Em defesa da Sibipiruna
Foi em 1918 que o comerciante Oscar Miranda plantou uma sibipiruna no meio da avenida João Pinheiro para jogar sombra à frente de seu estabelecimento. Ali, tinha sido o cartório do José Pirahu que lhe vendeu o imóvel. Miranda alargou-o, puxou-o para a frente, abriu portas para a rua, empilhou mercadorias e fez as exposições. Mas o sol batia nelas. Foi ao Horto Municipal, que ficava na rua XV de Novembro, e ganhou do jardineiro espanhol, José Moraes, a muda que veio num saquinho. Miranda plantou-a, pôs-lhe uma cerca protetora e regava-a diariamente.
A arvorezinha cresceu e começou a oferecer o refresco da sua sombra. Até a Tereza se abrigou nela. Tereza era o apelido que os frequentadores do Praia Clube puseram no ônibus velho que a diretoria adquiriu para transportar os associados. A rapaziada ficava lá defronte ao Oscar Miranda esperando a Tereza.
O tempo passou. A sibipiruna cresceu mais, ganhou a moléstia de uma broca que quase a derrubou. Superou a crise e chegou aos anos 60, quando o grande prefeito Renato de Freitas resolveu asfaltar a avenida João Pinheiro. Era uma avenida romanesca com canteiros centrais, iluminada por postes com luminárias imitando velhos lampiões. Tudo foi pro chão. Debaixo do calçamento de pedras, a terra podre não garantia nenhum revestimento. Renato autorizou a troca do sub-solo. A avenida ficou intransitável e suja por muito tempo.
Um dia, chegou a hora e a vez da sibipiruna. Era de manhã. Como tudo que estava no caminho tinha ido para o chão, os peões da empreiteira, armados de machados, rodearam a sibipiruna para jogá-la ao solo. Foi quando um senhor idoso, indignado com a agressão que a sua árvore sofreria, pulou pra fora de casa de armado de carabina a apontou pros caras: “aquele que tocar na árvore eu derrubo ele!”
Alguns dizem que ele chegou a dar um tiro pra cima. Houve uma gritaria, gente se escondendo aqui e ali, gente se deitando no chão, gente entrando espavorida no Grande Hotel Central, que ficava do outro lado da avenida, na esquina com a praça Adolfo Fonseca. Os hóspedes, assustados, correram para o alpendre e para as janelas, a ver o que sucedia. Entre eles o Tião, garçom, o porteiro Chico, José Adauto de Melo, estudante da FDU e o Ernani Cunha, funcionário do Banco do Brasil, que me relatou parte desta história. Do outro lado, o indignado Oscar Miranda de carabina apontada para os lados da velha sibipiruna garantindo-lhe a sobrevivência.
Alguém chamou a polícia, porém, mais esperta, dona Geny Custódio, esposa do velho Atílio Spini, ligou para o Renato de Freitas dizendo-lhe que estava muito triste. Por quê, dona Geny? – perguntou o prefeito. Porque você mandou cortar a sibipiruna da avenida João Pinheiro, que o seu Oscar plantou com muito carinho, faz cinquenta anos! Renato tranquilizou-a: a senhora pode ficar sossegada que eu vou mandar deixar a sibipiruna lá no lugarzinho dela. Correu lá (era pertinho) e mandou que os peões retornassem à obra e se esquecessem da sibipiruna que ficou lá e está lá até hoje, há mais de 90 anos! Renato mandou que se enrolasse uma cinta metálica em volta da árvore dizendo que ela era patrimônio da cidade.
Fontes: Ernani Cunha, Mauricio Miranda, Glênio Spini
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Juliana Lina Gama disse:02/07/11 9:43
Estou encantada com tantas histórias de Uberlândia, sempre me interessei por fotos antigas da nossa cidade, mas não tinha conhecimento sobre essas histórias maravilhosas. Parabéns!!!
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Ricardo Garcia disse:04/06/12 9:30
Meu anjo eu também adoro fotos antigas de Uberlândia, espero que sejam publicada mais vezes! Um Beijo
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joao roberto spini machado. disse:08/07/11 17:52
Uma pena,Juliana,não só Historias,mas Pessoas Maravilhosas,e puramente,Mineiras,como não vemos mais!
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Silvia disse:23/08/11 12:24
Onde esta localizada a arvore?Em que altura da Joao Pinheiro?
Comentários (6)