Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

9/02/2011 6:00

O povo ainda gosta de sangue

Escritor

O jornalismo entrou em uma nova era, por conta das ferramentas que a internet permitiu criar, abrindo ao leitor e expectador uma inédita oportunidade de participação na construção e no debate das notícias. O jornal CORREIO, em sua versão eletrônica, não perdeu o bonde da história e mantém uma interessante ferramenta na internet, para que os leitores possam comentar o que o jornal publica.

Embora legalmente proibidos, o anonimato e a falsa identidade são facilmente praticados na internet. Isso tem um lado ruim, principalmente para quem é alvo da fúria verbal de alguns internautas. Por outro lado, é muito interessante por permitir que as pessoas expressem o que realmente pensam, sem eufemismos ou retoques de linguagem. Enfim, a voz real do povo parece mais clara e forte na internet. Tenho visto isso frequentemente nas reportagens do CORREIO sobre crimes ocorridos na cidade, com destaque para dois deles: os assassinatos de Neilton Cobo e Jaqueline Pereira.

Se você visitar a página do CORREIO, verá que inúmeros internautas expressaram suas opiniões sobre esses fatos trágicos. O que me impressionou mais foi que muitos comentários foram no sentido de satisfação com a morte dessas duas pessoas. Para quem trabalha com a Justiça e está acostumado a enxergar tudo pelas lentes das leis e da Constituição, é um espanto constatar que boa parte da sociedade ainda fica extremamente feliz quando algum suspeito ou condenado por crime é morto. A gente aprende que a evolução de um povo é exteriorizada principalmente pela crença desse mesmo povo nas leis e no sistema judicial, na ideia de que essa é a melhor forma de pacificar a sociedade, de punir e recuperar seus delinquentes. Assusta ver que boa parte ainda clama por sangue e se regozija quando a “justiça” é feita pelas próprias mãos.

Não conheço a vida do Neilton ou da Jaqueline. Sei que algumas pessoas da família dele já passaram pelas páginas do jornal, mas não posso falar nada por absoluto desconhecimento da realidade. Estudei com um dos irmãos do Neilton e ele foi sempre um colega de classe alegre, atencioso e querido. É o que sei. Quanto à Jaqueline, li que estava sendo acusada de um homicídio, mas li também que ainda não havia sido julgada.

Diante dos comentários no jornal sobre a morte dos dois, tenho certeza apenas de algumas coisas: 1) a liberdade de expressão é uma das grandes conquistas da internet; 2) o Brasil está evoluindo, mas ainda há muito a ser feito para diminuir a sede de sangue de grande parte da população; 3) algumas pessoas, ainda que o país evolua o máximo possível, continuarão sentindo prazer com a morte de quem não tem um conceito social totalmente aprovável, pois está no sangue do ser humano o gosto pelo “justiçamento”, infelizmente.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

Comentários (3)

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  1. Aline disse:09/02/11 10:27

    E como é/foi polemico esses dois fatos que vc citou no teu texto, também acompanhei as notícias e comentarios, voce tem razao hehe, Parabéns pela coluna, to adorando!!! Beijos.

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  2. Tatiana Vilela disse:09/02/11 18:19

    Caro Doutor, muito sábias e bem colocadas suas palavras. Eu escrevi comentarios sobre o assassinato desta moça, a Jaqueline. Motivada talvez pelo fato de minha mãe ter ouvido os tiros da porta da loja já que ela estava no shopping no momento do crime, talvez por ter me sentido incomodada com as colocações do povo aprovando a barbarie do “fazer justiça com as próprias mãos”;talvez porque acredite na justiça, no fato de que a moça merecia sim ir à júri e não ser morta friamente com tiros no rosto e pescoço e de continuar sendo agredida e difamada mesmo depois de morta,com pessoas se regozijando com o brutal crime do qual ela foi vítima, sem ter ninguém que a defendesse. Imagino que um pouco de cada uma destas razões. No entanto fui tremendamente agredida verbalmente por muitos dos que escreviam na coluna aprovando o assassinato. Mas enfim, escrevi o que minha consciência mandou.Pena que sou a exceção e que a maioria é como o senhor mesmo coloca.

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  3. Glauciene disse:12/03/11 23:15

    Concordo com vc Tatiana, tem gente, como o Alexandre mesmo disse, que gosta de justiça feita com as proprias mãos. Isso não é coisa de Deus tudo tem sua hora, e a Jaqueline não era uma pessoa tão ruim, ela tinha um emprego digno ela assumiu o crime pois foi sem intenção de matar e estava respondendo por ele e aguardando o julgamento, o homem que a matou acabou com a vida dela e com a dele. O que adiantou a vingança?…

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