Clarimundo Campos

Crônicas especiais

Crônicas Há mais de 22 anos escrevendo Crônicas, na premissa de trazer diversão aos leitores e a mim mesmo, com as amenidades do dia-a-dia. A coluna é publicada aos domingos no CORREIO de Uberlândia.

12 de maio de 2013 6:33

Nem angu, nem biju

Engenheiro Agrônomo aposentado

Na Ortiga eu não era mais o menino Tina que só brincava com os irmãos. Era um moleque taludo e libidinoso. Se, que vivia a escarapetear com os malungos por toda parte. Meu apelido era Marimbondo. Meus principais companheiros eram Crima, Baé, Jabá, Gadogué, Proga e Banana Ouro. Nossas principais brincadagens eram caçar passarinhos e jogar bolas de vidro, as quais, não raramente, eram substituídas pelas balebas. Outra grande atividade era pricurar frutas para comer e cana caiana para chupar. De primeiro, caçávamos com bodoque, um trambolho difícil de se andar com ele dentro das capoeiras. Com o aparecimento dos automóveis e caminhões, o bodoque foi substituído pelas setas, os atuais estilingues. O primeiro carro a passar pela estrada da Ortiga foi um Ford. Depois apareceu o Chevrolet Pavão, mais macio, mas com grave defeito de serem de madeira os raios das rodas.

O Crima era o mais craque na pontaria com a seta, mas o maior feito foi meu: matei uma saracura em pleno voo. Não caçávamos passarinhos pequenos. Porque eram de Deus. O único pequeno que matávamos era o papa-capim, também conhecido por papa-arroz. É que eles causavam grandes estragos em nosso arroz.

Eu fazia minhas pelotas com tabatinga e as queimava numa frigideira velha. A mamãe fez pra mim um imbornal de pano de calça rancheira. Uma vez o Baé e eu estávamos indo pricurar goiabas do outro lado do taboal. No meio do caminho ele me chamou para trocar. Reagi: “Cachorro, vai trocá com um jumento”!

A Ritinha, filha do carreiro Cristovo, uma pardinha já em ponto de bala, era caidinha por mim. Já tinha peitinhos grandinhos e popas arrebitadinhas. De vez em quando, eu até fazia cosquinhas nos suvacos dela. Numa tarde nos encontramos à sombra de três guaranemas altas, na qual estava um carro de boi com a ponta do cabeçaio no chão. Aquele carro estava equipado com esteiras de taquara. Não havia como se ver o que estivesse em seu interior. A Ritinha e eu subimos carro pelo cabeçaio e por uma das chedas. Naquele escondidinho, quando já estava a levantar-lhe a saia, a Ritinha me alertou: “Só deixo atrais”! Respondi-lhe: “Atrais eu não quero. So quero na frente”!

Deu caiaia: não passamos daquela turra. Desci do carro com o pito já apagado.

PS- Não há sequer um tiquinho de ficção neste relato. Muitas palavras estão com a ortografia de acordo com o linguajar da gente daquela roça. Dar caiaia significa fracassar.

5 de maio de 2013 6:04

Deserto Verde

Engenheiro Agrônomo aposentado

Há dois tipos de canas: cana de açúcar e cana de chupar. Em nossa roça havia duas espécies da cana de chupar: a caiana e outra. A caiana é macia após ser descascada. A outra cana de chupar lá de casa tinha a metade do diâmetro da caiana. Uma cana singular: de tão macia, era chupada com casca. Apenas eram desprezados os nós. Tenho muita saudade dela. Nunca mais a vi. De ter sido extinta.

Jamais gostei de cana-de-açúcar. Parece que vão surgir muitos canaviais aqui no Triângulo. Lamento. O canavial é um Deserto Verde. Naquele solo mineralizado, com zero de matéria orgânica, não medram plantas com folhas macias. Assim, aquele hostil ambiente não serve para a gente ir no mato. Nem todo mundo é que nem o Adão, que fazia no deserto e limpava o respectivo com areia. Quem adora canavial é a Diatraea saccharalis, a broca da cana, cuja forma adulta é uma mariposinha bacana.

