Clarimundo Campos

Crônicas especiais

Crônicas Há mais de 22 anos escrevendo Crônicas, na premissa de trazer diversão aos leitores e a mim mesmo, com as amenidades do dia-a-dia. A coluna é publicada aos domingos no CORREIO de Uberlândia.

22/01/2012 0:49

Santo remédio: chá com fé*

Engenheiro Agrônomo aposentado

Eu era molecote. Morava na roça, mas estudava no único ginásio de Cachoeiro de Itapemirim (ES). Enfrentava mais de uma légua, subindo e descendo morros, com sol ou com chuva. Nada sabia da vida. Porém, uma noite, logo após fazer xixi no terreiro, embaixo de um fantástico céu estrelado, tive o prazer de ouvir o meu Destino.
Disse-me que eu deveria imitar o jeito de viver do meu pai: ser honesto, não mentir, ser franco sem ser rude, gozador sem ser ofensivo, ser do batente, viver cantando ou assobiando, ser pândego e alegre, e viver sempre cangado e ajoujado à Lógica.

Acatei as dicas do Destino. Por causa do meu apego à Lógica foi que fiquei cabreiro quando li que um médico disse que o chá de quebra-pedra é um mito. Baseado na Lógica, conclui que o ilustre doutor está equivocado e incoerente, já que ele mesmo recomenda-nos muito líquido para evitar e até expelir os tais cálculos renais.
Então, pela Lógica, devemos tomar chá à beça contra as pedras nos rins, não só de quebra-pedra, como de uma montoeira de outros. A lista é enorme. Cito, pois, somente os mais eficazes e encontradiços: abacateiro, cabelo-de-milho, chapéu-de-couro, manacá, picão, parafuso, brita, seixos rolados, casca de ferida, casca de ovo, bola de gude, alça de sutiã velho, grampo de cerca, cavanhaque de bode, sola de botina velha, óxido de diidrogênio (H2O). E muitos outros. Funcionam, mas é preciso tomá-los com muita fé. E ter fé firme e forte em você mesmo e, principalmente, em Deus, mesmo que seja ateu. A fé só não funciona contra absurdos.

Os roceiros do Rolo das Pedras estavam amargando uma seca prolongada. Já não aguentavam mais. Então organizaram uma procissão e partiram para o cruzeiro do alto do morro. Muitos levavam água para atender à simpatia de molhar o pé da cruz. Teve um, de tão crente, levou um guarda-chuva. Os fiéis foram cantando: “Meu São Sebastião, pai da caridade, livra nóis da peste e necessidade”.

Mas a chuva demorou a chover. Foi porque São Sebastião, para não passar por cima da autoridade de São Pedro, o manda-chuva do Universo, foi confabular com ele a respeito daquele assunto.

Finalmente, choveu. Voltou o verde dos pastos e os agricultores puderam plantar suas lavouras. Valeu a fé da gente do Rolo das Pedras. Será que vai chover até no deserto de Atacama? É claro que sim, nem que seja dentro de uns 400 anos. “A fé remove montanhas” e faz até o impossível acontecer.

*Republicada

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