Mestre Ivan, por que Juazeiro?
Minha primeira namorada da cidade, a Carmen Teodoro, morava longe, já que era no Guandu, perto da Fábrica de Tecidos. Somente no fim da rua Moreira é que eu atravessava o Itapemirim pela Ponte Municipal. Já na margem direita do rio e após caminhar mais um pouco, chegava à Praça Jerônimo Monteiro. Nela, à esquerda, havia jardim, bancos, árvores e o grupo escolar do mesmo nome. À direita do outro lado da rua, um correr de casas com todas as comodidades de uma cidade, inclusive dois cinemas e residências de gente rica. Ali aconteciam os animadíssimos carnavais de rua e o footing. O Carlos Imperial nasceu lá. Ainda jovem, foi para o Rio de Janeiro e virou um dos mais famosos cafajestes do Brasil. É autor de uma canção que começa assim: “Hoje amanheci com saudade de você. Beijei aquela foto que você me ofertou, e fui sentar lá no banco do jardim só porque foi lá que começou o nosso amor”. De fato, ali aconteciam os flertes e começaram os namoros. Foi o que se deu comigo e a Carmen. Nosso namoro funcionava durante minhas férias de Viçosa. Era sem graça e chué, já que eu não podia sequer pegar-lhe nas mãos. Foi fácil acabar com ele: não fui mais ao Guandu e, quando a via no footing, não lhe dava bola.
Na noite passada sonhei que estava indo à casa da Carmen. O centro da cidade estava totalmente às escuras. Não havia uma só janela iluminada. Meus pés estavam frios, já que, na praça, caminhava sobre um gramado úmido. Na realidade, estava a dormir na minha cama. Sentia os pés frios porque estavam descobertos. Era o sonho a me proteger o sono.
Saindo da praça, em frente ao estacionamento dos táxis, deparei-me com uma grande sala iluminada, cuja porta era da mesma largura. Não era um bar. Havia várias mesas com cadeiras ao lado. Numa delas havia três homens esquisitos e calados. Sentei-me longe deles. Logo que o fiz, eis que me aparece o Ivan Santos. Sem me cumprimentar, foi logo dizendo: “Adorei Cachoeiro, cidade quente de gente alegre e alma quente. Camarada, amável e acolhedora. Em toda parte em que estive, senti-me como gente de casa. Mas, infelizmente, vim-lhe dizer que estou partindo para Juazeiro”.
Levantei-me e nos abraçamos. Chorei. E, chorando, lembrei-me de que o segui para quase todos os jornais de Uberlândia. E que, em outubro de 1988, quando este jornal passou a ser realmente diário, graças ao Ivan, foi publicada minha primeira crônica, intitulada “O desconfiômetro”, aparelho equipado com um plugue anal de duas polegadas de diâmetro para ser instalado no Newton Cardoso.
O sonho aconteceu. Aproveito esta ocasião para me gabar: durante aquele montão de anos não falhei um só domingo. Saravá, caro Ivan!