O mestre demonstra
O discípulo se acercou do sábio e lhe pediu que desvelasse o passado espiritual, por sentir que o conhecimento dos sucessos anteriores poderia auxiliá-lo na edificação do futuro.
O venerando guru, após reflexionar, informou-o de que o véu do esquecimento, colocado como barreira tênue entre os dois tempos, constitui bênção de misericórdia divina em razão da fraqueza do homem ante a força das recordações, principalmente daquelas que envilecem o ser e entorpecem o discernimento.
Todavia, insistiu o imaturo aprendiz:
- Eu desejo interpretar as tendências que me propelem para a ira e a insubordinação, para o fácil rancor e a agressividade. Acredito que já fui poderoso e ímpio, gerando infelicidades e desafetos. Sinto-me confundido entre o que desejo alcançar e o que logro. A minha colheita tem sido de amargura e não de paz.
O que fazer?
— Esquece o mal e atua no bem — disse o instrutor — renuncie ao temperamento atormentado e te deixe arrastar pela correnteza da bondade de Deus. O que deve ser esquecido deixe-o, e o tempo te iluminará os espaços nebulosos com serenidade e ternura.
O jovem ouviu e não aceitou. Fez exercícios de meditação, inquiriu o inconsciente, desenterrou as lembranças, reviveu acontecimentos infelizes, e, por fim, desequipado de amor, apaixonado e solitário, enveredou pelo corredor escuro da loucura, complicando e perdendo a reencarnação redentora.
O passado merece ficar soterrado, constituindo a base para a edificação do presente, com os olhos postos na felicidade do futuro.
Eros
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