A morte da bezerra
O bão mesmo seria pensarmos somente na morte da Morte, mas não adianta porque a Morte é imortal, que nem membro de academia de letras. A bezerra, em cuja morte tenha pensado, era linda, amarela, posto que filha de uma vaca amarela, que não é aquela que obrou na panela e mexeu, mexeu e, como você falou primeiro, comeu. Eu quis namorar aquela bezerra.
Como não me deu bola, chamei-a de “filha de uma vaca”. Ela não se importou. Se fosse uma jovem da raça humana, por certo, não gostaria. Acho este não gostaria injusto. Ora, a vaca é legal e a principal dadeira de leite ao bicho homem, de mamando a caducando. A vaca não é nem um pouquinho apegada a bens materiais: não há notícia que vaca alguma tenha chorado o leite derramado. Para ela, derramou, tá derramado. Não é ridica. No entanto, fica chateada com aquela de estar sempre dando leite aos marmanjos de todos os sexos do ingrato gênero Homo, ao invés de dá-lo apenas a seus queridos filhinhos, os bezerros e as bezerras. Outra mágoa da vaca é aquele negócio besta chamado inseminação artificial, que a priva de ser docemente amada pelos lindos e sarados touros da fazenda. Fica na sinuca quando um filho quer saber quem é seu pai. Não há como dizer ao pimpolho: “Aquele bonitão lá, de pescoço grosso, é o seu pai. Foi o meu maior amor”.
Ela, “enquanto vaca”, tem medo de ir pro brejo, local em que poderá virar vaca atolada. É por isso que sempre dá conselho às filhas dela: “Mesmo na maior sequidão deste Nordeste, não se metam a entrar no brejo a fim de uma moita de capim verde. É melhor esperarem São Pedro mandar chuva. Ou aguardarem as águas do Velho Chico que o governo Lula vai desviar para cá”.
Gosto de pensar na morte da bezerra, mesmo sem saber se ela morreu. É a maneira que tenho de não pensar em mais nada. Hoje em dia vale a pena pensarmos apenas em mais nada. Quanto trem ruim existe agora no mundo! Temos netos e teremos bisnetos. E o futuro, que a Deus pertence, é como um gato preto a se esgueirar no breu da noite. Atinei que existe o mantra. Fui no Aurélio conferir. Aprendi que o mantra “é instrumento para conduzir o pensamento”. Pensar na morte da bezerra é o mesmo que não pensar. É, pois um mantra a devorar as minhocas que costumam morar no meu “encéfalo absconso”.
É bom que exista bezerra neste mundo. Ela tem, no mínimo, duas inestimáveis virtudes: ofereceu-me a possibilidade de pensar na morte da bezerra, além de um dia, virar vaca, a “Mãe do Ano” de todos os anos.
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