Antônio Pereira

Memória de Uberlândia

Crônicas da Cidade Para não nos esquecermos dos que plantaram o que somos. A coluna é publicada aos domingos

17/06/2012 6:11

História de um amor

Jornalista

Vou ser indiscreto, mas não vou citar nomes. A história é exatamente como aconteceu, porém, ninguém, nem os protagonistas se identificariam. As antigas histórias de amor, normais, eram tão semelhantes que, contar uma é contar todas.

Era 1939. O nosso personagem era um jovem atleta, bem sucedido, assediado pelas moças. Namorou muitas. Não perdia baile no Uberlândia Clube que ficava no terceiro andar do edifício “Abdulmassih”, na esquina da praça Benedito Valadares (Tubal) com a avenida Afonso Pena. O Cine Theatro Uberlândia também dava saraus dançantes na sala de espera antes das primeiras sessões que eram às 19 horas. Ele estava lá – era um pé de valsa. Num desses saraus, percebeu que uma mocinha olhava-o insistentemente. Curioso (eram belos olhos), cuidava de dançar deixando sempre o seu par de costas para a dona do flerte. Pouco antes de começar a sessão, procurou uma amiguinha comum e pediu-lhe que intercedesse junto à moça do olhar insistente para que deixasse uma poltrona vaga ao seu lado. Era o costume. Assim que a luz se apagou, procurou o lugar, lá estava – vago. Sentou-se, entabulou conversa. Atrevido, logo tentou pegar a mão da moça. Ela se afastou e foi ríspida: “Se você veio com essa intenção, pode se levantar ou eu me levanto e vou embora!” Recuou a mão atrevida e pensou: “Vou me casar com essa moça!” Porque aquilo era diferente de tantos namoricos que tivera até então. Após esse encontro discreto passaram a se ver com mais constância, em bailes, matinês, nas praças, nas ruas, nos vai-vem. Eram contatos rápidos, circunspetos.

Ele se envolve, apaixona-se, metido a cantor, desanda a fazer-lhe serenatas. Após as apresentações românticas ao pé da janela da amada, sempre lhe deixa uma flor. O namoro começa a firmar-se. Já se encontram com mais frequência. Surgem os primeiros arrufos, raros. Ele namora outra, entre uma briga e outra, e descobre que, apesar da beleza da nova namorada não a substituiria nunca. Em outras brigas, mete uma gravatinha borboleta e um jaquetão, coisas que ela detestava. Era namoro de quase um ano, mas os pais dela não sabiam. Eram muito severos.

Certa ocasião, foram ao cinema e se sentaram muito perto da tela, a sala estava cheia. Num impulso súbito inclinou-se e roubou-lhe um beijo, o primeiro, depois de mais de ano de namoro. Foi correspondido e ficou encantado. Terminado o filme saíram calados, ensimesmados, sem assunto. Estavam deslumbrados. Foram de mãos dadas até perto de casa – eles ainda temiam a reação dos pais. Deixou-a uma esquina antes… sem beijo. Quando a namorada entrou, saiu pulando feito menino. A felicidade entornava do seu coração. O tempo passa – toda a cidade, pequenina, já sabe do namoro. Manda-lhe presentes, simula encontros eventuais só para tê-la por perto. De outra feita, ela vai passar um fim de semana na roça, em fazenda de família amiga, e diz-lhe: Se você me ama, vai lá me ver. Conseguiu uma carona e foi. Foram dois dias maravilhosos, só que a família amiga não os deixou um segundo sequer sozinhos. 1940 avança, ele quer casar-se. Conta para a mãe viúva que concorda, os irmãos também e marcam uma visita à família da moça que morava na rua Felisberto Carrejo. Vão o pretendente, a mãe, um irmão e um amigo. A família recebe-os, sentam-se, conversam, serve-se um café e, de repente, ele se levanta. A moça, incontinenti, sem dizer nada, estica para os fundos. É a hora. Ele diz: “Viemos aqui, com todo o respeito, comunicar que gostaria que o senhor e a senhora me concedessem a honra e o privilégio de pedir a mão de fulana em casamento, ficando, a partir de hoje, noivo oficial.” Eles concordam, mas dizem que quem tem de decidir é ela. Chamam-na e dizem-lhe: “Minha filha, o fulano, sua família e seu amigo querem que você dê a ele uma resposta ao seu pedido de ficarem noivos.” Ela responde: “Papai e mamãe, é o meu maior desejo ficar noiva do fulano, pois eu gosto muito dele.” Marcam o casamento para fins de 1941, mas a partir daí é que a marcação sobre os dois aumenta: nunca mais, até o dia do enlace, saíram sozinhos. Sempre tinham uma vela. E só podiam noivar até as 22 horas. Enfim, casaram-se e foram felizes até que a morte os separou.

Fonte: não conto.

Comentários (8)

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  1. ronan ribeiro disse:17/06/12 7:25

    Bonita crônica!

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    • Antônio Pereira disse:24/06/12 12:44

      Oi Ronan, bom dia. Agradeço. O comentário é sempre estimulante.
      Antonio

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  2. Waltecir Cardoso disse:17/06/12 16:35

    “HISTÓRIA DE UM AMOR” narrada por você. Linda e habitual naquela época. Um deleite para nossos pais!

    Um abraço,

    Waltecir

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    • Antônio Pereira disse:24/06/12 12:43

      Oi Waltecir, bom dia. Era um tempo romântico e aquele ritual parece que punha mais repsonsabilidade no casamento. Obrigado pelo comentário. É sempre estimulante.
      Antonio

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  3. Joao Roberto spini machado disse:20/06/12 10:26

    ANTONIO,ESTA FOI A VIDA DE UM CASAL MINEIRO DOS ANOS 40,IGUALZINHO A MAIS DE UNS 100 MIL,IGUAIZINHOSSSSS… OU ERA DIFERENCIADO? NÃO VI NADA,SINCERAMENTE.ABRAÇOS.

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    • Antônio Pereira disse:24/06/12 12:41

      Oi, dr. João: realmente era sempre assim. Contou um, contou todos, mas que era romântico, era.
      Antônio

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  4. Joao Roberto Spini Machado disse:26/06/12 19:03

    Um momento.Antonio,sua escrita é sempre aprochegante e carismática.Era um casal igual a tantos milhares de outro,mas teve um cronista especial.Com todo o respeito:voce.

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  5. Antônio Pereira disse:24/06/12 12:44

    Obrigado, Neusa. Os comentários são sempre estimulantes. Bom Domingo.
    Antonio

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