Ivan Santos

Discussões sociais, políticas e econômicas

Ivan Santos A coluna é assinada pelo jornalista Ivan Santos e discute o processo político, econômico e social. Ela é publicada diariamente no jornal CORREIO de Uberlândia.

24 de maio de 2013 8:36

Boatos contra os pobres

Jornalista

Já vi música mal composta, grosseiramente ensaiada e mal executada, mas nenhuma tão grosseira como a dos boatos sobre o fim do Programa Bolsa Família. Quem bolou e executou a heresia deu à presidenta Dilma a oportunidade de ocupar gratuitamente todos os meios de comunicação em horário nobre para reafirmar que o Programa Bolsa Família é Bondade Perpétua concedida aos pobres para que todos entrem para a nova classe média brasileira “sem medo de ser feliz”. Quem divulgou a ameaça contra os pobres o fez sem engenho, sem arte, porém com capacidade para espalhar a maldade em poucas horas, do Amapá aos Pampas. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, com fisionomia cândida, diante de câmaras de TV, anunciou que, por determinação da Presidenta, deu ordem à Polícia Federal para investigar rigorosamente a origem dos maldosos boatos que desencadearam uma corrida aos benefícios do Programa. Teriam sido sacados R$ 152 milhões em, pelo menos, 13 estados, onde o movimento foi atípico e maior do que nos fins de semana normais. Os assustados bolsistas gastaram toda a grana em poucas horas. Quando os caboclos assustados ouviram a presidenta garantir que a bondade não será extinta, de norte a sul ocorreu uma emoção coletiva colorida com a cor vermelha do PT! Só faltou quem anunciasse que o susto foi apenas um ensaio para 2014 e que, se os tucanos expulsarem Dilma do Planalto, o Programa Bolsa Família será substituído por trabalho forçado não remunerado por quatro anos no lugar das bondades da Bolsa. Os estrategistas de marketing que divulgaram o boato agiram sem malícia, porque não perceberam que a presidenta, com mais de 90% de aprovação popular positiva, reagiria com energia e deixaria os maldosos sem rumo, perdidos na braquiária do cerradão. Em Brasília, em convenção, os tucanos de bico comprido e bela plumagem, reunidos em convenção nacional no mesmo dia e na mesma hora da explosão dos boatos, nem perceberam que todos eles poderiam ser responsabilizados pela Tigrada como pais da criança feia. À Polícia Federal, depois de rigorosa apuração, descobriu-se o mistério e já se anunciou para todos os sertanejos e citadinos de Pindorama que “o boato surgiu foi nas ruas e não na internet”. Está resolvida a questão e o imbróglio: a paz voltou a reinar no reino encantado, do planalto às planícies. E assim continuará até a Copa das Confederações para o bem de alguns e felicidade geral da Tigrada. Tchau, macacada! Até o dilúvio programado para 2014! Viva nóis!

