
Na nossa vida existem momentos que gostaríamos que fossem  eternizáveis. Momentos que parassem no tempo e que durassem infinitamente. Cada ser humano tem os seus e eles podem variar.  Existem momentos que são comuns e outros que são de cada pessoa.  Para mim poderia ser um momento eternizável a primeira troca de  olhar de uma mãe para o filho recém- nascido que recebe nos braços.  Eternizável seria também a primeira troca de olhares de um homem e de uma mulher que logo sabem que o amor que esperavam chegou. Para outros, eternizável seria encher os olhos com as cores da aurora ou se deliciar na leitura de um poema.  Seriam momentos mágicos e, quem sabe, após a nossa morte a nossa Eternidade não seria constituída destes momentos eternizáveis?

O cristianismo se mantém, nos dias de hoje, silencioso sobre o que acontece às nossas almas após a nossa morte. Antigamente falava-se num julgamento imediato e a ida para o Céu, o Purgatório ou para o Inferno. Pouco ou quase nada têm os teólogos esclarecidos sobre como seria a vida eterna. Outras religiões que defendem a reencarnação e seguem o Bardo Thodol dos budistas tibetanos defendem um período de aprendizagem da alma em outras esferas até a próxima reencarnação. Finalmente, o cristianismo só fala num julgamento final e a ressurreição dos mortos quando, como escreveu o Pe. Vieira no Sermão da Primeira Dominga do Advento, for: “Abrazado o mundo, e consumido pela violência do fogo tudo que a soberba dos homens, e o esquecimento deste dia levantou e edificou na terra...” Somente após esta consumação é que o Cristo voltaria para estabelecer uma Nova Terra e uma Nova Humanidade.  Confesso que esta perspectiva não me agrada e é por isto que, nas meditações do meu dia-a-dia, estou sempre a pedir que o Senhor venha, Maranatah, e não demore muito.

Antonio Ribeiro de Almeida
Doutor em psicologia social/USP
 





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26-11-2008


A Bolsa quebrou!



“Se para salvar o planeta deveríamos andar de bicicleta, para resgatar a economia temos que salvar a indústria automobilística”

A grita é geral e já tem madame preocupada com seus embornais de R$ 30 mil comprados na Daslu ou na Daslouca. Todos não, que nunca conseguimos entender o que se passa na cabeça daqueles malucos que berram juntos em três telefones ao mesmo tempo; assistimos extasiados ao noticiário. Graças a Deus não sou economista e, por isso, não preciso fazer aquelas previsões sobre o valor do dólar no carnaval de 2020, ou dos juros bancários quando o Verdão for campeão. Não entendo nada de economia e o pior é que não me sinto só. Mas sei que entender é uma coisa; prever, isso é lá com a Mãe Diná.

