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Ponto de Vista

Não somos inocentes

Temos o direito de matar? Merecemos morrer? É certo que não! Nos últimos dias, fomos surpreendidos com o assassinato de homossexuais em Uberlândia. Nessas horas, há sempre discussões sobre o que é certo ou errado. Incomodei-me com esta balança de opiniões, que ora condenava, ora absolvia, mas sempre julgava. Julgar, eu sei, é um princípio humano. Ficou assim: de um lado, a culpa do assassino confesso. Do outro, duas vítimas, “não menos culpadas”, por tomarem uma atitude, que pôs a vida deles em risco.

Este texto não é para falar da culpa ou a ausência dela. Nem do que é certo ou do que é errado, nem de opções sexuais. Mas esse texto, também, não é para falar de inocentes, porque temos o dever de não ignorar os perigos previsíveis. Jean Paul Sartre dizia que “viver é se equilibrar, o tempo todo, entre as escolhas e as consequências delas”. Já para Nietzsche “na vida caminhamos em uma corda fina, amarrada por cima do abismo”. Imagino que, para os dois filósofos, viver se resumiria a isso: um trabalhador, numa manhã de Domingo, anda para casa para encontrar a família.

Mas, em vez de atravessar a rua, escolhe passar por baixo de uma marquise, que desaba. O homem morre esmagado. A escolha deu errado. Desequilibrou-se da corda. Ambos os filósofos não acreditavam em Deus. Mas este texto não é, também, para falar da existência ou não de Deus. Ou se Ele é bom ou ruim. É para falar do desejo humano de ser feliz e das escolhas que, muitas vezes, não dão certo. Os jovens, que morreram, segundo investigações da polícia, conheceram o assassino através de salas de bate-papo nas redes sociais. Queriam se encontrar com alguém, não queriam morrer, mas o assassino, talvez, quisesse matar. Se as vítimas foram insanas de se arriscarem ao sair de casa para um encontro com alguém que mal conheciam, o que dizer do marido que mata a companheira depois de 20 anos de convivência e cumplicidade? Em algum momento, a escolha dela não deu certo. Nada está garantido para nós!

A vida, em qualquer circunstância, é arriscada e insegura. Os dois jovens apenas queriam ser felizes, como todos nós. Dessa vez a escolha deu errado. Venceu o abismo. Mas nessas salas de bate-papo as pessoas não têm rosto, o que mais se faz é dizer mentiras. Todos, de qualquer opção sexual, no ambiente virtual, mentem sobre tudo. Mereciam eles morrer por isso? De forma alguma. Em um dos casos, o assassino, durante a conversa no site, disse que era casado. Mesmo assim, o jovem o desejou. Merecia perder a vida? Não! Teria que conter esse desejo? Na sei. Certo mesmo é que a escolha não deu certo. Segundo a polícia, não tinha sido a primeira vez que haviam marcado encontros pela internet. Poderiam ter tido um pouco mais de cuidado. Mas que cuidado não teve a mulher do exemplo que dei? Seja como for, em algumas situações, precisamos ficar alertas. O assassino, arrisco dizer, também, queria ser feliz. Ter o que não tinha ou se livrar de uma condição sexual que não aceitava em si e que o infelicitava. Escolheu errado. Infelizmente, as vidas deles se cruzaram. Infelizmente, há pessoas que matam. Infelizmente, há escolhas que dão errado. Para o nosso bem, precisamos lembrar que não somos inocentes.

Alexandre Leal
Jornalista
aleal@tvparanaiba.com.br

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