Nem angu, nem biju
Na Ortiga eu não era mais o menino Tina que só brincava com os irmãos. Era um moleque taludo e libidinoso. Se, que vivia a escarapetear com os malungos por toda parte. Meu apelido era Marimbondo. Meus principais companheiros eram Crima, Baé, Jabá, Gadogué, Proga e Banana Ouro. Nossas principais brincadagens eram caçar passarinhos e jogar bolas de vidro, as quais, não raramente, eram substituídas pelas balebas. Outra grande atividade era pricurar frutas para comer e cana caiana para chupar. De primeiro, caçávamos com bodoque, um trambolho difícil de se andar com ele dentro das capoeiras. Com o aparecimento dos automóveis e caminhões, o bodoque foi substituído pelas setas, os atuais estilingues. O primeiro carro a passar pela estrada da Ortiga foi um Ford. Depois apareceu o Chevrolet Pavão, mais macio, mas com grave defeito de serem de madeira os raios das rodas.
O Crima era o mais craque na pontaria com a seta, mas o maior feito foi meu: matei uma saracura em pleno voo. Não caçávamos passarinhos pequenos. Porque eram de Deus. O único pequeno que matávamos era o papa-capim, também conhecido por papa-arroz. É que eles causavam grandes estragos em nosso arroz.
Eu fazia minhas pelotas com tabatinga e as queimava numa frigideira velha. A mamãe fez pra mim um imbornal de pano de calça rancheira. Uma vez o Baé e eu estávamos indo pricurar goiabas do outro lado do taboal. No meio do caminho ele me chamou para trocar. Reagi: “Cachorro, vai trocá com um jumento”!
A Ritinha, filha do carreiro Cristovo, uma pardinha já em ponto de bala, era caidinha por mim. Já tinha peitinhos grandinhos e popas arrebitadinhas. De vez em quando, eu até fazia cosquinhas nos suvacos dela. Numa tarde nos encontramos à sombra de três guaranemas altas, na qual estava um carro de boi com a ponta do cabeçaio no chão. Aquele carro estava equipado com esteiras de taquara. Não havia como se ver o que estivesse em seu interior. A Ritinha e eu subimos carro pelo cabeçaio e por uma das chedas. Naquele escondidinho, quando já estava a levantar-lhe a saia, a Ritinha me alertou: “Só deixo atrais”! Respondi-lhe: “Atrais eu não quero. So quero na frente”!
Deu caiaia: não passamos daquela turra. Desci do carro com o pito já apagado.
PS- Não há sequer um tiquinho de ficção neste relato. Muitas palavras estão com a ortografia de acordo com o linguajar da gente daquela roça. Dar caiaia significa fracassar.