Catita não é vaca amarela
Estive muito animado num pagode que houve na Gruta, perto de nossa casa. Movido a umas e outras, resultei alegre e mais falante do que a mulher do homem da cobra. Quando peguei a estrada da nossa casa, o Sol já estava nascendo. Logo avistei um cavalo a passar atrás da cerca de arame farpado. Como havia falado muito, resolvi checar o ditado que diz “quem fala muito, dá bom dia a cavalo”.
− Bom dia, seu cavalo.
− Bom dia. Mas não sou cavalo não. Sou uma égua. Não me importo de ser confundida com cavalo. Tem gente que até me chama de cavalo de maminha. Só não gosto que chamem mulher rameira de aquela égua.
Foi por causa daquele papo com égua, que, no dia seguinte, fui conversar com uma vaca, minha conhecida.
Encontrei-a numa granja que explora as vacas boas leiteiras. Foi uma agradável surpresa. Fiquei muito contente por haver reencontrado a Catita, com a qual convivi numa fazenda comum. Notei que ela me reconheceu. Pedi-lhe que me falasse de sua vida.
− Eu era mais feliz naquela fazenda. Eu bestava para todos os lados. Uma vez, uma das minhas amigas foi para o brejo a fim de uma moita de capim verde. E resultou atolada. Nada pude fazer por ela. Ficou lá muito triste, com “cara de vaca atolada”.
− Por que você veio para cá?
− Por que sou boa leiteira e não escondo leite. Vim na marra. Aqui sou bem tratada. Mas não presta não. Lá os touros trepavam em mim. Era o amor. Eu podia falar para um filho: Tá vendo aquele touro bacanão? É o seu pai. Aqui, nem cheiro de touro. Os homens fazem umas coisas esquisitas comigo e eu acabo prenha. Ai, que saudade daquela fazenda! Teve uma vez que até chorei o leite derramado. Os meninos estavam levando o meu leite para casa. Justo o que estava levando o caldeirão com o leite, deu um trupicão. Chorei de pena deles: eu não tinha mais leite naquele dia.
− Você é muito boa, legal e humana. Merece o reconhecimento da humanidade. Quando chegar o tempo de os parlamentares virarem amigos de todo o mundo, a dar tapinhas carinhosos em nossos ombros, vou conseguir que a câmara lhe preste uma justa e merecida homenagem. Você vai receber o título de “Mãe do Ano de todos os anos”.
Votem na Catita. Não é aquela que estercou na panela, e que alguém mexeu, mexeu e, depois, comeu. Ela não é a vaca amarela.
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