23 de maio de 2013 8:25

A OEA e as drogas

Jornalista

Toda autoridade disposta a encontrar uma solução racional para o problema causado pelo consumo e pela distribuição de drogas, em qualquer país do mundo, precisa tratar o assunto com responsabilidade máxima. Um recente relatório divulgado pela Organização dos Estados Americanos – OEA – recomenda que “a despenalização do consumo de drogas deve ser a base fundamental de qualquer estratégia de saúde pública e não as prisões de consumidores”. Acrescentamos, com base em longos anos de observação em torno do problema, que os programas que praticam aconselhamentos para recuperar viciados em drogas levam nada a lugar nenhum. Tais programas não passam de expedientes para gastar dinheiro público com assistencialismo; não passam de ações líricas. O relatório da OEA, com 400 páginas, não tocou em um dos mais sensíveis aspectos do debate: a legalização ou não do consumo de maconha, cocaína ou crack? A completa liberação da maconha, do crack ou da cocaína, que há anos defendemos, não resolve problemas de drogadição. É bom lembrar que a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos EUA deu origem ao mais violento tráfico de bebidas chefiado pelo gangster Al Capone. Só a liberação da venda de bebidas acabou com o tráfico, mas não com o consumo imoderado de bebidas alcoólicas que leva ao alcoolismo. Após a liberação da venda de bebidas, a sociedade americana e a mundial aprenderam a lidar com os alcoólatras e o tráfico e a corrupção que houve no tempo da Lei Seca acabaram definitivamente. Se o Congresso Nacional aprovar uma lei que proíba a venda de bebidas alcoólicas no Brasil, o tráfico de cachaça começará com força em todo o País. A liberação das drogas é o único meio de anular os traficantes. Não acabará o consumo de drogas, mas a sociedade e o Governo poderão tratar os dependentes com liberdade e sem preconceito. Ao longo de mais de meio século, o governo do Brasil tenta acabar com o tráfico de drogas no País com repressão policial, mas as estatísticas revelam que o tráfico e o consumo de drogas aumentam no País de um ano para o outro. Na última segunda-feira, o deputado federal Weliton Prado (PT-MG) informou que “os deputados federais tentarão, mais uma vez, votar nesta semana, o projeto de lei que propõe melhorar a estrutura do atendimento aos usuários ou dependentes de drogas” e “tratar com mais rigor os crimes que envolvam drogas”. Pra quê? Pra tudo continuar como está?

22 de maio de 2013 8:22

Regiões metropolitanas

Jornalista

No passado não longínquo, o cidadão Nárcio Rodrigues, procedente de Frutal e aspirante a uma vaga na Câmara Federal, criou em Uberlândia uma empresa de promoção, pesquisas e probabilidades eleitorais. Depois elaborou um Plano de Desenvolvimento Integrado Regional (Pladir) e convenceu o prefeito Virgílio Galassi a aceitar a ideia de Uberlândia liderar o “desenvolvimento econômico regional”. Era apenas um programa de estímulo eleitoral regional para ele próprio, Nárcio Rodrigues, se beneficiar. Virgílio Galassi apoiou “en passant” a ideia e o esperto Nárcio acabou por conquistar uma cadeira na Câmara Federal. Hoje, a proposta de criar, com base em Uberlândia e em Uberaba, regiões metropolitanas para ajudar a desenvolver economicamente o Triângulo tem a cara, a cor e a visão do Pladir. No passado mais distante, o engodo desenvolvimentista regional foi representado pela criação de Distritos Industriais. Vários prefeitos acreditaram que um distrito industrial instalado em uma área urbanizada era suficiente para atrair indústrias e criar crescimento econômico. Ainda hoje, há quem acredite nesse milagre. Desenvolvimento econômico é um processo complexo. Dirigentes de indústrias, nos dias de hoje, só escolhem uma cidade para instalar uma estrutura de produção econômica em troca de benefícios ficais ou se nela houver centros de pesquisas e mão de obra especializada. Dificilmente, uma indústria vai para uma pequena cidade localizada em uma região agropastoril. Uma Região Metropolitana não se cria por decreto nem por vontade política. Uberlândia e Uberaba já operam como centros de regiões cujas cidades pequenas localizadas no entorno pelos quais procuram para obter assistência médica, científica e tecnológica. É ilusão acreditar que, transformadas por lei em centro metropolitano, Uberaba e Uberlândia receberão mais recursos da União e do Estado para custear serviços públicos de saúde, educação, segurança e infraestrutura. O projeto das Regiões Metropolitanas em Minas tem cheiro e cor de politicagem eleitoral. É preciso tratar este assunto com visão racional para não ajudar a criar mais uma ilusão desenvolvimentista e abrir espaços na região para proselitismos eleitoreiros montados com a intenção de ajudar a eleger ou reeleger deputados estaduais e federais. Quem já viu filmes semelhantes desconfia de benesses fabricadas politicamente.