Humberto Martins relembra antigos personagens em novelas
O sotaque levemente baiano, mesmo fora do estúdio, denuncia a entrega de Humberto Martins para viver o ingênuo Nacib, no “remake” de “Gabriela”. “Fui tão a fundo no trabalho, que a composição transborda e eu me pego falando ‘baianês’ e suas gírias”, disse o ator de 51 anos. Principal figura masculina da obra “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado, Nacib representa para o ator uma volta ao universo do escritor baiano, 20 anos depois da minissérie “Tereza Batista”, onde deu vida ao pescador Jereba. Além disso, pela importância de Nacib na obra, Humberto acredita que ser escolhido para esse personagem evidencia seu amadurecimento artístico.
Natural de Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, Humberto teve sua primeira experiência na tevê fazendo figuração em tramas como “Vale Tudo”, de 1988. O primeiro personagem efetivo em novelas surgiu no ano seguinte, em “Sexo dos Anjos”. A partir daí, o jeito rústico e másculo do ator o levou a acumular vários protagonistas na carreira. Principalmente, nas tramas assinadas por Carlos Lombardi, onde deu vida aos descamisados Bruno, de “Quatro Por Quatro”, e Lenin, de “Vira-Lata”.
Na última década, Humberto resolveu flertar com outros autores, como Glória Perez e Elizabeth Jhin, e tipos mais variados. Movimento que teve seu ápice no ano passado, com o inescrupuloso Neco, da segunda versão de “O Astro”. “Esse personagem me deu a possibilidade de mostrar outras facetas. Confiaram em mim e eu batalhei para corresponder a essa expectativa”, afirmou.
Bate papo
P – Seu desempenho como o malandro Neco, no “remake” de “O Astro”, foi muito elogiado. Você acha que esse trabalho teve alguma influência na escolha do seu nome para dar vida ao Nacib, de “Gabriela”?
R – O Neco foi ímpar em minha carreira. E foi o tipo de papel que surgiu na hora certa. Sentia-me realmente maduro artisticamente para dar conta dele. Como a equipe que refez “O Astro” é a mesma de “Gabriela”, acredito que ter encontrado o ponto certo do cinismo, vilania e frieza do Neco, mostrou aos diretores que eu teria condições de encarar personagens mais complexos.
P – E qual a complexidade de Nacib?
R – Esse personagem tem dois pontos bem complicados. Primeiro, ele é totalmente o oposto do Neco. O Nacib é um sujeito de bom coração, ingênuo, boa praça. Ele tinha quatro anos de idade quando chegou a Ilhéus. É um estrangeiro totalmente adaptado ao Brasil, aos costumes baianos. Além disso, é um personagem que já foi vivido por dois atores muito bons: Armando Bógus, na novela de 1975, e Marcello Mastroianni, no filme de 1983. Eles tornaram suas atuações referências diretas ao papel.
P – Esse é seu segundo “remake” consecutivo. Está preparado para encarar novamente as inevitáveis comparações com a primeira versão do folhetim?
R – Tenho de estar (risos). Mas, ao contrário de “O Astro”, a trama e as cenas de “Gabriela” ainda estão muito vivas na memória do público. O que torna as possíveis comparações mais evidentes. Se eu chegar próximo do brilhantismo do Bógus, já fico feliz. Por ter sido amigo dele, esse trabalho adquire um aspecto emocional para mim. Eu não quero me distanciar da interpretação dele. Vou mostrar minha versão do personagem, mas quero que ela tenha um tom de homenagem a ele.
P – Quais referências você pescou do desempenho do Armando Bógus na novela original, de 1975?
R – Peguei um pouco do tempo dele nas falas. E também do olhar que emprestava ao personagem. Mas engraçado, eu tinha a imagem dele como Nacib, mas não lembrava de muitas cenas.
P – Por quê?
R – Eu tinha 15 anos quando a novela foi exibida. Na época, não era um grande espectador de tevê, estava correndo na rua, jogando futebol no clube, estudava, fazia inglês. Eu era bem ocupado. Por não ter essa lembrança muito viva, quando minha escalação foi confirmada para o “remake”, procurei no “You Tube” algumas cenas. Assisti a sequências muito boas do Bógus com a Dina Sfat no Bataclan, e dos momentos mais sensuais com a Sônia Braga. Os vídeos me inspiraram bastante na construção. Não só os vídeos de “Gabriela”, mas de outros personagens dele também.
