As onças do Brasil
Na minha saudosa molequice, urtiga era ortiga e urubu era orubu. Em nossa casa usávamos palavras muito particulares. Recruta era reculuta; gente e animal debilitado estava candengue; sujeito pão-duro era cano de ferro; o cara que estava a tocar negócio do qual pouco entendia, dizíamos que estava piuco; estilingue era seta; espacuchinho era uma plaina pequena usada pelos carapinas; pichelete era uma pecinha de madeira que servia para manterem afastadas as cordas do bodoque.
Havia passarinhos de Deus, como o beija-flor e a garricha. Eu jamais sentava pelotas neles, assim como nos canoros, entre os quais se destacavam curió, gaturano e tempera-viola. Mas eu tentava matar papa-capins que também papavam os grãos de arroz quando estavam leitosos. Eram papa-capins quando comiam as sementes do capim Pernambuco, a pastagem mais comum de lá, que é tal qual a grama cuiabana daqui. Eu cuidava de matar pássaros comíveis, como rolinha e saracura.
Agora, tendo consciência ecológica, lamento haver acabado com a raça de uma saracura carijó. Elas viviam nas vargens, geralmente dentro de arrozal. Ali eu armava laços e, no mesmo dia, eu as encontrava enforcadas. Nunca mais vi ou ouvi falar das lindas e gordinhas saracuras carijós.
Os passarinhos bons de canto e de lindas plumagens baixavam na Ortiga por causa da fartura de frutas. Animais de pelo eram raros. O que pintava em nosso quintal era o gambá, sempre a fim dos ovos das nossas galinhas. De onças, nem rastros. Vi-os apenas no barro da margem de um igarapé, em Rondônia. Não fiquei com medo deles. Nunca tive medo de onça. Mas agora eu o tenho.
Todos os brasileiros deveriam temer as Onças do Brasil. Cito apenas algumas: governo falido, Ministérios demais, Copa do Mundo, Olimpíadas, corrupção e fedaputagem generalizada, o Lula, outros políticos e a China. Parlamentares aporrinham a presidenta Dilma. Querem que seja instituído mais um cabide de sinecuras, ou seja, o Ministério da Titica preta da Galinha preta. E, para salvar a saúde, o Ministério das Macas nos corredores.
Comentários 0