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Ponto de Vista

O neoconservadorismo

Diz um antigo provérbio latino “Tempora mutantur. Omnia mutantur, nos et in illis mutantur”, que em latim significa: os tempos mudam. Todas as coisas mudam e nós, nelas também mudamos. Em contrapartida, o compositor brasileiro Belchior afirmara: “Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não. Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém. Você pode até dizer que eu tô por fora ou então que eu tô inventando. Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”.
Nos últimos anos, vem se fortalecendo no Brasil, a exemplo de casos ocorridos na Europa, uma visão de mundo que alguns denominam novo conservadorismo. Trata-se de uma concepção arraigada ao senso comum e, no entanto, coadunada à ideologia das classes dominantes: simpatizante do autoritarismo, nostálgica de retrocessos e, geralmente, comprometida com as agendas das elites e dos grupos de direita.

Esse surto conservador do século 21, embora com roupagens novas, encontra-se, aliado à defesa de antigos jargões: a famigerada “moral e os bons costumes”, os interesses religiosos, da “tradição, da família e da propriedade”, os direitos dos “cidadãos de bem”.

A moral defendida por essa concepção de mundo é, na verdade, um moralismo enrijecido e hipócrita que nega o dinamismo da história e a pluralidade cultural. Os “bons costumes” a que se referem são sempre relativos a um mundo que só existe idealmente.

A expressão “cidadão de bem” revela uma noção restrita de cidadania que os representantes desse novo conservadorismo reivindicam. O cidadão pleno seria apenas o eleitor, contribuinte, consumidor, totalmente incluído no sistema capitalista que, por sua “boa conduta”, sente que deveria ser de certa forma, “beneficiado” pelo sistema. E, como se os direitos humanos não fossem universais, sente-se afrontado quando grupos historicamente negligenciados são lembrados pelas políticas de Estado, como é o caso das ações afirmativas, dos sistemas de cotas, dos programas assistenciais, do acesso ao crédito concedido aos mais pobres, da ascensão da classe média etc.

O modelo familiar considerado exemplar fundamenta-se, em geral, em concepções religiosas que ignoram as diferenças. A defesa da tradição configura-se como saudosismo em relação a um mundo que nunca existiu. Apresenta-se revestida de embusteiros aspectos aparentemente inovadores, mas, todavia, absurdamente retrógrados. Por exemplo, em nome da democracia, defende-se o uso da força e do autoritarismo. Pela liberdade (da maioria), tolera-se a discriminação das minorias. Pela igualdade de direitos, luta-se contra os programas sociais e os direitos humanos. Em nome da ordem, ignoram o conflito. Sob a justificativa falaciosa da meritocracia, aceita-se a desigualdade.

Todos esses aspectos corroboram a ideia de que as teses deste conservadorismo contemporâneo favorece a manutenção do staus quo, dos interesses das classes e grupos historicamente privilegiados pelo capitalismo.

Essa visão de mundo, não seria um problema se não se materializasse através da exclusão social, da hostilidade em relação ao diferente, da criminalização dos movimentos sociais e da defesa dos direitos humanos, da marginalização dos beneficiados por programas assistenciais, do racismo, do elitismo, da homofobia, da discriminação, do preconceito cultural, regional e religioso e da intolerância.

Mauro Sérgio Santos
Professor de Filosofia

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