Clarimundo Campos

Crônicas especiais

Crônicas Há mais de 22 anos escrevendo Crônicas, na premissa de trazer diversão aos leitores e a mim mesmo, com as amenidades do dia-a-dia. A coluna é publicada aos domingos no CORREIO de Uberlândia.

17/04/2011 6:00

Os habitantes de Fiofópolis

Engenheiro Agrônomo aposentado

A vocação dele é ser turista. Porém, não tem posse para tal. Resta-lhe chorar o pouco que ganha. E ter inveja e raiva de deputado federal, o qual embolsa, em menos de um mês o que ele ganha em um ano. Então, para “turistar”, o jeito foi virar representante comercial de uma grande firma, com o trato de visitar até os lugarejos que ficam para lá do fiofó do conde. Era o que queria. Não pensava em Nova York ou Paris. Preferia curtir as belezas naturais do Brasil. Preferia as cidades pequenas, onde há sossego e todos são amigos. Ali ninguém mata ninguém. Porém, antigamente, meter a mão na cara de alguém ou xingar uma pessoa de filho de uma quenga, aí era morte na certa.

É claro que ele visitaria as grandes e progressistas cidades. Certa vez esbarrou num vilarejo muito esquisito localizado em um cerrado de terra arenosa. Porém, à esquerda, corria um “corgo” no meio de um brejo. De cara, notou que ali reinava um paradeiro danisco, e que o povo lá era preguiçoso, a começar pelo dono da pensão. Ele ficava sempre sentado com as pernas cruzadas. Gemia muito quando era obrigado a se levantar.

O viajante ficou sabendo que as mulheres com mais acentuado instinto de maternidade, todas com teia de aranha, iam à cidade mais próxima a fim de gravidez. É que os homens dali tinham preguiça até de fazer filho. Quando descobriram que o viajante não era preguiçoso deram em cima dele. Ainda bem que elas lhe davam também muita gemada.
A única rua tinha casas de um lado só. Assim, ninguém precisava atravessá-la para ir ao vizinho, à venda ou à igreja na qual, por preguiça, não se rezava.

Vários homens parrudos estavam sentados num banco rente às casas. Estavam vendendo pasmaceira e comprando boca aberta. Outros jogavam truco sentados em redor de uma mesa. O viajante puxou conversa com um deles:

- O que vocês fazem aqui em Fiofópolis além de ficarem à toa?
- Nóis roçava pasto, esgotava brejo, capinava as roça dos fazendeiro aqui de perto.
- E agora?
- Nada. Pensa que nóis é besta? O guverno dá pra nóis uma cesta de mantimento e um tar de borsa famia. Trabaiá? Só se nóis fosse besta.

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