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Crônica

Dizer adeus

Era ainda madrugada adentro. De tão frio nem grilos cantavam, pios de coruja haviam se silenciado, corujas/encorujadas se aquietaram na tentativa de se aquecer, nem a fome as faria voar esta noite.
A lua exuberante em um céu estrelado — anunciavam geada.

Uma única e pálida lamparina ardia na casa. Os movimentos eram cuidadosamente calculados para que nem um ruído acordasse a família. Vestiu-se devagar, sentado na cama. De minuto a minuto lançava um olhar para a mulher deitada ao seu lado. Só seus vastos e perfumados cabelos longos podiam ser vistos, escondida estava sob várias mantas multicoloridas de tear. Percebia-se sua respiração cadenciada; profundo sono; com certeza repleto de sonhos calmos/suaves. Quanto calor emanava daquele corpo oculto, que vontade de ficar e deitar-se ao seu lado, apertá-la contra seu corpo, amá-la, amá-la, amá-la.
Calçou a botina, seus dedos ainda doíam da lida do dia anterior, assim como as suas costas e braços. Envelhecia. Levantou-se mais lentamente ainda para que o já gasto catre não rangesse. Passou levemente as mãos nas pontas daqueles cabelos sedosos.

Caminhando para a porta do quarto, olhou furtivo em direção de sua companheira, as sombras de seus contornos dançavam nas paredes projetadas pela luz da lamparina que agora ele segurava. Não mais a via. Cômodo em breu.

Parou à porta do quarto do filho, mantas espalhadas pelo chão, menino encolhido na cama. Ternamente recolheu as cobertas e cobriu seu garoto. Beijo na testa. O pequeno entreabriu os olhos e sorriu longe. Sentiu o calor voltando e sussurrando um “Eu te amo” para o pai, virou-se a dormir.

No quarto em frente, a filha. Menina-moça quase adulta, adolescente. Beijou-lhe rapidamente a face fria pelo vento que matreiramente insistia em entrar pela janela semi-aberta como que a trazer murmúrios de juras de amor de algum pretendente desconhecido. Fechou a janela rápido, espantou e apagou os recados, pai ciumento.

Bebeu um gole de café frio, caminhou para a porta da varanda, apagou a lamparina. Escureceu a casa, escureceu sua alma, junto com aquela chama apagou-se também parte imensa de sua vida. Não podia, não sabia viver sem os seus.

Partiu jurando voltar.

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