Clarimundo Campos

Crônicas especiais

Crônicas Há mais de 22 anos escrevendo Crônicas, na premissa de trazer diversão aos leitores e a mim mesmo, com as amenidades do dia-a-dia. A coluna é publicada aos domingos no CORREIO de Uberlândia.

11/09/2011 1:25

Quase meio século depois

Engenheiro Agrônomo aposentado

Pela estrada do tempo, em 1931, eu ia namorar minha primeira namorada. A casa dela ficava numa grota do Timbó. Sua família era assim: pai, que jamais vi, mãe e duas irmãs. Nosso namoro era chué. Não havia assunto nem rádio nem vitrola. Ninguém matava ninguém. Não havia assaltos nem desastres nas estradas, as quais eram ótimas para os carros de boi. Era aquela pasmaceira. Somente o tempo variava. “Tá um calor… tomara que chovê logo…”

Minha ex-futura sogra estava quase sempre sentada no banco mais próximo dos quartos e da cozinha. Queixava-se constantemente de “gripe intestinal”. Jamais perguntei a médico que diabo era aquilo. Achava que fosse piriri crônico. Sua filha mais velha namorava um roceiro, no alpendre. A minha era a mais nova e a do meio estava sempre a zanzar dentro de casa.

Às vezes, minha namorada e eu ficávamos debruçadas na janela da sala com os narizes achatados no breu da noite. Mesmo assim, não tive coragem de verificar a firmeza dos seios dela, embora vivesse doidinho para fazê-lo. Eu ainda não sabia do macete para alcançar aquele objetivo, o qual foi usado por outro roceiro. Ele fazia assim: segurava a mão da garota e se punha a acariciá-la, dizendo, a cada movimento: mão, mão, mão… Quando passou para o braço, falava: braço, braço, braço… Mais acima, era muque, muque, muque… E, num repente, agarra-lhe o seio e dizia: Eta mucão!

É de propósito que não anoto nem deixo na memória as datas dos falecimentos de pessoas que amei e curti. É que elas estão vivas dentro de mim. Somente morrerão comigo. Sempre desejei me encontrar com os amigos e parentes que ficaram no passado. Principalmente com as namoradas que tive. Tal fato aconteceu uma única vez. Deu-se em 1979, quarenta de sete anos depois que o nosso namoro teve fim. Eu descia um morro, entre várias pessoas, quando fui abordado por uma mulher de boa aparência, modestamente vestida. Ela me cumprimentou e, percebendo que eu não sabia quem era ela, disse-me: ”Eu sou a Dila”.

Sim, era a Dila, minha primeira namorada, aquela que morava no Timbó, zona rural de Cachoeiro de Itapemirim, perto da minha Ortiga, onde fui criado e muito feliz.

Era a Dila. Porém, me comportei como um grosso, um paspalhão. Deveria ter iluminado o rosto com um sorriso de contentamento, bater um papo com ela para saber de sua vida, onde estava morando, se tinha filhos e perguntar por suas irmãs Deusy e Dilma. E agradecer a sua presença ali no cemitério, onde acabávamos de sepultar aquela que mais amei e ainda amo, minha santa Mamãe Adriana.

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