A alegria de ser livre
Curti minha juventude na roça. Curti-a mesmo sem saber que era a mais feliz fase de minha vida. Viver solto e alegre entre a passarada. Havia abundância de frutas das que os pássaros e eu mais gostamos. Por esse motivo baixavam em nossa fazenda as avoantes que moravam nas matas.
Nos altos coqueiros, alinhados na beira da estrada, os melros faziam algazarra, principalmente quando os gaviões apareciam e tentavam pegar seus filhotes. O gaturamo, também procedente das matas, estava sempre a nos brindar com o sua linda cantoria, que consistia em imitar o canto de todos os pássaros daquela redondeza. O gaturamo não cantava quando estava em gaiolas. Outro notável cantor era o curió. O sabiá laranjeira só nos alegrava com seu belo canto quando estava prestes a começar o tempo das chuvas. A garrincha, conhecida ali por garricha, morava nos beirais de nossa casa. E cantava e muito cantava.
As frutinhas da corindiba, rentes à cozinha da casa, atraíam barulhentos e lindos passarinhos. A saíra era a mais bela de todas. Ali, quem não sabia cantar, alegrava o ambiente com o muito piar. Nas primeiras horas da noite, o bacurau anunciava “amanhã eu vou”. Mas não ia. Este aqui é que de lá se foi. E hoje amarga ainda muita saudade.
É natural que eu fique acabrunhado diante da tristeza dos irracionais confinados, por toda a vida, nos zoológicos. Bacana é vê-los, pela televisão, nos ambientes naturais que o destino lhes ofertou, nos quais são alegres, desde que longe de malvado bicho homem.
Louváveis são os hospitais veterinários: acolhem, tratam, recuperam e os devolvem saudáveis, prontos a voltar a viver alegres e felizes em seus ambientes naturais.