P – Essa reverência ao trabalho do Armando Bógus sempre existiu ou começou depois de vocês dividirem a cena em “Pedra Sobre Pedra”, de 1992?
R – Quando a gente trabalhou junto eu já era fã. Tanto que foi difícil gravar minha primeira cena com ele. Me perdi no texto, minha voz falhou, e tivemos de fazer a cena no dia seguinte (risos). Esse nervosismo foi acabando aos poucos. E com a convivência, ficamos muito próximos. Nessa novela, eu e ele trabalhamos intensamente, pois meu personagem, o Iago, era o cigano que trabalhava nas terras do Cândido Alegria, papel do Bógus. Foi a última novela dele (o ator faleceu vítima de leucemia, em maio de 1993). Mesmo doente, ele estava inteiro em cena, eu só ficava observando e acabei aprendendo algo muito importante com ele: a concentração maciça.
P – É um método?
R – É uma espécie de transe, com percepção seletiva. O Bógus jamais se desconcentrava em cena. Ele era ligado em tudo que estava no estúdio. Isso me contaminou, achei interessante e quis aprender. É o melhor jeito de encarar uma cena, principalmente as grandes. Segui essa linha e me adaptei. Qualquer coisa que saia errado, seja no texto ou na parte técnica, não atrapalha e não tira o meu foco.
P – Essa concentração deve ser muito útil nas cenas de sexo de “Gabriela”…
R – Com certeza (risos)! Mas para uma cena sensual bem feita, é preciso muito mais que atores concentrados. Por sorte, eu e Juliana (Paes) estamos bem amparados pelo texto de Jorge Amado, que deixa bem claro a natureza instintiva da personagem. E pela direção bem feita do Mauro Mendonça Filho. As cenas são desenhadas e coreografadas por ele. E pelo que já assisti, o resultado é instigante e natural. Em nenhum momento parece alguma coisa forçada e isso é importante para o sexo “preguiçoso” de Gabriela e Nacib (risos).
P – “Preguiçoso”?
R – Sim. Eles fazem sexo, veementemente. Mas eles fazem de um jeito menos agressivo. Com aquela preguiça de depois ficar deitado, naquela malemolência, igual a gatos se lambendo. Aí depois fazem de novo (risos). Eles são assim. É amor, não apenas sexo.
P – Vinte anos depois da minissérie “Tereza Batista”, você volta a trabalhar em uma produção baseada na obra do escritor Jorge Amado. Era um desejo seu retornar ao universo do autor baiano?
R – Não sou muito de escolher ou buscar personagens. Soube pela imprensa que estavam pensando em mim para viver o Nacib. Já li muitas coisas do Jorge. E nessa minha preferência por personagens mais densos, de dramas mais complexos, achei ótimo ter essa oportunidade. Logo que recebi o convite oficial, aproveitei para reler “Gabriela, Cravo e Canela”. E pude relembrar da profundidade do texto dele. A história vai além da personagem-título, é um retrato político, social e sexual de uma sociedade em transformação. Participar de um projeto desse porte é bom para qualquer ator.
P – Você está sempre envolvido com alguma produção de tevê. Não gostaria de sair da zona de conforto e acumular outras experiências nos palcos ou no cinema?
R – Seria legal variar, fazer uma peça, um longa. Até tento fazer coisas fora da Globo, mas tenho de cumprir um contrato, e estou sempre comprometido com alguma novela. Infelizmente, não consigo fazer teatro e tevê ao mesmo tempo. É preciso dedicação e fica cansativo conciliar. Por sorte, a televisão tem me prestigiado com papéis importantes, fica difícil dizer não e partir para outro veículo. Eu seria louco se recusasse tipos como o Ricardo, de “Escrito nas Estrelas”, ou o Ramiro, de “Caminho das Índias”. Estou satisfeito com a minha trajetória, me sinto vivo e longe de qualquer comodismo.


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