Mas é interessante esse mundo dos negócios. Fico atordoado ao ouvir os incessantes anúncios de que, desta vez, o apocalipse chegou. Mas, de qual fim de mundo se está falando? Aliás, de qual mundo eles falam? Do mundo de verdade em que se trabalha 30 dias para receber R$ 415, e esse dinheiro nunca cresce, só diminui? Onde ser patrão parece ser pecado original e onde se paga impostos para que muitos recebam bolsas que não quebram nunca? Ou é sobre o mundo virtual, da jogatina em videogame, da farra insensata e irresponsável dos nossos apostadores de Wall Street ou de outros cassinos pelo mundo? Fala-se descaradamente em uma tal economia real, só lembrada quando há perdas. Como sempre, a realidade é dura. Mas, se existe uma economia real, também deve existir uma economia “irreal”. Sim, ela existe, mas nesta festa só entram os ganhadores. Neste outro mundo, uma pamonha pode custar entre um real e um milhão (desculpe pelo trocadilho), a depender dos boatos sobre a saúde da dona Maria, a fidelidade da vaca malhada ou sobre o humor do Chico leiteiro. O mais engraçado, se não fosse triste, é que a pamonha que tem o custo real de um real e foi vendida por um tempo a um milhão entra na lista dos símbolos da derrocada geral por valer hoje, apenas, quinhentos mil reais! E somos obrigados a chorar pelo pamonheiro que, pasmem, perdeu 50%! Não podemos nem desejar que se danem, pois quando eles ganham, eles ganham. Já quando perdem, perdemos todos. O povão precisa salvá-los para que, em breve, reiniciem seu divertido vale-tudo. No mundo real, vivemos plenamente o capitalismo de resultados (positivos, é claro). Para que o capitalismo do lucro certo sobreviva, o prejuízo deve ser “socializado”. No país que parece brincadeira, mas é real, foi criada até loteria para salvar times de futebol primorosamente administrados. Os agiotas, que cobram 2% ao mês, vão presos para não prejudicarem os negócios de quem cobra legalmente 6%, 8%, 10% ou 15%. Produtos piratas e contrabandeados continuarão a encher o saco do Papai Noel e o povo continuará sendo presenteado pelas compras em 10 vezes, “sem juros”, sem entrada e sem vergonha. E se, para salvar o planeta, deveríamos andar de bicicleta, para resgatar a economia temos que salvar a indústria automobilística. O planeta que espere mais um pouquinho. Ou estamos enlouquecendo ou, mais provável, somos um bando de Alices, no Brasil das maravilhas. Não merecemos. Aliás, não “se” merecemos. Quer saber, se a Bolsa ainda não quebrou, o saco já está cheio!

Thogo Lemos
Médico
Uberlândia (MG) 
thogolemos@uol.com.br

Motocicletas

“O laço esticou, a mula agüentou o coice e a moto encapotou com seu peão agora desmoralizado, sujo e retirante para Uberaba”

Já escrevi sobre elas, algum tempo atrás. Como todo brasileiro, sou pós-graduado em previsões e adivinhações. Naquela crônica eu já previa a crise decorrente do crescimento e disseminação urbana das motocicletas. Hoje e passado pouco tempo, minha previsão está confirmada. Penso que, por aqui, a venda de motocicletas já supera a venda de automóveis. Isto é natural — afinal motocicletas são mais baratas, mais ao alcance financeiro da crise que estamos vivendo. Servem a uma, no máximo duas pessoas, o que é normalmente a carga dos nossos automóveis e seus bancos traseiros desocupados. São mais rápidas, gastam menos combustível e são ágeis, costurando o trânsito no meio dos automóveis, ônibus e caminhões. Servem como transporte de aluguel a preços muito menores que os táxis e, para quem gosta de emoções, são insuperáveis. Ou seja, motos ocupam desde já um lugar de destaque no transporte e no serviço urbano — e vão crescer mais ainda. Lembro-me do Aramisio, meu vaqueiro, quando motos ainda eram raras, barulhentas e malquistas. Ali na praça central de Veríssimo apareceu um galã moto-boy dando voltas e acelerações talvez em busca de alguma garota curiosa na garupa. Ali pela quinta volta, o Aramisio e a turma da cerveja sossegada da esquina já estavam de saco cheio daquela invasão, e meu crioulo resolveu pôr tenência no assunto. Foi na garupa da mula, tirou seu laço fino e forte de couro de veado campeiro. Armou a volta em giro sobre a cabeça e, quando o gostosão veio fervendo, Aramisio soltou a laçada perfeita, como ele contou, e pegou a tal motocicleta pelos chifres. O laço esticou, a mula agüentou o coice e a moto encapotou com seu peão agora desmoralizado, sujo e retirante para Uberaba. Bem, mas isto foi distante e há muito, hoje haja laço, mula e Aramisio para dar corretivo nestas exibições imprudentes. Aqui motocicleta está igual correição de formiga, gente e automóveis que se cuidem.

Contrariando suas vantagens e bondades, as motos ficaram velozes e imprudentes, avançam sinais, passam pela direita, costuram um trânsito que estão embaralhando. Em ruas movimentadas do comércio e em certas horas, motos vão se tornando um problema que precisa ser pensado e resolvido — afinal, seus acidentes já estão além de quebrar braços e pernas, já estão matando e morrendo. É bom e necessário que o serviço de trânsito pense nas medidas para organizá-las.

