Cocão e Coió
O eleitor consciente dos nossos dias fica atordoado com a proliferação partidária, mas, se fosse votar nos princípios do século passado, se abismaria com o reverso extremo do partido único. Minas Gerais só tinha o Partido Republicano Mineiro, que manipulava a seu bel prazer as eleições estaduais. Se, em nível estadual, tudo se resolvia nos conchavos da “Tarasca”, que era o apelido popular da Comissão Executiva do Partido, nos municípios a coisa se complicava um pouco, porque havia o confronto entre os coronéis. No interior, em consequência disso, o PRM se dividiu em dois, o Partido Republicano Mineiro e o Partido Republicano Municipal, cujas siglas continuavam sendo a mesma: PRM. A identificação ou diferenciação entre os PRMs do interior se fazia pelos apelidos. Em Uberaba, por exemplo, o PRM se dividia em Pacholas e Araras. Em Uberabinha eram os Cocões e os Coiós.
Aqui, os Coiós acompanhavam o entusiasmo do tenente coronel José Theóphilo Carneiro (que mais para o fim da vida se tornou Cocão), enquanto os Cocões estavam do lado do coronel Severiano Rodrigues da Cunha. Esses líderes, conquanto amassem profundamente sua terra, não tinham qualquer ideologia, o que lhes interessava era manter o poder que hipnotizava a arraia miúda do povão. O poder dava-lhes uma absurda imunidade e o privilégio de manipular nomeações e demissões de chefes dos serviços públicos. O gozo máximo do poder era transferir delegado de polícia.
Os Cocões eram do PR-Municipal. Os Coiós eram do PR-Mineiro. As eleições eram sempre tumultuadas e os resultados forjados. Aqui, em Uberabinha, as decisões dos pleitos vinham de Santa Maria, onde votava a meninada do grupo escolar e os defuntos.
Os apelidos das facções do PR tinham origem em anedotas. Em Uberaba contam que um grupo de eleitores do PR-Municipal estava na porta de um estabelecimento comercial quando se aproximou um grupo de eleitores do PR-Mineiro. Os que estavam parados comentaram:
- Lá envém os “arara”!
“Arara” tinha um sentido depreciativo. Significava bobão, tolo. Os “Araras” ouviram e retrucaram:
- E ali está um monte de “pachola”!
“Pachola” também era termo pejorativo. Significava farsante, folgado, malandro.
Em Uberabinha, os apelidos surgiram de um bate-boca entre o agente Executivo (prefeito) João Severiano Rodrigues da Cunha (Joanico) e Marcos de Freitas Costa em plena praça da prefeitura. Tentando ofender o adversário por sua baixa estatura (mas um dos maiores prefeitos que a cidade já teve), Marquinhos gritou-lhe:
- Você é um “cocão”!
“Cocão” é uma peça baixa que fica sob a mesa do carro de bois. Joanico não se perdeu:
- E você é um “coió”!
“Coió” significava bobão. E o povo adotou esses apelidos mais fáceis de guardar – e de diferenciar PRM de PRM! Alguns líderes “cocões”: Virgílio Rodrigues da Cunha, Chico Cotta Pacheco, Alexandre Ribeiro Guimarães, Constantino Rodrigues da Cunha, Adolfo Fonseca e Silva, Custódio da Costa Pereira, Joaquim Marques Povoa, Alexandre de Oliveira Marquez, Salvador Melazzo, Antônio Crescêncio, Joaquim Fonseca, Nicomedes Alves dos Santos, Carmo Giffoni, Antônio Calábria e outros. Alguns “coiós”: Olímpio de Freitas Costa, cel. Antônio Alves Pereira, Agenor Bino, Capitãozinho, Marcos de Freitas Costa, Amador Naves de Ávila, João Naves de Ávila, dr. Abelardo Penna, Fernando Vilela, Paes Leme, Rivalino Pereira, Guiomar de Freitas, Lycidio Paes e outros. Esses nomes foram tirados da composição dos partidos nos fins da década de 30, portanto, com vários líderes pioneiros falecidos e outros transferidos de partido, entre eles os Carneiro.
Fontes: Honório Guimarães, Jerônimo Arantes e Hildebrando Pontes
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EDUARDO AFONSO disse:20/03/11 22:07
Sempre tive a curiosidade de saber a origem dos Coiós e os Cocões e hoje através desta coluna conheci um pouco mais de nossa historia politica. Obrigado Antonio Pereira, sua preocupação em preservar a historia de Uberlândia merece todo nosso elogio e respeito.
Comentários (2)