Antônio Pereira

Memória de Uberlândia

Crônicas da Cidade Para não nos esquecermos dos que plantaram o que somos. A coluna é publicada aos domingos

10/07/2011 6:00

Lotinho furou a cerca

Jornalista

Ele me disse uma vez e ouvi-o dizer a mesma coisa a muita gente: “Negro não entrava no Uberlândia Clube nem pra fazer a limpeza!”

Uberlândia, e não apenas o clube, era racista. Negro fazia o footing na avenida só pelo lado esquerdo. Do lado direito, onde estavam o Cine Uberlândia, a loja A Goyana, o Bar da Mineira, só branco passeava.  Não entrava nos clubes, não era servido em certos bares e restaurantes e, no cinema, só “lá em cima”.

Até na zona boêmia vigia a discriminação: nos famosos cabarés da rua Santos Dumont e Guarany negro só na limpeza e na cozinha.

Nos tempos de Carnaval, a coisa aliviava um pouco. Na década de 1930, quando os ranchos de negros entravam na avenida furando aquela muralha branca, todo mundo abria alas e se enfiava na rabeira do grupo, saracoteando com as “tenentinhas” (*) que fechavam o cortejo. Depois, na década de 50, quando as primeiras escolas de samba abriam caminho pelo miolo da avenida, também lá atrás misturavam-se brancos e negros aos pulos no ritmo do samba.

Pois o Lotinho era jovem ainda quando o maestro Antônio Lopes convidou-o para cantar na orquestra do Uberlândia Clube. Lotinho arrepiou: “Lá, eles não aceitam negros!”

Antônio Lopes garantiu que não iam molestá-lo.

E ele foi, mas antes cuidou-se. Foi à loja Clark e comprou dois pares de sapatos, de verniz, um deles preto e branco. Depois foi ao Paganini mandou fazer um terno e comprou uma camisa de casimira Europa. Ficou chique. E foi.

Em entrevista ao professor Júlio César de Oliveira, Lotinho disse que caprichou na primeira música: o samba-canção “Laura”, de João de Barro e Alcyr Pires Vermelho.

No dia seguinte, foi aquele blablablá. Os brancos que o ouviram caprichando no grande sucesso dos fins dos anos 50 cumprimentavam-no. Tinha cantado muito bem. Os negros viravam a cara: estava se rendendo à elite. Aquele povo metido…

Teve negão que quis bater nele…

Lotinho reconhece que o seu atrevimento teve repercussão positiva no amaciamento do preconceito. Pode não ter resolvido, mas que aliviou um tanto aliviou.

(*) – “tenentinhas” – referência às meninas do rancho de negros “Tenentes Negros” que vinham dançando à vontade na rabeira do rancho.

Fonte: Júlio César de Oliveira, Lotinho, jornais de época

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