Criar ruas próprias preferenciais para seu uso, outras proibidas. Controle da velocidade, o exibicionismo e imprudência, documentação, capacitação. Eu não entendo por que os motoqueiros têm que correr mais que os automóveis, coisa que vejo todo dia nas minhas ruas. Confesso, desde o dia em que um folgado quebrou meu retrovisor e vazou no mundo, que tenho saudades do Aramisio. De carro ninguém alcança uma motocicleta, mas com o laço Aramisio podia ser um fiscal do seu trânsito. Taí, meus delegados, outra sugestão: ponham Aramisios nas esquinas. Por respeito ou medo, a situação pode melhorar...

João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico e escritor 
Uberlândia (MG)
   





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25-11-2008


A crise e as aberrações



Dentre as causas da crise financeira se sobressai a concentração de capitais, causando o imobilismo econômico. Querem engolir o mundo inteiro e o mundo inteiro não lhes mata a fome. As conseqüências são indigestas, de tanto comer vem a indigestão, enjôo, mal-estar, dor de cabeça, vômitos e muito sofrimento.

No capitalismo financeiro, a riqueza torna-se cada vez mais concentrada, pois o capital ocioso domina a economia numa equação com incógnita irracional: C(capital) > C (capital) + T (trabalho), ou seja, o capital gera mais recursos, isoladamente, que associado ao trabalho com peso negativo. No Brasil, a equipe econômica faz tudo ao contrário, estimulando o cassino que o presidente critica, liberando recursos acumulados com o sacrifício de nossa gente, para exacerbar a concentração de monopólios e a especulação financeira.

O que mantém a estabilidade do sistema bancário é o encaixe, representado pelo compulsório de depósitos recolhidos ao Banco Central, para guarnecer os créditos de correntistas, que já atingiu até 90% dos depósitos, conforme “circular Bacen nº 2.521/94”, atualmente estava na faixa de 42%. O superpoderoso presidente do Banco Central liberou R$ 160 bilhões do compulsório, criando riscos aos correntistas e violando as normas da Lei 4.595/64, para satisfazer o regozijo dos banqueiros privilegiados.

Evidentemente, com os riscos do mercado pela grande expansão de crédito, os grupos financeiros vão especular com o dólar, desvalorizando nossa moeda.  Aumenta-se a elevadíssima taxa básica de juros Selic, em que o Estado brasileiro banca com dinheiro público, pagando 13,75% a.a., enquanto outros países importantes reduziram os juros, como nos EUA (FED) caiu 1 ponto, para 1% a.a., na Inglaterra caiu (1,5%) para 3% a.a., no Japão (BOT) cortou 0,5%, caindo para 0,3% a.a..

Além disso é uma extorsão cobrar taxas de “179,88% a.a.” no cheque especial e “102,16% a.a.” no empréstimo pessoal, de acordo com o levantamento da Fundação Procon de São Paulo, com base nos 10 principais bancos da capital.
Como fica a situação das pessoas conceituadas, que usam o cheque especial em situação aflitiva, onde obter recursos para saldar as obrigações?  Todo desregramento gera crises, agravando-se com medidas inconseqüentes no maniqueísmo da política comprometida, liberando quantias absurdas aos poderosos grupos.

Distribuem nosso dinheiro a torto e a direito, nesta farra irresponsável: R$ 4 bilhões para construtoras, seguindo a trilha fracassada do mercado imobiliário americano, com hipotecas insolváveis. R$ 4 bilhões para as multinacionais de veículos, acrescido de mais R$ 4 bilhões do governo de São Paulo e outros do governo de Minas, com dispêndios que mais agravam os problemas do trânsito, deixando de atender às obras prioritárias da população. Os grupos que mais ganharam são agora os grandes beneficiários. Não se cogitou de investir na promoção das pessoas mais prejudicadas ou assistir a vítimas destas manobras. E a crise social aprofunda-se, com todas as conseqüências nefastas.  Precisamos ter consciência e defender nossos valores para uma vida melhor.
 
