Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

30/03/2011 6:00

A insegurança

Escritor

Acostumamos a ver centenas de filmes de Hollywood mostrando os americanos em guerra, seja contra russos, vietnamitas, chineses, muçulmanos, alemães, líderes tribais africanos ou narcotraficantes latino-americanos. E também sempre vemos os EUA indo para a guerra de verdade. Agora mesmo, há soldados americanos no Afeganistão e navios bombardeando a Líbia. O Brasil, por outro lado, sempre manteve um posicionamento pacífico e sempre foi a favor da paz.

Analisando assim, parece que somos uma nação pacífica e que damos o máximo valor à vida, ao contrário dos EUA. Bobagem. Não gostamos de guerras, o que não significa sermos pacíficos. O brasileiro é violento e tem muito menos respeito pela vida alheia do que a maioria dos americanos. Um tiroteio em uma escola por lá arranca palavras até do presidente. Uma chacina em uma favela aqui custa a sair em um canto de página de jornal. E não se pode culpar a pobreza brasileira, pois já viajei muito e sei que países bem mais pobres, como a Bolívia e o Peru, também latinos como nós, não têm uma violência física ou patrimonial como a que temos. Eu outubro, estive em Cuzco e ouvi histórias sobre os princípios morais dos povos originários daquela região, que até hoje refletem no comportamento das pessoas, gerando baixa criminalidade. Por isso, não é possível culpar a pobreza pela violência. Talvez a desigualdade seja culpada, isso sim. Mas, mesmo nossa desigualdade extrema não justifica o desprezo que temos pela vida e pelos bens alheios, a capacidade que o brasileiro tem de matar, assaltar, furtar, enganar. Acredito ser uma questão cultural e, claro, de impunidade secular.

Aprendemos nos livros escolares que o Brasil era o destino dos banidos de Portugal, de bandidos, desajustados. Será que isso reflete em nossa genética? Ou será que a genética nada tem a ver com isso? Não sei. Mas sei que o sistema de privilégios a usurpadores, a proteção aos abastados, ainda que bandidos, a corrupção histórica contribuíram para sermos o que somos. Na atualidade, sofremos ainda com a falta de estrutura das polícias, cujos membros não recebem treinamento e material adequados, muito menos salários; com a corrupção nos órgãos que cuidam da segurança; com uma legislação – que, graças a Deus, tende a ser alterada – a dar infinitas possibilidades de recursos aos réus, até que a ação prescreva; com um sistema carcerário monstruoso, cujas prisões parecem masmorras, como disse recentemente o presidente do STF. Enquanto não mudarmos essa realidade, vamos continuar sofrendo com a violência física e patrimonial. Não se pergunte se você vai ser uma vítima, mas quando vai ser. Eu fui vítima dessa violência na última sexta-feira. Não tenho esperanças de que não voltarei a ser.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

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Comentários (3)

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  1. Ademir Bernardes disse:30/03/11 20:22

    Em primeiro lugar, creio que, enquanto não se investir de verdade em educação essa realidade não vai mudar. Infelizmente não tenho esperanças de que isso aconteça em curto ou médio prazo, visto que, nossas autoridades nada fazem para mudar tal paradigma. Obviamente que, são enormes as disparidades existentes no Brasil, a distância entre o rico e o pobre é muito grande, no entanto, não acredito que essa é única causa para tanta violência em nosso país. Creio que somado a isso existe o fato de termos arraigados em nossa cultura o famoso “jeitinho brasileiro” ou seja, o fato de as pessoas quererem se dar bem às custas do próximo, seja em atos “pequenos” como furar a fila do banco, ou, em atos maiores como assaltos, sequestros,latrocínios afim de subtrair o que é do outro.

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  2. Vivence disse:03/04/11 14:55

    Acredito que tudo isso seja influência dos programas de tv, que sempre apelam com cenas de muito impacto, principalmente relacionado a sexo, dinheiro e violência. Tudo parece muito natural, até necessário para se dar bem. Enquanto muitos dizem que censura é o mesmo que ditadura, eu acredito que seja exatamente o contrário, faz-se necessário que haja um limite para o que estas emissoras colcocam dentro das nossas casas, enquanto não houver, não tenho liberdade de ligar a tv em qualquer canal quando meus filhos estão por perto, pois prefiro não correr o risco de deixá-los crescer totalmente sem noção da realidade, influenciados por essa máfia que a tv aberta se transformou.

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