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Crônica

As músicas que eu cantava

No mesmo dia em que, à tarde, assisti a meu pai e dois camaradas cuidarem do gado dentro do curral, aprendi a primeira música, um sucesso daquele tempo. Eis sua letra: “Mestre Domingos, o que veio fazer aqui? Vim buscar meia pataca pra tomar meu parati, vou beber, vou me embriagar, vou ficar sem juntas, pra iaiá me carregar”.

Mais talutinho, em São Joaquim, aprendi esta lá em casa mesmo: “Meu filho, quando tu fores ao jardim da tua irmã, não quebres as débeis flores que nascem pela manhã. Se não, quando voltares de lá, a rosa dirá à açucena, que és de uma índole tão má que nem das flores tens pena”. Na mesma ocasião, aprendi mais esta lá em casa: “Lá vai a garça voando com as penas que Deus lhe deu. Contando pena por pena, mais penas padeço eu”. E já na Ortiga, mais estas do meu pai.

“Saí de casa pensando que era home, mas na curva da estrada quase que a onça me come. Subi na mangabeira, desci na mangabeirinha. Toda rola que voava, eu pensava que a onça vinha”.

O destino só me levou a conhecer a mangabeira quando estive a incentivar a produção de borracha do cerrado. É produto de segunda categoria, mesmo assim, precioso para os aliados.

Sei ainda muitas marchinhas dos velhos e animadíssimos carnavais de antigamente. E músicas dos jongos, como estas: “Gente, cadê o Antero? Ele tá no cemitério”. Foi porque o Antero era o coveiro e assíduo frequentador do jongo.

Eis uma musiquinha sem nexo, mas sempre gostei de cantá-la: “Esta noite à meia noite, eram dez horas. Eu encontrei, encontrei duas figura, uma era o retrato de Maria, a outra era da Maria formosura. Eu pisei, eu pisei na cara dela, e uma voz lá de baixo a respondeu: arretira, arretira o pé de riba e não maltrata um amor que já foi seu”.

Antes de terminar o curso ginasial, em 1935, eu ia à casa da minha primeira namorada. Ao atravessar o capão de mato, para espantar o medo, eu cantarolava o samba do Noel Rosa “O orvalho vem caindo”. Sei-o todinho até hoje.

O fato é que eu vivia sempre a cantar. Agora, só o faço mentalmente para evitar que me mandem cantar na porta da cadeia. Mas que é bom, isso é, principalmente porque tenho muitos coleguinhas.

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