Clotário Cardoso Netto
Perito judicial, economista,
administrador de empresas e contabilista
clotariocn@yahoo.com.br


As aparências enganam?

Há muito, a literatura e os escritores de ficção se interessam pelo tema da moda, da indumentária, interesse que acabou passando ao mundo acadêmico. Não por acaso, o crítico francês Roland Barthes publicou, em 1967, o livro “Sistema da Moda”. O tema atrai estudiosos de História, Sociologia, Psicologia, Antropologia, entre outras disciplinas e áreas do conhecimento. Uma leitura interessante sobre o assunto está no livro de Daniel Roche “Cultura das Aparências”, de 1989. Para o autor, as mudanças na indumentária nos possibilitam compreender as transformações sociais e culturais de um povo, de uma civilização.

Há os que vêem nos trajes uma forma específica de arte, uma linguagem criadora, que lança mão de texturas, formas e cores, criando, no palco, por exemplo, a magia, o salto para a fantasia, a camuflagem, a representação simbólica, recortes saborosos de outros tempos e outros espaços.  A roupa des-vela, enfatiza certas partes do corpo, confere marcas, significados, revela sentimentos, posição social, épocas, lugares, costumes diversos. O traje e suas cores expressam sensações, estados de espírito, rebeldia, recato, ousadia, tristeza, luto.

A indumentária marcou, ao longo do tempo, a relação desigual entre os sexos, entre superiores e subordinados. Normas e padrões definiam o figurino de homens e mulheres. E as inversões de uso eram motivo de escândalo, de gracejos, de censuras. O figurino define a classe social e, em alguns casos, a profissão. No século 19, se estabeleceu, no Brasil, o uso das calças brancas para advogados, médicos, altos funcionários públicos, enquanto as senhoras burguesas lançavam a moda dos vestidos de saias amplas em tafetá preto.

A indumentária seduz, aumenta o coquetismo das mulheres, o poder de sedução dos homens, tem o seu aspecto utilitário (aquece, protege, facilita as diferentes atividades diárias), revela o grau de prestígio econômico e social do cidadão.   Acompanhar as tendências da moda teve início na corte francesa, no século 17, com as damas da aristocracia lançando estilos de roupas, chapéus e penteados. Só no século 19, a moda se estenderia à classe média e, no século 20, ela se tornaria um fenômeno de massa, graças aos avanços da tecnologia da informação. Inúmeras teorias explicativas da moda foram ensaiadas por psicólogos, sociólogos, estudiosos em geral. Contemporaneamente, surge uma teoria “política” sobre o tema, a partir da discussão sobre o uso da burca, por exemplo, pelas mulheres de origem islâmica.

Qualquer que seja o ângulo adotado, os estudos sobre a indumentária lançam indícios preciosos sobre o indivíduo, as culturas, os grupos e instituições sociais. Buscando sempre a inovação e a criação ousada, a moda pode ser um termômetro interessante para medir a capacidade humana de reinventar o mundo, de nele conviver, ser e relacionar-se.

Shyrley Pimenta
Psicóloga clínica
Uberlândia (MG)
ivsant@terra.com.br





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23-11-2008


Indústria do Couro



Há oportunidades de buscar novos mercados, mas neste momento, a melhor estratégia é se adequar e ajudar os clientes atuais a superarem a crise.

A crise mundial caminha para uma recessão, parece-nos inevitável, porque as ações até agora não foram suficientes para reverter a situação.

A indústria de couro é um dos setores que mais exporta e gera milhares de empregos. Tem uma característica que merece destaque: está presente em todos os Estados do País - onde está o rebanho bovino, caprino ou ovino há um frigorífico e um curtume, são três elos que andam juntos, criando riquezas para o Brasil.

Na exportação, tem conseguido um desempenho acima da média por contar com o apoio da APEX, que tem contribuído não apenas para fortalecer o mercado atendido, mas de forma muito profissional, incentivado e apoiado a busca por novos mercados.

