Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

6/04/2011 6:00

Bolsonaro e a liberdade de expressão

Escritor

Se você acompanha os jornais, deve ter visto a polêmica entre o deputado Jair Bolsonaro e a Preta Gil. Perguntado por ela qual seria sua reação se seu filho se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro respondeu: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.

Bolsonaro é um sujeito polêmico que, se fôssemos classificar, poderia ser colocado à extrema direita da política. Ele se posicionou contra a campanha do desarmamento, critica abertamente o homossexualismo, ataca o sistema de cotas, detonou os trabalhos da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, enfim, é radical e polêmico, quase sempre defendendo pontos que em outras épocas cairiam bem no discurso de membros da TFP.

Porém, é da democracia acolher e respeitar não apenas os moderados, mas também os radicais, sejam eles de esquerda ou de direita. Aliás, eu sempre apreciei o direito de voz dos extremistas, pois são eles que nos lembram em que não devemos nos transformar e que sempre é necessário buscar o bom senso e a moderação. Sem os radicais, talvez nos esquecêssemos disso. O Congresso Nacional, que é a casa do povo, não deve buscar expurgar os extremistas, pois o povo também é formado por eles e, sem tais congressistas, a representação não estaria completa. Não trago aqui nenhuma ironia, falo de forma sincera e refletindo o que realmente penso. É um perigo querer calar os radicais, porque você nunca sabe quando você mesmo pode ser taxado de radical e, com isso, ser banido da participação política.

É discutível, porém, se essa liberdade de expressão dos extremistas é absoluta. Para proteger a atividade política de deputados e senadores, a Constituição diz que eles são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. Isso é essencial para a democracia. Mas, como dito, há limites para essa imunidade? Muita gente defende a liberdade de expressão acima de tudo. Se o sujeito não gosta de gays, negros ou pacifistas, ele deve ter liberdade para assim se expressar. Para outros, há limites: um discurso que configure racismo, crime inafiançável e imprescritível, estaria fora de qualquer direito à liberdade de expressão ou imunidade parlamentar.

O que eu penso disso? Sinto repugnância pelo que Bolsonaro disse. E, juridicamente, aprendi que não há direito absoluto. Por isso mesmo, o deputado, mesmo tendo a imunidade a lhe proteger, não pode dizer tudo o que pensa. Mas, acredito ainda que o melhor nessa história é o próprio Congresso, por meio de seus procedimentos disciplinares, dizer se Bolsonaro apenas fez uma defesa política de suas ideias, o que faz parte da democracia, ou se seu extremismo deve ser considerado uma patologia desnecessária para o país.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

Comentários (10)

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  1. João Antonio disse:06/04/11 7:25

    parabens pelo texto, poderia ser completado com uma simples pergunta : a pseudo repoter queria ouvir o que do Sr.Jair? não satisfeito com o respeito merecido, adquirido vai se ficar com caçoadas, cutucando onça.

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  2. Andre Rodrigues disse:06/04/11 9:00

    Não sei se é engraçado ou estupidamente triste… Concordo que o Bolsonaro agiu com desrespeito, mas aqui vale a avertura para outro tema citado no texto: “a mesma liberdade que os GLS têm de expressar suas idéias, eu deveria ter para agir contrário a elas”. Sinceramente, sou vítima de preconceito só porque não concordo com eles. Ah, se eu procurar os meus direitos na justiça, VÃO COLOCAR MINHA FOTO NA PRIMEIRA PÁGINA como fizeram com o Bolsonaro. Ôh Carta Magna, cadê você COM SUA EFICÁCIA???
    De qualquer forma, parabéns pelo texto.

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  3. Mário Borges disse:06/04/11 10:55

    Parabéns pela sua coluna, foi honesta. o Dep. Bolsonaro realmente exagera nestas horas, entretanto a resposta dada a Preta Gil não bate com a pergunta, acho que Ele entendeu “e se seu filho se apaixonasse por um Gay ?”, Ele já nervoso, com emoção , respondeu violentamente, ofendendo a família da Cantora. Agora o Marcelo Tass (CQC) dizer que sua filha é Gay e mora nos EE.UU , e que Ele gosta muito Dela , não faz sentido para o caso.

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  4. Theo disse:06/04/11 11:04

    Caro Escritor. Ótimo texto.

    Apenas a titulo de esclarecimentos, penso ser importante deixar claro que o termo homossexualismo é incorreto.

    O sufixo -ismo, designa doença, e a medicina, há tempos, não classifica a homessualidade como tal.

    Das próximas vezes, utileze homossexualidade.

    Obrigado e parabéns!

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  5. Luara disse:06/04/11 17:51

    Nossa adorei!
    tenho um trabalho sobre isso pra entregar hj, vc me ajudou muito, Obrigada!

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  6. joao roberto spini machado disse:12/04/11 11:10

    Bolsonaro é Direita Assumida.Direito dele.e a Srta.Gil? O que ela é? Esquerda?,AntiHomofóbica?Não faça-me rir,por favor…

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    • Alexandre Henry disse:12/04/11 14:21

      Spini, uma coisa é verdade: prefiro ter um embate com quem declara o que é. Aliás, se uma pessoa é de ultradireita, mas assume sua condição, acaba ganhando meu respeito, ainda que eu seja absolutamente contrário às suas ideias.

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      • joao roberto spini machado disse:15/04/11 11:13

        Dr.Henry.Concordo,em linha,numero,grau com voce.Sinceramente,Preta Gil é de Esquerda? Sim,desde que lhe traga um bom marketing comercial-artistico,respaldado,pelo Papa Gil,genial compositor de quando em quando,com aquele har vooduistico e haitiano.Cruzes!…

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  7. Lisnei disse:04/05/11 15:27

    concordo com o senhor, embora bolsonaro seja inimigo dos negros, dos gays e um admirador de Átila, devemnos dar a ele o direito de flar, talvez ele não daria nos este direito se poder tivesse para nos impedir de declarar o que pesnsamos. No entanto direito à opinião é universal.

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