Clarimundo Campos

Crônicas especiais

Crônicas Há mais de 22 anos escrevendo Crônicas, na premissa de trazer diversão aos leitores e a mim mesmo, com as amenidades do dia-a-dia. A coluna é publicada aos domingos no CORREIO de Uberlândia.

19 de maio de 2013 6:51

Mestre Ivan, por que Juazeiro?

Engenheiro Agrônomo aposentado

Minha primeira namorada da cidade, a Carmen Teodoro, morava longe, já que era no Guandu, perto da Fábrica de Tecidos. Somente no fim da rua Moreira é que eu atravessava o Itapemirim pela Ponte Municipal. Já na margem direita do rio e após caminhar mais um pouco, chegava à Praça Jerônimo Monteiro. Nela, à esquerda, havia jardim, bancos, árvores e o grupo escolar do mesmo nome. À direita do outro lado da rua, um correr de casas com todas as comodidades de uma cidade, inclusive dois cinemas e residências de gente rica. Ali aconteciam os animadíssimos carnavais de rua e o footing. O Carlos Imperial nasceu lá. Ainda jovem, foi para o Rio de Janeiro e virou um dos mais famosos cafajestes do Brasil. É autor de uma canção que começa assim: “Hoje amanheci com saudade de você. Beijei aquela foto que você me ofertou, e fui sentar lá no banco do jardim só porque foi lá que começou o nosso amor”. De fato, ali aconteciam os flertes e começaram os namoros. Foi o que se deu comigo e a Carmen. Nosso namoro funcionava durante minhas férias de Viçosa. Era sem graça e chué, já que eu não podia sequer pegar-lhe nas mãos. Foi fácil acabar com ele: não fui mais ao Guandu e, quando a via no footing, não lhe dava bola.

Na noite passada sonhei que estava indo à casa da Carmen. O centro da cidade estava totalmente às escuras. Não havia uma só janela iluminada. Meus pés estavam frios, já que, na praça, caminhava sobre um gramado úmido. Na realidade, estava a dormir na minha cama. Sentia os pés frios porque estavam descobertos. Era o sonho a me proteger o sono.
Saindo da praça, em frente ao estacionamento dos táxis, deparei-me com uma grande sala iluminada, cuja porta era da mesma largura. Não era um bar. Havia várias mesas com cadeiras ao lado. Numa delas havia três homens esquisitos e calados. Sentei-me longe deles. Logo que o fiz, eis que me aparece o Ivan Santos. Sem me cumprimentar, foi logo dizendo: “Adorei Cachoeiro, cidade quente de gente alegre e alma quente. Camarada, amável e acolhedora. Em toda parte em que estive, senti-me como gente de casa. Mas, infelizmente, vim-lhe dizer que estou partindo para Juazeiro”.
Levantei-me e nos abraçamos. Chorei. E, chorando, lembrei-me de que o segui para quase todos os jornais de Uberlândia. E que, em outubro de 1988, quando este jornal passou a ser realmente diário, graças ao Ivan, foi publicada minha primeira crônica, intitulada “O desconfiômetro”, aparelho equipado com um plugue anal de duas polegadas de diâmetro para ser instalado no Newton Cardoso.

O sonho aconteceu. Aproveito esta ocasião para me gabar: durante aquele montão de anos não falhei um só domingo. Saravá, caro Ivan!

12 de maio de 2013 6:33

Nem angu, nem biju

Engenheiro Agrônomo aposentado

Na Ortiga eu não era mais o menino Tina que só brincava com os irmãos. Era um moleque taludo e libidinoso. Se, que vivia a escarapetear com os malungos por toda parte. Meu apelido era Marimbondo. Meus principais companheiros eram Crima, Baé, Jabá, Gadogué, Proga e Banana Ouro. Nossas principais brincadagens eram caçar passarinhos e jogar bolas de vidro, as quais, não raramente, eram substituídas pelas balebas. Outra grande atividade era pricurar frutas para comer e cana caiana para chupar. De primeiro, caçávamos com bodoque, um trambolho difícil de se andar com ele dentro das capoeiras. Com o aparecimento dos automóveis e caminhões, o bodoque foi substituído pelas setas, os atuais estilingues. O primeiro carro a passar pela estrada da Ortiga foi um Ford. Depois apareceu o Chevrolet Pavão, mais macio, mas com grave defeito de serem de madeira os raios das rodas.