A situação não é boa para a maioria dos setores nacionais, infelizmente a indústria de curtume não é uma exceção nesse novo cenário. É importante neste momento fazer uma análise severa sobre a situação e tentar revertê-la. Os que convivem diretamente com os empresários sabem que governo e iniciativa privada estão juntos, o momento é de somar esforços para sermos menos atingidos. Estamos em uma crise, a caminho de uma depressão mundial, todos os erros e méritos têm que ser divididos por todos os envolvidos, afinal, a crise não chegou apenas pelas mãos de alguns. A verdade: quem não participou pela ação, participou pela omissão.

A exemplo de outras commoditties, o couro tem uma comercialização concentrada em três grandes mercados, ou quatro se separarmos Hong-Kong da China, como ainda fazem as principais fontes de informação. E como estão os maiores mercados da indústria nacional do couro?

A Itália é o principal importador de couro brasileiro. Sem somarmos a China com Hong-Kong, representa 30% da produção da nossa exportação. Localiza-se na zona do euro, a qual está em recessão pela primeira vez desde a adoção da moeda comum, em 1999. Os números divulgados pela Eurostat, agência de estatísticas da União Européia, mostram que o PIB (Produto Interno Bruto) médio dos 15 países da zona do euro sofreu contração de 0,2% no terceiro trimestre, o que configura uma situação de recessão. A Itália em particular, que é a terceira economia do grupo, teve seu PIB contraído em 0,5% .

Analisando China sem Hong-Kong, a atividade industrial do país sofreu no mês de outubro a sua maior contração: caiu de 45,2 pontos contra 47,7 de setembro; tudo indica que, a exemplo dos demais países, está desacelerando a sua economia. E este mercado é responsável por mais de 23% das nossas exportações de couro e pele.

Hong Kong, que é avaliado ainda em separado, divide e alterna com os EUA o terceiro lugar; é o segundo da Ásia a entrar em recessão. Tem sua economia totalmente dependente da exportação, é um mercado estratégico para a indústria de couro e peles e é onde estão localizadas as duas mais importantes feiras do setor. O seu PIB recuou no terceiro trimestre 0,5%, depois de se contrair em 1,4% nos três meses anteriores.

Está claro que os curtumes brasileiros terão que dobrar esforços para atender os seus principais mercados. Há oportunidades de buscar novos mercados, mas neste momento, a melhor estratégia é se adequar e ajudar os clientes atuais a superarem a crise.

Hélio Mendes
Prof. e consultor de Estratégia e Gestão - latino@institutolatino.com.br

Política e desigualdades

O cara que ganha uma eleição, nunca mais será perdedor, pois há sempre uma vaga ou brecha a ser ajeitada pra ele

A respeito do que diz o povo sobre os altos salários que percebem os políticos (e não somente os vereadores, mas também os deputados e senadores), veremos milhares de crianças que padecem por falta de pão, leite e remédios...
Ora, o possível para nós tem sido apenas esperar ou dar um tempo, já que ficamos a esperar que os poderes criem e executem dispositivos que possam reparar injustiças e coibir as desigualdades que pesam sobre uma parte da sociedade indefesa.

Isso equivale dizer, que uma só parte do povo - a mais aquinhoada apenas – sai sempre ganhando em detrimento das pessoas mais sofridas, mais injustiçadas, mais incompreendidas e que contam apenas com um salário de fome...
Nós e os governos que regem os destinos da Nação sabemos sobre este lamentável ponto em referência, mas todos ficamos a esperar, apenas - como se os nossos braços estivessem atados; nossas consciências empenhadas apenas em reflexões e os nossos corações blindados para não mais sentirmos a dor alheia... 

Dissemos esperar, mas não sabemos dizer de onde e para quando? Eis aí a indagação dos que ainda vivem, sonham e muito padecem... No entanto, sabedores de que viver é preciso e que, esperar equivale ter esperanças, vamos, pois esperar, mas... lutando vigorosos com nossas forças para que encontremos soluções afins ou saneadoras, que possam pelo menos amenizar as dores e mazelas de nossa gente menos favorecida.

