Dois honestos
Sou honesto desde criancinha. Não digo modéstia à parte porque toda gente tem essa obrigação. Vou contar como conheci, no Rio de Janeiro, um sujeito tão honesto quanto eu. Antes, porém não resisto à tentação de falar de coisas boas da Cidade Maravilhosa dos anos 40. Visitei quase todos os pontos turísticos de lá.
Frequentei a praia de Icaraí, em Niterói, posto que curtia uma namorada peituda que lá residia. Estive na Ilha de Paquetá. Não gostei da praia de lá, mas vi a famosa Pedra da Moreninha. Estive no Pão de Açúcar, Corcovado, Jardim Botânico. Frequentei as praias Vermelha, do Leme, e do Posto 6, de Copacabana. Dei uma volta no circuito da Gávea em companhia de um amigo. Estive em Mangaratiba e verifiquei que aquela praia é muito ruim. Estive no Cassino da Urca, onde assisti a um show de Grande Otelo e da Dircinha Batista.
Frequentei a famosa Praça Tiradentes a fim de assistir a shows de mulheres com monumentais seios desnudos. Adorei as chanchadas de Oscarito e a uma apresentação da desbocada Dercy Goncalves. Na Cinelândia curti o ar-condicionado dos cinemas, e quase sempre em doces companhias. Tomei o melhor chope do mundo no Bar da Brahma, na Galeria Cruzeiro.
Até mineiros baixaram naquele bar. Certa vez, um deles pediu ao garçom: “Não precisa mais trazer aquelas bolachas. Não gostei delas”. Tais bolachas eram as rodelas de papelão sobre as quais eram colocados os copos.
Enfim, curti a alegria do povo carioca, a tranquilidade e a segurança existentes no Rio de Janeiro, inclusive na Rua Conde Laje, da Lapa.
Na Cinelândia conheci uma pessoa tão honesta assim como eu. Era um camelô. Apregoava uma de suas mercadorias assim: “Eu não sou, eu não sou nenhum desses camelôs que andam por aí com mala e cobra a tapear o público. Vendo caneta Parker ou, melhor, imitação da caneta Parker”.
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