Para dar vida e alegria ao Deserto Verde é preciso que sejam criados oásis. Neles e nas margens das estradas devem ser plantadas árvores frutíferas. Conheço muitas, modéstias à parte. No entanto, sugiro apenas estas: corindiba, goiabeira e calabura. A corindiba é adorada pelos passarinhos. Vivi, por muitos anos, ao lado de uma que sombreava a porta da cozinha de nossa casa. Suas frutinhas não servem para humano comer: são muito miúdas. É com entusiasmo que destaco a goiabeira. Nasci no Estado do Rio de Janeiro. Sou, pois, um papa goiaba. Sempre fui bem chegado às goiabas. São nutritivas e dão muita sustância. Os passarinhos levam vantagem sobre mim: para eles, bicho de goiaba, goiaba é. Eles gostam tanto de goiaba que se encarregam de disseminar as goiabeiras por toda parte. O nosso goiabal da Ortiga foi todo “plantado” por eles. A calabura é estrangeira. Suas frutas são deliciosas. Conheci uma no Parque do Sabiá. Foi-me apresentada pelo Cícero Alves Diniz, me saudoso amigo. Ponha saudoso e amigo nisso!

28 de abril de 2013 6:08

De paraíso a sucursal do inferno

Engenheiro Agrônomo aposentado

Nasci durante a Primeira Guerra Mundial, mas escapei da gripe espanhola. Segundo o papai me contou, ela era tão mortífera, que, quando um infeliz espirava, alguém lhe dizia: Deus te ajude! Isto é, que Deus o ajudasse a morrer logo, antes de muito sofrer.

Quando tomei fé de mim, já estava morando numa fazenda em São Joaquim, no município de Cachoeiro de Itapemirim (ES). Como era bom viver ali! Depois, já molecote, fui morar com meus pais e irmãos numa fazenda que meu pai comprou na Ortiga, no mesmo município. Fiz o curso primário na roça e o ginasial na cidade. Como era bom aquele tempo! Fui para Viçosa. Como era bom estudar naquela Escola! Formado, fui trabalhar na Escola Prática de Agricultura, no Vale do Canaã, no município de Santa Tereza (ES). Como era bom trabalhar na EPA! Convidado, fui trabalhar na Rubber, cuja sede era em Belo Horizonte. Enfiei a cara no sertão de Minas, a fim de incentivar a produção de borracha de mangabeira. Era um esforço de guerra para os Aliados. Fazia pião em Patrocínio. Como era bom aquele serviço! Após a Segunda Guerra Mundial, fui trabalhar no Território Federal do Guaporé. Como era bom morar em Porto Velho! De lá fui para o Rio de Janeiro, onde me convidaram para trabalhar na Sotreq. E no dia 2 de fevereiro de 1948, cheguei aqui.

Como era ótima esta cidade com cerca de 50 mil habitantes. Durante mais de 10 anos só houve um assassinato em Uberlândia. Como era bom o Brasil naquele tempo!

E agora, meninos? A mídia me informou que a Dilma disse que vai “fazer o diabo” no Brasil, porque tem peito para atacar os problemas que seus antecessores não tiveram coragem de enfrentar. Que ela tem mais peito que o FHC, por exemplo, estou cansado de saber. Porém, dona Presidenta, vossa excelência não deve fazer mais diabos. Já os temos em demasia, em forma de bandidos. Estão soltos, à vontade, nadando de braçada. Já fizeram do nosso Brasil, outrora tão bom e tão cheio de sossego, em sucursal do inferno.

CORREÇÕES

Correção: Erros que notei em “Broca do café” (publicado dia 21 de abril): Cachoeiro é macho, arabica não tem acento – é do latim. Ainda bem que era. O certo é: Ainda bem que não era.