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Crônica

Gatos

Gato é um bicho interessante. É que nem pequi, jiló ou dobradinha. Não tem meio termo, pois ou você gosta ou não quer nem vê-lo por perto. Bom, tem sim, já que existem pessoas como eu que conseguem admirar a beleza, a elegância e a independência felina. As variações de pelagens infinitas, as três cores das fêmeas. Se você não sabia, conto. Apenas as fêmeas possuem pelagem tricolor, herança ligada ao sexo em bom genetiquês.

E os olhos? Quanta beleza, profundidade e sensualidade. Não é à toa que mulher bonita é chamada de gata. Pode ser, por motivo outro, ligado ao fogo. Quem não ouviu ou usou a expressão “fogosa que nem gata no cio”?

A relação humanos/gatos é milenar. O bichano já foi adorado como um deus pelos egípcios. Aqui abro espaço para um pouco de cultura inútil, daquelas informações que você jamais vai usar na vida (mas vai que…): “Bastet, a deusa egípcia da fertilidade e do amor materno, era comumente representada por uma mulher com cabeça de gato”. Mas, aí, lá pela bandas da idade média os cristãos resolvem endemonizar o pobre bicho. Muita gente boa foi para a fogueira, taxada de bruxa, pelo simples fato de possuir um gato. Caraca, será que não tinham mais o que fazer não?

Viu só? Quem é que poderia viver sem essa informação? Agora que estamos todos salvos do poço escuro da ignorância, sinto-me mais confiante para continuar a vida. Em minha varanda, tem uma namoradeira secular, daquelas feitas sem prego e as emendas das tábuas preenchidas com cera de abelha. Na minha varanda, sobre a namoradeira, eu tenho um vasinho de cactos, presente de filho.

Pois não é que, de uns dias para cá, em minha varanda, sobre a namoradeira, toda manhã, meu vasinho começou a aparecer tombado? Pedrinhas brancas, que o adornam, espalhadas por todo canto. Seria o vento, pensei sem pensar. Que vento nada. Noite alta chego de manso. Lá, como dono do pedaço, todo esticado, quem encontro? Um lindo gato filhote, desmamado, mas filhote, preto como a mais negra das noites de lua nova e ameaçando chuva, sem estrelas e sem vaga-lumes. Seus olhos esverdeados brilhavam fixos em mim. Levantou-se manso, deu uma bela espreguiçada, desceu flutuando do banco e, em miado choro, veio em minha direção. Passou rente a minhas pernas, pedindo afago. Abaixei e acariciei por longo tempo sedoso pelo. Assim ficamos, no silêncio, em reconhecimento mútuo.

Gatos não são escolhidos, eles escolhem companhias, pois jamais serão de ninguém. Não me atrevo a dizer que serei seu dono, isso nunca. Agora, estamos em fase de namoro. Hoje cedo entrou casa adentro. Delicadamente, eu disse não. Ainda não é hora. E tem mais, quem vai cuidar quando eu viajar? Mas confesso que já está me agradando a ideia dela, é uma feminha, ser minha dona. Estou mesmo precisando de companhia e carinho, isso elas sabem dar. Vamos ver no que vai dar, se for para ser, será.

Bastet aqui citada, não originou “basquete” da NBB – esse papo de Novo Basquete Brasil, é triste. Nossa capacidade infinita de imitar. Tudo isso só para parecer com a NBA gringa.

Bom domingo, no mais Gerais, preguiça felina.

William H. Stutz

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