Ela não morreu em pé
Carrego muitas saudades na velha cacunda. Dos meus pais e irmãos, meus amigos e namoradas. Até de plantas. Senti muito o infortúnio de duas árvores. Uma delas era uma jovem corindibinha viçosa, bacana. Estava com cara de virar uma árvore igual àquela que sombreava o terreiro da cozinha da nossa casa. Quando ela estava carregada de frutinhas maduras, alegres e lindos passarinhos faziam ali a maior festa. A saíra sabia apenas piar, mas era a mais bonita.
O gaturano, além de ser lindíssimo, vivia a imitar o canto de todos os passarinhos da redondeza. Assim vivia a minha saudosa corindiba. Vi apenas três corindibas em Uberlândia. Uma, no Clube de Caça e Pesca; outra, numa fazenda. A terceira teve o azar de nascer rente à parede de uma área coberta de mato, a qual estava sendo preparada para receber um belo pavimento. É que estava em reforma a Clínica de Medicina Interna (CMI), a qual é, agora, a Clínica Aragom, dos competentes médicos. doutores Messias e Dayton. Quando vi uma enxada nas mãos de um operário, conclui que estava diante do carrasco da linda e jovem corindibinha. Quase chorei.
As corindibas que me perdoem, mas chorei mesmo foi por outra árvore, uma amiga de infância. Há uma grota entre duas montanhas de granito pouco acima de nossa casa, na roça em que fui criado. Notei que a copa de uma das árvores daquela mata se destacava das outras. Com o passar de muitos anos, lá estava uma copa bonita, um caule grosso, esbranquiçado, rendondo e liso. Era um formidável pé de jequitibá.
Tive que meter a cara no mundo. Empregos, esforço de guerra. E pela vida fui caminhando. A última vez que fui matar saudades dos meus parentes e amigos lá na minha Ortiga, notei a ausência daquela amiga da minha juventude. Sumiu. Justo ela que deveria morrer em pé, após reinar, durante séculos, entre aquelas montanhas de granitos.
Chorei, meninos, chorei!
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