Antônio Pereira

Memória de Uberlândia

Crônicas da Cidade Para não nos esquecermos dos que plantaram o que somos. A coluna é publicada aos domingos

21/08/2011 5:52

Os dois siricoco

Jornalista

Havia dois Siricoco: negros. Um, aqui, mexendo com grupo de congado, o Moçambique de Belém; outro, em Araguari, mexendo com coisas sobrenaturais. Fazendo despachos, manipulando santos, o diabo a quatro. O homem tinha uma força…

O Siricoco daqui, líder afro, teve uma vida simples. Quando criança levava marmita para o Zé Davi (jogador e técnico do UEC) na charqueada e, daí, veio uma de suas primeiras ocupações: porteiro do estádio Juca Ribeiro. Depois foi pintor de paredes e, por fim, carroceiro, com ponto na João Naves de Ávila, onde está a Igreja Universal do Reino de Deus. Enquanto o serviço não chegava, ficava proseando com os companheiros Zezé Pimenta, Justino, que cantavam e dançavam no Sainha, e o Baiano. Muita gente que passava por ali parava para o papo quase sempre sobre congados e Flamengo. Ele era flamenguista roxo. E tocava bumbo nos bailes de Carnaval.

Muito interessado nas coisas da cultura popular, Siricoco ainda mocinho entrou para o Marinheiro. Marinheiro é uma espécie de escolinha do congado. Todo mundo começa a dançar no Marinheiro. Depois de algum tempo, passou para o Camisa Verde e, depois, para o Sainha. Aí, ele conheceu Milton Ferreira que acabou seu compadre. Os dois montaram o terno de moçambique Coroa de São Benedito que, um dia, o Milton desativou sem consultar o compadre. Por essa época, Siricoco já estava na Irmandade de São Benedito onde foi tesoureiro por mais de 25 anos. Nesse período, montou o seu terno, o moçambique de Belém, no bairro Santa Mônica.

E lá ia ele nessa vidinha simples, muito religiosa, muito ligada às coisas culturais africanas quando um dia, enquanto soltava sua eguinha no pasto da Tibery, chegou um carrão à sua porta. Um Galaxy. Desceram o prefeito de Uberaba, Wagner do Nascimento, e seus assessores mais próximos. Bateram palmas e pediram pra falar com o Siricoco.

Ramon, filho, menino ainda, foi acionado pela mãe: “vai chamar seu pai, moleque. Tem gente aqui querendo falar com ele.”

Ramon correu ao pasto, Siricoco, na mesma tranquilidade acabou de soltar o animal e veio com o filho. Chegou à casa tirando carrapichos e carrapatos das roupas. Sentou-se com os visitantes. Wagner lhe disse que precisava de muita força.

“Força, eu dou, seu prefeito.” – Respondeu o Siricoco, honrado com o pedido da autoridade.
Wagner percebeu que o seu interlocutor não tinha entendido bem o que ele queria.
“Pois é, seu Siricoco, mas o que eu quero do senhor é força espiritual.”
“Essa força aí, seu prefeito, é só com Deus… eu sei rezar um terço…”

Os assessores se entreolharam, suspeitando de algum equívoco. E era.
“Tem outro Siricoco em Araguari. Ele é que mexe com essas coisas.”

O grupo se retirou e seguiu para lá.

Se o prefeito Wagner conseguiu os resultados que pretendia, não sei. Sei que o Siricoco daqui, impressionou-o bem e não custou nada para que convidasse o Moçambique de Belém para se apresentar naquela cidade. Mandou ônibus e tudo. A visita resultou em grandes amizades com autoridades administrativas e religiosas/folclóricas. Ainda em 2006, o Moçambique voltou lá. Almoçou na casa da mãe de santo, dona Luzia, e esteve com ex-assessores do saudoso prefeito Wagner do Nascimento, que o apelidaram, por ocasião de sua campanha de “fuscão preto”.

Fontes: Ramon e Saturnino Siricoco

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