O Crima era o mais craque na pontaria com a seta, mas o maior feito foi meu: matei uma saracura em pleno voo. Não caçávamos passarinhos pequenos. Porque eram de Deus. O único pequeno que matávamos era o papa-capim, também conhecido por papa-arroz. É que eles causavam grandes estragos em nosso arroz.

Eu fazia minhas pelotas com tabatinga e as queimava numa frigideira velha. A mamãe fez pra mim um imbornal de pano de calça rancheira. Uma vez o Baé e eu estávamos indo pricurar goiabas do outro lado do taboal. No meio do caminho ele me chamou para trocar. Reagi: “Cachorro, vai trocá com um jumento”!

A Ritinha, filha do carreiro Cristovo, uma pardinha já em ponto de bala, era caidinha por mim. Já tinha peitinhos grandinhos e popas arrebitadinhas. De vez em quando, eu até fazia cosquinhas nos suvacos dela. Numa tarde nos encontramos à sombra de três guaranemas altas, na qual estava um carro de boi com a ponta do cabeçaio no chão. Aquele carro estava equipado com esteiras de taquara. Não havia como se ver o que estivesse em seu interior. A Ritinha e eu subimos carro pelo cabeçaio e por uma das chedas. Naquele escondidinho, quando já estava a levantar-lhe a saia, a Ritinha me alertou: “Só deixo atrais”! Respondi-lhe: “Atrais eu não quero. So quero na frente”!

Deu caiaia: não passamos daquela turra. Desci do carro com o pito já apagado.

PS- Não há sequer um tiquinho de ficção neste relato. Muitas palavras estão com a ortografia de acordo com o linguajar da gente daquela roça. Dar caiaia significa fracassar.

5 de maio de 2013 6:04

Deserto Verde

Engenheiro Agrônomo aposentado

Há dois tipos de canas: cana de açúcar e cana de chupar. Em nossa roça havia duas espécies da cana de chupar: a caiana e outra. A caiana é macia após ser descascada. A outra cana de chupar lá de casa tinha a metade do diâmetro da caiana. Uma cana singular: de tão macia, era chupada com casca. Apenas eram desprezados os nós. Tenho muita saudade dela. Nunca mais a vi. De ter sido extinta.

Jamais gostei de cana-de-açúcar. Parece que vão surgir muitos canaviais aqui no Triângulo. Lamento. O canavial é um Deserto Verde. Naquele solo mineralizado, com zero de matéria orgânica, não medram plantas com folhas macias. Assim, aquele hostil ambiente não serve para a gente ir no mato. Nem todo mundo é que nem o Adão, que fazia no deserto e limpava o respectivo com areia. Quem adora canavial é a Diatraea saccharalis, a broca da cana, cuja forma adulta é uma mariposinha bacana.

Para dar vida e alegria ao Deserto Verde é preciso que sejam criados oásis. Neles e nas margens das estradas devem ser plantadas árvores frutíferas. Conheço muitas, modéstias à parte. No entanto, sugiro apenas estas: corindiba, goiabeira e calabura. A corindiba é adorada pelos passarinhos. Vivi, por muitos anos, ao lado de uma que sombreava a porta da cozinha de nossa casa. Suas frutinhas não servem para humano comer: são muito miúdas. É com entusiasmo que destaco a goiabeira. Nasci no Estado do Rio de Janeiro. Sou, pois, um papa goiaba. Sempre fui bem chegado às goiabas. São nutritivas e dão muita sustância. Os passarinhos levam vantagem sobre mim: para eles, bicho de goiaba, goiaba é. Eles gostam tanto de goiaba que se encarregam de disseminar as goiabeiras por toda parte. O nosso goiabal da Ortiga foi todo “plantado” por eles. A calabura é estrangeira. Suas frutas são deliciosas. Conheci uma no Parque do Sabiá. Foi-me apresentada pelo Cícero Alves Diniz, me saudoso amigo. Ponha saudoso e amigo nisso!