Trabalhismo pioneiro
Antes da Abolição era assim: quem trabalha é escravo. Com o fim da escravidão, o brasileiro comum continuou não querendo trabalhar. Quem veio pegar no pesado foram os imigrantes italianos, portugueses, japoneses, sírios-libaneses e outros. Esse povo é que fez do trabalho bruto uma fonte de riqueza. Pequenas oficinas tornaram-se grandes indústrias.
Esses operários importados, geralmente desprezados e equiparados a escravos por causa do trabalho manual, é que levantaram as primeiras bandeiras na proteção legal do trabalho.
Começou com os anarquistas, apologistas do sindicato. Depois, numa dissidência internacional, os anarquistas foram substituídos pelos comunistas que continuaram a luta, só que acrescentam a isso um elemento forte: o pensamento político. Com uns ou com outros, as greves balançaram São Paulo e Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Muitos estrangeiros, principalmente italianos, por trás disso.
Não me consta que, na velha Uberabinha, tivesse havido qualquer movimentação reivindicatória dos trabalhadores. Nem anarquista, nem comunista. Isso não exclui possíveis desentendimentos entre patrões e empregados. Tanto que em 1911, Cypriano Del Fávero, construtor, reuniu os operários da cidade no Fórum, fundou uma Liga Operária e foi aclamado presidente. O artigo 2º do Estatuto da Liga explicitava seu principal objetivo: “intervir diretamente em questões que possam surgir entre empregados e seus patrões”.
Não havia questões entre empregados e patrões. O patrão mandava e acabou. Trabalho operário era extensão da escravidão. De modo que a Liga, no máximo, deve ter criado um clima de desconforto para os dois lados.
Para se adequar ao verdadeiro relacionamento patrão/empregado da época, os trabalhadores novamente se reuniram no fórum, em 1914, agora sob a orientação de Júlio Moreira de Alvarenga, e criaram uma nova Liga. O objetivo principal dessa nova organização era a fraternidade e o auxílio mútuo entre os associados. Também foi aclamado presidente o Júlio Moreira de Alvarenga. Quem era esse líder? Era médico e vereador – quer dizer, sem qualquer ligação profissional com o pessoal da Liga. Firmava-se, no entanto, através da sua aclamação, a submissão passiva do trabalhador à elite da época.
Mas o dr. Júlio surpreendeu. Ainda nesse ano, ele entrou com um projeto de lei na Câmara Municipal estabelecendo que o operariado urbano de Uberabinha trabalharia apenas oito horas por dia. Isso foi um avanço e um pioneirismo. No país inteiro não havia controle de horário de trabalho.
No dia 22 de setembro, os trabalhadores saíram em festas pelas ruas empoeiradas da cidade. À frente do grupo, fazendo furor, a banda União Operária. Pararam em frente ao palacete do dr. Júlio. O discurso em agradecimento a tão auspicioso projeto foi feito pelo professor Honório Guimarães, reitor do Grupo Escolar. Mais uma demonstração de inferioridade do nosso trabalhador.
No dia 30, saiu a lei 169 que fixava o horário de trabalho do operariado da cidade. Oito horas.
Em âmbito nacional, debaixo da esperteza do ditador Getúlio Vargas que promoveu o trabalhador brasileiro em cidadão pleno de direitos, a troco de umas certas concessões, lei semelhante só foi acontecer em 1932. E valeu.
Já a do dr. Júlio… não valeu.
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