Clarimundo Campos

Crônicas especiais

Crônicas Há mais de 22 anos escrevendo Crônicas, na premissa de trazer diversão aos leitores e a mim mesmo, com as amenidades do dia-a-dia. A coluna é publicada aos domingos no CORREIO de Uberlândia.

22/04/2012 7:02

Tico-tico comunica e se trumbica

Engenheiro Agrônomo aposentado

Nasci durante I Guerra Mundial, quando era presidente da República o dr. Wenceslau Braz Pereira Gomes. Havia muita madeira de lei, palmitos doces, caças e até macucos na Mata Atlântica. Como testemunhar ocular, sei que ela estava virando cafezais e pastos. Havia muita prosperidade, pois ainda não existia a broca do café. Ela apareceu de supetão nos cafezais do Espírito Santos, por volta dos anos 30. Ninguém sabia como enfrentá-lá. Tamanho foi o estrago que os fazendeiros começaram entregar aos colonos sítios e pequenas fazendas.

A broca do café foi, ali, a mais batuta promotora de uma definitiva reforma agrária. Alguns anos depois, começaram a baixar nos sítios muitos passarinhos atraídos pelas frutas. Predominavam as goiabeiras, posto que eram “plantadas” por eles. Quanta alegria! Os passarinhos, além de ser entenderem, alguns sabiam falar que nem os humanos.

O Bacurau, também conhecidos por curiango, era considerado mentiroso: todas as noites, no meio da estrada, ele dizia “amanhã eu vou”. No entanto, na noite seguinte, lá estava ele a anunciar a mesma coisa. Longe, muito longe, em tardes ensolaradas, um passarinho reclamava dizendo “Tempo quente”. Quanto estava com fome, pedia “Peixe frito”. O bem-te-vi era o mais chato e indiscreto. Certa vez, ele viu um português estercando o chão entre moitas de assa-peixe. O lusitano não gostou e lhe disse: “Biste, ou não biste, cala-te o vico”.

A saracura, lá no brejo, estava sempre a dizer “Três cocos”. Mas, às vezes, dizia “três potes”. Baixou na reunião alguém que estava sempre falando Quero-quero, mas não informava o que queria. Quando a rolinha, vindo de longe, das Macaúbas, e comunicou “Fogo apagou”, houve uma explosão de alegria: todos sabiam que fogo é fogo. O Tico-tico lamentou “O dia passou à toa, à toa”. Todos, apesar de terem penas próprias, ficaram com muita pena dele: sabiam que é terrível viver à toa.

O Godero não sabe falar como gente, mas se entende com os outros pássaros. Ele disse: “Eu posso resolver o problema do Tico-tico. Vou mandar a minha Godera botar seus ovos no ninho da Tica-tica”.

Foi assim que os Tico-ticos arranjaram sarna para coçar. É que nasceram uns negros grandes e esganados que viviam, o tempo todo chiando, com os bicos abertos, a fim de comida. Que estucha!

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