menu
publicidade
publicidade

Novo Som

The End

Tem uma pilha de CDs aqui do lado do computador. Entre eles os lançamentos da Monstro Discos, de Goiânia. Vish Maria, Royal Dogs, Devotos de NSA e Os Cabeloduro. Muita coisa boa. Tem ainda alguns lançamentos da HBB Records, de São Paulo, como do Medulla, que estava separado para uma edição futura da Novo Som do CORREIO de Uberlândia que não sairá.

Que manhã difícil essa quinta-feira, 30 de dezembro de 2016. Além de me despedir do jornal onde trabalhei por 16 anos e cinco meses, onde achei que iria me aposentar, me despeço de um espaço que foi uma conquista pessoal que carregarei comigo pelo resto dos meus dias.

Quando a Novo Som surgiu, há 12 anos, nenhum jornal diário dava a devida atenção às bandas que surgiam em um cenário fora de capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo. A gente recebia, aqui na redação, descrições de inúmeros artistas que não correspondiam à realidade.

Fui atrás. Viajei muito para ver bandas que ainda não estavam no radar. Também viajei muito para ver artistas consagrados, porque a Novo Som nunca seguiu a linha “se é independente é bom se é mainstream é ruim”. Nada melhor do que unir o seu trabalho ao que você gosta. Porém, aqui no terceiro mundo onde a cultura é sempre “o resto”, parece que isso é um sacrilégio, um pecado.

Agradeço aos leitores, às assessorias de imprensa, produtores e aos artistas que sempre me receberam de forma respeitosa e carinhosa. Ainda me espanta ouvir frases do tipo “nossa, você relatou exatamente o que eu queria dizer”, quando isso deveria ser a regra e não a exceção.

Sempre soube que eu estava entre os caras legais, mas não era um deles. Daí você pergunta: “por que minha banda nunca apareceu na sua coluna?”

Primeiramente, sempre teve uma fila bacana e eu procurei honrar por ordem de chegada. Outra, porque algumas bandas acabaram antes da coluna. Também não sou adepta do sensacionalismo. Não colocaria uma banda nesse espaço para detoná-la.

Sempre tive ressalvas ao assinar algo como “crítico musical”. Não me sinto à vontade para criticar o trabalho de ningém porque não toco nenhum instrumento e minha experiência no palco serviu somente para respeitá-los ainda mais.

Se algumas bandas não apareceram por aqui , até apareceram em outras páginas do jornal. Afinal, o fato de eu simplesmente não ter gostado não quer dizer que não seja bom.

Como colunista, tenho direito a uma opinião e, pelo céu e pelo inferno, o rock and roll é minha vida. Outros estilos têm espaço aos montes em outros veículos, outros formatos. Falo do rock como estilo de vida e não como modinha da novela das sete. Tem muita gente boa procurando um espaço.

Encaro este dia como aquele show que esperei ver por anos e, de repente, acaba em duas horas e trinta minutos. Os instrumentos são colocados nos cases, os roadies desmontam a estrutura. Os músicos seguem exaustos, ou não, para os hotéis, festas, ou mesmo voltam para o carro para pegar a estrada para um show do dia seguinte.

E essa estrada é o que importa. Entre o início e o fim dela, existe o caminho que será o seu aprendizado.
Vou sentir falta do jornal impresso. Acredito que meus leitores não tinham o perfil virtual. São pessoas reais que, geralmente, comentavam cara a cara comigo sobre o que eu escrevia, concordando ou não.

Isso é o que importa, cada um ter a sua opinião e conviver com quem tem opinião diferente e a cultura tem um papel importante nisso e muita gente simplesmente não liga.

Tô montando aqui os meus cases, desligando os amplificadores, enrolando os cabos. Vou dar um “pause” na playlist, mas não um “stop”.

Aqueles que me acompanharam por aqui durante todos esses anos espero que me acompanhem também na próxima etapa desta jornada, que deve vir com meu próprio site ou como colaboração em algum outro veículo.

Um ano que começou com a morte de David Bowie e também nos levou Leonardo Cohen não poderia terminar de maneira mais melancólica. A melancolia sempre esteve presente na minha vida e a música sempre me fez superar tudo que me levava para baixo e celebrar o que me fazia feliz.

Assim sempre vai ser. As pedras continuarão a rolar e, como imortalizou Freddie Mercury com o Queen em um dos grandes clássicos da banda, “The show must go on”. Obrigada.

Adreana Oliveira

Comentários

Deixe uma resposta

Ao enviar suas informações de registro, você indica que concorda com os Termos do serviço e leu e entendeu a Política de Privacidade do site do Correio de Uberlândia. Só serão liberados comentários cujos autores estejam identificados por nome e sobrenomes e que não contenham expressões chulas e/ou palavras de baixo calão.

Em função do período de campanha eleitoral e em atenção à legislação vigente, o CORREIO de Uberlândia se reserva o direito de não publicar comentários com viés político/eleitoral direta ou indiretamente direcionados aos partidos, agentes políticos, candidatos ou não, tanto na versão impressa quanto na internet.