Pão e circo é pouco
*Por Cezar Honório Teixeira
Em plena Copa das Confederações, quem diria, não se fala em outra coisa senão nas manifestações populares que se espalham pelas principais cidades brasileiras. Onde está o país que só pensa em futebol e não se indigna com nada? Vivemos um novo Brasil. Também não é para tanto. Ao menos não ainda. O mais interessante nesse movimento popular é que, na prática, nenhuma teoria se aplica à dinâmica do movimento. Quando começaram as manifestações nas proximidades dos estádios, alguns diziam que, se o Brasil perdesse o torneio, o clima ficaria tenso. O Brasil goleou o Japão, mas nem por isso os protestos arrefeceram. Pelo simples fato de que a indignação popular não se resume a quanto foi gasto nos estádios da Copa ou mesmo no custo da tarifa do transporte público. É tudo isto e muito mais.
Cadê o fim?
Provavelmente por ser jornalista, pessoas têm me perguntado, algumas com cara de assustadas, no que dará esse movimento popular. Transcrevo aqui a minha resposta: não tenho a menor ideia. Justamente por não saber, repeti a pergunta ao jovem estudante Max Ziller, coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE-UFU), membro do movimento em Uberlândia. Sabe o que ele disse? Que também não tem a menor ideia. A íntegra da resposta do Max e a análise das manifestações feitas pelos professores João Batista Domingues Filho (cientista político) e Sebastião Vianey (professor de Antropologia) estão no CORREIO TV Debate que será exibido nesta sexta-feira, às 11h, com reprise no domingo, às 21h, no Canal da Gente (canal 15 da TV a cabo CTBC).
Futuro incerto
O fato é que quem imaginava que Dilma Rousseff (PT) teria vida ainda mais fácil para se reeleger em ano de Copa do Mundo já começa a pensar diferente. Imaginou se os protestos se fortalecerem justamente durante a Copa, período coincidente ao início da disputa eleitoral? Por outro lado, não há sinais de que a oposição sairá lucrando com o movimento popular que está em plena ebulição. Aliás, uma das características do movimento, até o momento, é a aversão à política partidária. Não me lembro de manifestações de rua nos últimos 30 anos sem as tradicionais bandeiras partidárias, principalmente aquelas características de legendas e organizações de esquerda. Uma prova de que o fenômeno atual é bem diferente das Diretas Já ou mesmo do que resultou no impeachment do ex-presidente Fernando Collor.
Juntos para sempre
No movimento popular em curso, há um proposital descolamento das ideologias partidárias. Provavelmente reflexo da ascensão do PT ao poder cujo discurso sofreu mudanças radicais e, por consequência, uma inevitável aproximação da ideologia de centro-esquerda. Leia-se social democracia tucana. Ou seja, os partidos, faz algum tempo, estão muito parecidos. Para não dizer idênticos. Tanto que, em São Paulo, o governador do PSDB, Geraldo Alckmin, e o prefeito petista, Fernando Haddad, se uniram no discurso contra a redução nas tarifas do transporte público. Em uma só voz, bradaram: “não voltaremos atrás no preço da passagem”. Já começam a sinalizar o contrário.
Eleitores órfãos
Como o discurso radical de partidos como PSTU e PSOL não evoluiu um milímetro sequer, este povão que ganha as ruas deixa claro que não se sente representado por nenhuma legenda partidária. Resultado: os políticos, de maneira geral, estão completamente perdidos. A única coisa de que têm certeza é que estão completamente desconectados dos anseios da maioria da população. Por consequência, a maioria assiste a tudo a distância com medo de virar alvo dos manifestantes. Nem aquela turminha oportunista que existe em todos os partidos se aventura a pegar carona nas manifestações.
Brasil mais forte
O fato é que vivemos um momento ímpar na histórica política brasileira com potencial para um desfecho positivo. Ou seja, com capacidade de tornar o Brasil melhor. A presidente Dilma Rousseff se apressou em se posicionar depois de ver a grandeza das manifestações de segunda-feira (17). Disse que o país amanheceu mais forte. Resta saber para que lado essa força atuará nas eleições gerais do ano que vem.