O que se lê acima, serve como intróito para que, a seguir, possamos comentar sobre um fato relativo com a mendicância na cidade. Não tivemos como contestar o ponto de vista de uma pessoa bem intencionada, ou que talvez estivesse querendo exaltar esta boa terra, mas não podemos concordar, hoje, quando sabemos que os pedintes estão aqui e por todas as partes.
Nas praças Tubal Vilela, Sérgio Pacheco, Clarimundo Carneiro, como também pelas periferias. Descendo dia destes pela avenida Floriano Peixoto, mais precisamente do Estádio Juca Ribeiro até a Praça Rui Barbosa, pudemos contar, apenas de um lado da referida via, nove (09) pedintes a implorar a caridade pública.

Seis (06) eram mulheres com filhos menores de idade. Um outro fato a ser aqui resumido, é aquele dos pedintes de casa em casa. Homens e mulheres, quase sempre maltrapilhos e se dizendo famintos, insistem tocando campainhas ou interfones, até que sejam atendidos.
Os pedidos são quase sempre de gêneros alimentícios: leite, arroz, óleo (um pouquinho de óleo, como eles imploram), feijão, macarrão e outros. Ora, o coração se entristece diante daqueles seres de olhos úmidos e tristes, e ainda perseguidos por um monstro chamado fome.

O cara que ganha uma eleição, nunca mais será perdedor, pois há sempre uma vaga ou brecha a ser ajeitada pra ele.                                                             

Alberto de Oliveira
Jornalista – Uberlândia - MG





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22-11-2008


Luther King fez Obama



“O simbolismo desta eleição criou erradamente um novo messias, por isso precisamos fazer o gerenciamento das expectativas”

A propósito do Dia da Consciência Negra, me pego a pensar sobre o quanto ainda falta para conseguirmos no Brasil algo como a vitoriosa imagem de Barak Obama sendo recebido na Casa Branca pelo senhor das crises, George Bush.
Só nos interessa agora um olhar de aprendiz sobre a história desta grande nação americana, em que a igualdade de oportunidades entre brancos e negros foi conquistada após muito sangue e luta: Guerra de Secessão, assassinato de presidentes que apoiaram a luta pelos direitos civis para as minorias, líderes negros com casas incendiadas pela KKK, movimentos sociais reprimidos com balas e a vitória de ONGs que alavancaram os desvalidos socialmente em função da cor da pele.
Lá a segregação sempre foi braba e declarada, ao contrário da brasileira, dissimulada e covarde. Não se pense que a discriminação acabará por causa deste evento, principalmente no cotidiano das escolas, empresas e, principalmente, da mídia; todavia o grande passo já foi dado. Os especialistas o comparam à queda do muro de Berlin por causa seus efeitos subseqüentes.

O simbolismo desta eleição criou erradamente um novo messias, por isso precisamos fazer o gerenciamento das expectativas. Obama não governará sozinho e a crise que herda é muito grave e avassaladora. Mas ele poderá, sim, reinventar o New Deal de Roosevelt e será preciso dar tempo ao tempo.

Como aconteceu no discurso de Martin Luther King, que ecoa ainda, 40 anos depois daquela noite fria de Memphis, quando ele, visionário (“Eu tenho um sonho”), dizia que enxergara “a terra prometida” após subir a montanha. Assassinado 24 horas depois, seu legado o fez o verdadeiro fundador da moderna democracia americana.

Hoje há nos EUA integração profissional e econômica, em que negros dividem com brancos o poder econômico, social e político, após ações afirmativas implementadas. E foram essas ações que romperam as barreiras dos guetos e das favelas, proporcionando educação de qualidade e postos de trabalho, primeiramente dignos, depois os melhores, para milhões de talentos humanos afro-americanos (palavra-chave), e isso fez a diferença. Isso fez Barack Obama.

Muitos aqui no Brasil ainda não entendem o porquê de racistas americanos votarem em um negro para presidente da república. A questão é que a liderança e o carisma de Obama alinhavaram apoios em cima de idéias e seu mote de campanha “Yes we can”, focado em mudanças, tirou o viés racista que poderia afastá-lo dos votos dos brancos. Sua refinada educação em Harvard o preparou para este destino. Quantos brasileiros negros como ele teriam esta chance?

