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Ponto de Vista

Ao magnífico reitor da UFU

Reconheço, a vida talvez me tornou um tanto rígida. Tinha aulas pela manhã e, durante a madrugada, eu fazia lições sob a luz de lamparina. Incontáveis foram as oportunidades em que meus professores me chamavam de “preta porca” por alguma mancha causada pela fuligem da lamparina: o caderno de uma aluna deveria ser impecavelmente limpo.

Formei-me como normalista em 1954. Tornei-me professora concursada e me aposentei em 2004, três meses antes de completar 70 anos de idade. Nesses quase cinquenta anos, eu nunca faltei, à exceção de um dia: minha mãe, ao contrário de meu pai, cometeu a indelicadeza extrema de falecer na madrugada de uma quarta-feira. Tive de ausentar-me para sepultá-la: também minha ficha funcional deveria ser impecável.

Além da casa, meus pais deixaram-me como herança uma irrefutável honestidade, que cito pela primeira vez. Nunca disse que sou honesta porque deixo meus atos falarem por si. Meus pais ensinaram-me isso. Aceitei o desafio de ser diretora de escola de 1974 a 1986, num tempo em que quase nos pediam para sermos corruptos: o dinheiro do salário dos professores, dos gastos da escola etc., era depositado em minha conta corrente pessoal. Gastava três talões de cheques para pagar a todos com pontualidade.

Muitos colegas atrasavam o pagamento dos servidores em um mês para ganhar dinheiro no overnight, investimento que existia nos tempos da inflação para se ganhar dinheiro. A população era mal informada: não sabia que Governos Federal e Estadual mandavam dinheiro para a reforma da escola. Alguns diretores construíram casas com essa verba. Eu dobrei o número de salas de aula da escola que dirigi.

A essa altura de minha vida, vejo um promotor de Justiça ser flagrado com dinheiro em espécie, tentando embarcar para o exterior sem nada declarar à Receita. Não posso dizer se houve ou não crime, mas é triste ver a Polícia apreender objetos existentes em sua casa e em seu gabinete por fortes suspeitas. Em minha casa, policiais, promotores e juízes só pisaram para tomar café com esta ex-professora. O mundo mudou: se isto acontecesse comigo, eu morreria de vergonha, mas em tempos de impeachment, Petrobras e Eduardo Cunha, como diriam meus pais, “todos perderam vergonha na cara e nós enterramos a nossa na areia”.

Suscito apenas uma questão, que parece revestida de legalidade, e segue endereçada ao Magnífico reitor da Universidade Federal de Uberlândia: eu vi sua publicação no Diário Oficial, doutor Elmiro Resende, autorizando a saída do promotor (que também é professor) antes do fim do semestre letivo. A justificativa era a de que ele iria fazer pesquisas na Universidade de Salamanca. Consultei o sítio dessa Universidade e vi que o professor teria, em 2015, apenas cinco dias para fazê-la, pois ela só voltará às suas atividades em 8 de janeiro de 2016. O citado Professor e Promotor, Fábio Guedes de Paula Machado, foi remunerado com dinheiro público para passar todo esse período na Espanha, em detrimento até do exercício de sua função pública de dar aulas.

Li o teor da autorização por inteiro: o afastamento é de 60 dias. Logo, Sua Magnificência autorizou – para além do período já citado – o professor/promotor Fábio Guedes de Paula Machado a permanecer na Espanha por, aproximadamente, três semanas em que a Universidade de Salamanca ficará fechada e mais três semanas em que o docente fará suas pesquisas. O Natal e a passagem do Ano-Novo encontram-se contemplados nesse afastamento.

Perdoem-me as Excelências, mas é magnificamente estranha a aquiescência desse pedido. Se ele foi aprovado pela Faculdade de Direito e Sua Magnificência apenas o referendou, o problema é seu. Se o esquizofrênico Legislativo brasileiro aprovasse uma lei para exterminar as professoras octogenárias aposentadas, alguém teria coragem de executar a ordem e me matar? Com a palavra, o Magnífico Reitor. Impecável e sem manchas!

Dirce Pereira da Silva, 81, professora aposentada, decana do magistério paulista desde 2003
dircepereiradasilva@hotmail.com

Comentários

3 Responses to “Ao magnífico reitor da UFU”

  1. Dona, Uberlândia inteira sabe que esse Fábio Guedes é chave de cadeia, só que ninguém fala porque morre de medo dele. Todo mundo sabe o tipo de vingança e de ameaça que ele usa como o “prepare seu bolso que vou lhe usar”. Nunca fizeram nada contra ele e nem farão porque ele é dono do Judiciário aqui, Promotores e Juízes se protegem e acabou. O Reitor da UFU acatou o pedido do Dr. Fábio Guedes para passar férias na Europa porque é um capacho a serviço dessa corja, porque é claro que a viagem foi programada para o Dr. Fábio passar as festas no exterior com a família e o Reitor nem se deu ao trabalho de questionar, porque… era um pedido do Dr. Fábio Guedes e, para o Reitor, o pedido dele é uma ordem!
    Se alguém tiver que ser punido, a culpa inteira será do Reitor, e não do Promotor Fábio Guedes. Parabéns, Reitor, dinheiro público muito bem aplicado!!!!!!… ahhhh, só não vê quem não quer o que esse Promotor já aprontou. Tá mais na cara que nariz. E por falar em Nariz, tinha um ex-jogador com esse apelido em Uberaba, que tinha um filho e… bom, deixa pra lá.
    Esqueçam, pessoal: o Dr. Fábio Guedes vai passar o fim de ano na Europa e nós continuamos aqui na batalha. Ele tem a proteção do Reitor, dos Promotores, de tudo e de todos. Se fosse qualquer outro o Reitor tomaria atitude mas, como é o Dr. Fábio Guedes, tudo vai ser engavetado e ninguém vai meter nem o Nariz.

  2. Todos os meus respeitos aos seus 81 anos de vida, mas nessa idade a senhora não pode ser “inocente” para acreditar que haverá um lado da justiça e outro da injustiça. Professora Senhora Dirce, a sua história louvável não pode ser confundida com a de cafajestes magníficos ou de excelência, pois são todos farinhas do mesmo saco, bananas do mesmo cacho. Não pense que haverá punição, porque não haverá. Sempre eles terão uma justificativa para se acobertarem mutuamente. No começo até botei fé nesse reitor com fala mansa e cara de honesto, mas quem se alia a Fábio Guedes abraça o Tinhoso!!!!!!!!!!!!!

  3. Esse Reitor comenteu o maior erro de sua fraca administração ao sair em defesa desse promotor. Deveria ter se comportado como gestor, e dizer que o assunto seria apurado. E encaminhar tudo para as comissões de processo administrativo e ética. Mas o magnífico resolveu atuar como advogado do promotor e envergonhar a comunidade acadêmica.

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