Antes dos tempos modernos (93)
Fui um dos escolhidos pela diretoria da Sotreq para fazer um curso sobre serviços mecânicos da John Deere, em Rosario, Argentina. Éramos três engenheiros vendedores e o chefe da oficina da matriz, Rio de Janeiro. O que mais me impressionou no aeroporto de Buenos Aires foi o tantão de enormes cartazes com os nomes de Peron e Evita. Notei, depois, que havia, em toda a parte da Argentina, ao lado das obras públicas em andamento, um baita cartaz com os dizeres: “Peron cumple. Evita dignifica”.
À tarde do mesmo dia tomamos um trem para Rosario. O nosso curso aconteceu numa grande oficina da Agar Cross, distribuidora dos produtos John Deere. Os instrutores eram americanos, o que me levou a exilir um pouco do meu inglês que veio da Rubber. Fui à Argentina sem arranhar sequer o portunhol. Mas não fiquei o tempo todo grudado aos colegas brasileiros. Relacionei-me com vários muchachos de lá. E o importante foi que nos entendemos muito bem.
Tanto Rosario, uma cidade do porte de Uberlândia de hoje, como em Buenos Aires, andar de táxi era baratinho. Por isso, pudemos conhecer os lugares mais importantes daquelas cidades. Mês de outubro, mesmo assim enfrentamos um frio chato, porque choveu. O meu expediente foi comprar um mameluco (macacão) e usá-lo em cima do terno.
Há muito o que relatar sobre aquela viagem. Vou ficar apenas com o que os Buenos muchachos de lá me contaram. Antes, porém, vou me gabar: na prova final fui o único da minha turma a tirar 10, a nota máxima.
Certa vez, voltando de uma fazenda, numa velha jardineira, um colega argentino me disse: “Quanto aviso! Só falta avisar que é proibido correr las chicas”. Neste ponto, esclareço que correr é transar.
Outro muchacho me disse que no Chile correr um táxi é tomar um táxi, mas o correr na Argentina é outra coisa. Foi daí que um sujeito, em Buenos Aires, disse a uma gostosona de Santiago que lhe perguntou onde poderia correr um táxi. Ele respondeu: no caño de escape.
Um rapaz, que não era fanático por Peron e Evita, ensinou-me a equação para determinar um cavalo de força, o Horse Power, o tal HP. Ele escreveu assim: “P/E =HP”. E me explicou: “Peron sobre Evita é igual a um Hijo de La Puta”. Entendi tudo: já sabia que hijo é filho.
Gostei da Argentina. Tudo Bueno: Buenos Aires, Bueno Rosario, buenas chicas, Buenos muchachos. Não deu, infelizmente, para eu correr las buenas chicas de lá.
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