Precisamos aqui de educação de qualidade para todos. Alguns dos nossos líderes acham bonito não terem estudado, não saberem ler um relatório ou livro. E até ridicularizam quem tem esta expertise. Afirmo peremptoriamente que este exemplo criará um fosso que sepultará cada vez mais os negros e os pobres no calabouço social e econômico em que se encontram. Além da visão do pai negro americano (Luther King), a boa educação das crianças pobres (entre elas, as negras) mudou o destino de milhões de americanos. O fenômeno Obama poderia afirmar como Mahatma Ghandhi: “Minha vida é a minha mensagem”.

Concluindo: quando passará daqui esta longa jornada da discriminação noite adentro? Quando elegeremos um Obama?

José Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor
debatef@debatef.com.br


Fumantes

“Fumar es un placer, genial, sensual.../Fumando espero a la que tanto quiero/tras los cristales de alegres ventanales/y mientras fumo mi vida no consumo/porque flotando el humo me suelo adormecer”

Diversos compositores nacionais associaram o hábito tabagístico a grandes amores, alguns perdidos para sempre. Destes, podem ser destacados Herivelto Martins, Luiz Bonfá, Noel Rosa e Paulo Marques. Composições que foram interpretadas por cantores e cantoras adeptos ao tabagismo, de uso muito freqüente no século passado. Entretanto, das composições internacionais sempre é lembrada uma música denominada “Fumando Espero”, de autoria de J. Villadomat Masanas e F. Garzó: “Fumar es un placer, genial, sensual.../Fumando espero a la que tanto quiero/ tras los cristales de alegres ventanales/y mientras fumo mi vida no consumo/porque flotando el humo me suelo adormecer”.
Na versão da letra deste tango feita por Eugênio Paes: “Fumar é um prazer que me faz sonhar/Fumando espero aquele a quem mais quero/Se ele não vem então me desespero/E, enquanto eu fumo depressa a vida passa/E a sombra da fumaça me faz adormecer”.

Esta música foi um grande sucesso a partir de 1922, numa época em que os amores não correspondidos ou impossíveis de serem consumados eram cantados em prosa e verso.
Recentemente, ouvi a música intitulada “Fumante”, de autoria de Rômulo Marinho e interpretada por Cristiane Goulart. Trata-se de uma divertida referência aos malefícios causados pelo tabaco na voz impecável da cantora: “Eu sou fumante/À luz do sol e do néon,/Quem não gosta de cigarro desconhece o que é bom/Também não sabe/Que a bronquite infernal, juntamente com o pigarro,/São meu charme matinal/Vivo soprando por aí muita fumaça,/Com alegria, pose e graça,/Perfumando os salões/E assim, de cores,/Consegui os tons mais belos,/São meus dentes amarelos/E marrons os meus pulmões/Para meus brônquios/Alcatrão é vitamina/E, a doce nicotina, esperança de troféu/Pois do tabaco hei de ter a minha flor,/Um fantástico tumor, que me levará ao céu./Mas se não ganho, afinal, o caranguejo,/Há ainda um desejo/Que eu quero consumado,/Já que não posso ter de tudo/Eu quero parte,/Pelo menos um enfarte,/Pra também ser safenado/A impotência/Não assusta camarada,/Vale mais uma tragada/Que o prazer sexual./Um enfisema/Não está fora dos meus planos,/Pois fumante há muitos anos/O evento é natural./Uma gastrite duodenal,/Uma esclerose, finalmente, em dupla dose,/Sei que um dia vou ganhar/E vou vivendo assim feliz a minha vida,/Até que a morte bem sofrida/Possa então nos separar”.

A letra é muito interessante, exceto pela “gastrite duodenal”, que pode ser interpretada como uma licença poética. Uma úlcera duodenal seria mais adequada, pois esta é considerada uma das 50 doenças relacionadas a  tabaco-dependentes. 
Confira aqui a  gravação. Vale a pena conferir.

Evandro Guimarães Sousa
PNEUMOLOGISTA EM SÃO PAULO
evansousa@hotmail.com





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21-11-2008


Qualidade no